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Os castelos de areia do Presidento

Em 2009 o escândalo da vez chamava-se Castelo de Areia. Chegaram à Polícia Federal gravações que mostravam esquemas de corrupção no Grupo Camargo Corrêa.

As investigações avançaram sem os chamados “vazamentos seletivos” que acontecem na Lava Jato. Mesmo assim alguns nomes vieram à tona. O ex-governador José Roberto Arruda, aquele do alface, preso hoje pela PF na Operação Panatenaico, que investiga o rolo no estádio Mané Garrincha; Elton Zacharias, secretário de Habitação do então prefeito e atual ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações Gilberto Kassab; Adhemar Palocci, irmão de Antonio Palocci, que está preso pela Lava Jato; e… Michel Temer, citado 21 vezes.

Dizem que era batom na cueca. Mas em 2011 o processo foi encerrado porque as gravações (ou a cueca) não serviam como prova por serem ilegais. E, obviamente, os personagens acima e outros tantos negavam as denúncias.

Agora a Camargo Corrêa está na Lava Jato. Suponho que a PF, de posse de todo esse material, usará as informações para inquirir os acusados ou, como parece que vai acontecer, negociar o prêmio dos delatores. E a ordem dos fatores vai alterar o produto. Isto é: provas novas e válidas serão geradas com base nas provas velhas e inválidas. A ver.

O escândalo da vez envolve Michel Temer, Joesley Batista e uma gravação clandestina feita na garagem do Palácio do Jaburu. Igual no caso da Castelo de Areia, o Presidento tentar desqualificar o valor de prova da gravação para se safar. Mas se esquece de negar o conteúdo que revela diversos crimes. Tudo o que alcança é se incluir na desqualificação, dizendo-se ingênuo, sonolento, sem memória.

Quer dizer, mesmo que o áudio tenha sido editado, a relação entre os casos também foi. O enredo do filme da Castelo de Areia, que durou anos, virou uma minissérie de uma semana com a JBS, especialista em cortes. Ou seja, no final, com gravações válidas ou não, os fatos vencerão.

Nota extra: minha paciência com a teoria da conspiração que grassa na cracolândia das redes sociais acabou. Volta Lula? JBS, Globo e PT unidos contra Temer? Nem Jó aguenta. Joesley falou das contas suíças com cento e cinquenta milhões de dólares para Lula e Dilma.

Não serve? Lembre, freguesa, de Lula e Dilma, há pouco mais de um um ano, também numa gravação, com ela mandando o tal Bessias e ele profetizando o “tchau, querida”. Era a tentativa de tornar Lula ministro e garantir foro privilegiado. Sabe qual é a pauta urgente hoje no Congresso? Reforma da Previdência? Não. Votar a medida provisória que garante privilégio de foro a Moreira Franco.

Pense que, renunciando, Temer perde o foro e pode ser preso. Se ficar no Planalto, fazendo o país sangrar, sangra e enfraquece também a Justiça, fortalecendo o discurso do Lula de que são todos iguais.

E num raciocínio inverso, julgado e preso pelos crimes revelados na gravação serviria como pá de cal sobre o discurso de que a Justiça é parcial e, Lula, perseguido político.

O que você acha que Luís Inácio prefere? a

 
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Confiscar a JBS Friboi?

Professor de Direito do Mackenzie e advogado falencista destacado, Jeremias Alves Pereira Filho criou um grupo para debater se cabe confiscar a JBS. Eis a mensagem:

“Sou pelo confisco liminar das empresas, afastamento e prisão dos controladores e diretores, nomeação de administrador privado idôneo, continuidade dos negócios e reversão do lucro líquido ao Tesouro Nacional.

Alguém teria legitimidade e culhão para requerer à presidente do STF????

Aliás, igualmente quanto TODAS empresas envolvidas em corrupção e com pedisos de leniência.

‘Sesse’ nos USA…”

Pelo WhatsApp compartilhei a mensagem e recebi três respostas interessantes. Um amigo do mercado financeiro disse que não há legislação prevista e que os acionistas precisam ser protegidos. Concordo. Não sou especialista mas entendo que os acionistas preferenciais (sem direito a voto no conselho) não devem pagar o pato.

Outros dois amigos, estes advogados, um criminalista e o outro societário, concordam que não há base legal. E o criminalista, que tem um viés forte de militância política, acrescentou que abriria um precedente perigoso para a ditadura civil.

Repito: sou palpiteiro, não especialista. E de pronto emendo que os acordos de leniência, desde que equilibrados e feitos com empresas que, apesar de envolvidas em corrupção, não são essencialmente feitas dela como no caso da JBS/Friboi, podem ser benéficos.

Sobre base legal, vejamos. Uma fazenda improdutiva pode ser desapropriada e entregue à reforma agrária. Se tiver desmatamento ilegal e/ou trabalho escravo, salvo engano, também pode.

Ontem, na Cracolândia matriz em São Paulo, houve uma operação policial que dispersou o fluxo e desocupou hotéis e pousadas que se destinavam ao tráfico de drogas. A promessa da Prefeitura é desapropriar, demolir e destinar as áreas à habitação popular. (Sobre direitos humanos, uso social de imóveis em geral e patrimônio histórico falamos depois.) Se é possível proceder assim com hotéis e pousadas envolvidas com crimes, por que não com uma S.A.?

 

Quem quiser contribuir, o e-mail do professor Jeremias é: jeremiasadv@jeremiasadv.com.br

 
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Tchau, querido

Apoio, apoio mesmo, se é que teve algum dia, o Presidento não tem mais. A quadrilha palaciana que o conforta não conta. Se alguém achar diferente, por favor se manifeste.

O próprio Temer, advogado constitucionalista, não tem defesa melhor do que alegar que estava com sono, que é uma figura ingênua, ou que o Joesley Batista é um bandido falastrão que age nos subterrâneos. Deve ser por isso que o ora revelado bidu de Alto de Pinheiros o recebeu às 22h30 no subsolo do Jaburu.

Parenteses para lembrar que José Yunes, que de falastrão não tem nada, afirma ter contado a seu melhor amigo Temer a história da compra de 140 deputados no esquema Cunha-Funaro-Padilha.

Sobre achar “ótimo, ótimo” um empresário polinvestigado manter na algibeira dois juízes, um procurador e esquemas diversos que vão do CADE ao FGTS, nada.

Pior: mentiu dizendo que a famigerada visita naquele sete de março foi motivada pela operação Carne Fraca – que só viria a acontecer no dia 17. Mesmo que Temer estivesse informado, Joesley não poderia estar. E, se estivesse, ou se o Presidento supôs que estivesse, a situação fica ainda mais grave.

O que há em torno do governo atual são dois argumentos emocionais. A eles.

Primeiro o medo da volta do Lula baseado numa teoria de conspiração envolvendo Globo, JBS e PT. Tudo arquitetado pelo Zé Dirceu, que está “solto”. Pausa para gargalhada. Estou com a Monja Coen: rir ajuda aguentar a dureza.

N’O Poderoso Chefão III don Corleone aconselha um sobrinho paranoico, obcecado por um inimigo: “Não odeie seu inimigo. Prejudica o raciocínio”.

Você que odeia o Lula, pense nisso por gentileza. O ódio e o medo podem estar te cegando, estreitando seu raciocínio. Não é razoável contratar um vilão para te proteger de outro. Por sinal, assim começou a máfia, séculos atrás, e até hoje não conseguiram se livrar dela.

O segundo argumento é a manutenção da agenda reformista. Ok, o governo não foi eleito com esta agenda que aliás é reprovada por dois terços dos brasileiros. Mas ninguém pode negar que pelo menos é uma agenda. Um norte.

Pergunta: o Presidento é a pessoa adequada para liderar essa agenda? Você o contrataria para pilotar um navio? Com Moreira Franco, Eliseu Padilha e Rodrigo Maia na galera?

Eu não. E duvido que você sim. Então bola pra frente. Quanto menos tempo o Temer durar, melhor. Tchau, querido.

 
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Temer, Joesley, Aécio, Doria e o vocabulário

Um dos meus martírios é ter memória. É irritante, constrangedor. E o pior é que se sobra em alguns temas, conferindo certa reputação, em outros falta. Nomes de lugares e pessoas, por exemplo, me escapam com frequência. E isso, sabe-se, pode magoar alguns. Ser bom fisionomista com predileção por detalhes e situações agrava. Gente se decepciona quando nos lembramos de passagens sem registrar os nomes próprios. Faço o que posso para corrigir mas a luta é inglória.

Dito isto, vamos à passagens recentes que emergiram neste hipocampo na quarta-feira passada após o furo do Lauro Jardim, n’O Globo.

O mesmo Lauro, no fim de fevereiro, publicou uma entrevista com José Yunes, então assessor especial da Presidência e primeiro-amigo do Presidento. Comentei aqui.

Yunes revelou que contou pessoalmente a Temer sobre o plano de aquisição de 140 deputados envolvendo Eduardo Cunha, Lúcio Funaro e Eliseu Padilha. E o Michel? Reagiu “com aquela cara de serenidade (risos)”.

Será a mesma cara que Joesley Batista viu no Jaburu enquanto contava ao Presidento sobre dois juízes, um procurador da força tarefa da Lava Jato, esquemas no FI-FGTS, CADE e outros bichos? Provavelmente.

Não é de hoje que o Presidento, na mais magrela das hipóteses, prevarica. Agora tenta manter a bunda no Planalto alegando cortes na gravação do Joesley. Diz inclusive que atacam seu vocabulário e sua inteligência. Por favor… Os cortes da Friboi são picanha, fraldinha, maminha. Estão incinerados e o Temer querendo discutir se a carne fora bem salgada? Respeite ao menos a inteligência do povo brasileiro. Pede pra sair que dói menos. Principalmente na carne de quem não come churrasco há alguns meses.

E o João Doria, estarrecido com o vocabulário, mas do Aécio Neves? Para ele, aparentemente, a vulgaridade da forma é pior do que o conteúdo. Para mim, pior é a minha memória.

Durante a prévia do PSDB que escolheu João candidato a prefeito em São Paulo, o Painel da Folha trouxe o seguinte Contraponto:

Quarto errado?

Em 2014, Aécio Neves rumou a São Paulo para um evento de campanha. Chovia torrencialmente, mas o então presidenciável havia se comprometido a encontrar com um empresário que fora convencido por João Doria a contribuir com a sigla. Com o discurso de agradecimento ensaiado, Aécio abriu a porta do quarto de hotel reservado na capital para o encontro com o generoso apoiador:

— O que é isso, gente?! — reagiu com sorriso amarelo, ao ver Doria e o empresário trajando apenas roupões.

A chuva os deixara ensopados e eles aguardavam as roupas secarem. Aécio só se acalmou e caiu no riso quando viu seus assessores na sala devidamente trajados.”

Muito bem. Tratando-se de forma, não me parece menos vulgar fazer reunião de doação de campanha em quatro de hotel. E não consta que João, patrocinador de advogados céleres em notificar extrajudicialmente internautas que o ofendem nas redes sociais, tenha processado a Folha por notícias falsas, pós-verdade ou coisa que o valha.

Então ficam as perguntas: 1) Quem era o empresário? 2) Por que a reunião em quarto de hotel e não em um escritório ou lugar público? 3) A doação se confirmou? 4) Quanto foi? 5) Foi declarado? 6) Quem eram os assessores/testemunhas presentes? 7) O senhor costuma fazer esse tipo de ponte entre políticos e empresários?

 
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Sai daí, sai logo, Presidento

Há por aí gente moderada defendendo o governo do Presidento. Quiçá por duplo excesso de expectativas. Primeiro com os efeitos das reformas trabalhista e da Previdência, que mesmo atropeladas, antagônicas e paliativas, sobretudo ante o novo cenário global do emprego e da longevidade, servem para acalmar “os mercados”. Não por acaso, é a mesma turma que crava a promoção do ministro Henrique Meirelles à Presidência da República em prováveis eleições indiretas, como prevê o Livrinho.

Depois pelo destaque que o aval presidencial à mesada da JBS para manter o silêncio dos presos Eduardo Cunha e Lúcio Funaro teve no furo do Lauro Jardim sobre a gravação do Jaburu. Por conveniência ou, na melhor das hipóteses, desatenção, minimizam o fato do empresário notoriamente corrupto ter visitado a intimidade do Presidento de noite, na surdina, e conversado com naturalidade sobre um procurador e dois juízes que mamavam nas tetas da Friboi, acertos no CADE, jeitinhos com Geddel e Henrique Alves “trabalhador”, e inclusive a “interlocução” temerária do Planalto com dois ministros do STF. Quem seriam? Gilmar? Alexandre? Façam suas apostas.

São Pedro também está contribuindo. Ainda que cada vez mais distante de qualquer coisa que possa ser classificada como moderação, o porteiro do Céu ajuda o governo. Em pleno maio, mês sem erre, na noite de quarta-feira choveu forte em Brasília. E São Paulo nesta sexta está debaixo d’água e não alcança vinte graus. Sabemos todos que brasileiro não topa chuva. Qualquer garoa esvazia a rua. Bravos são aqueles ucranianos que protestam com neve e menos quinze no termômetro.

A turma que ainda apoia o PT chegou a fazer evoluções na Paulista sob chuva e na Cinelândia. Já a turma dos trios elétricos, vulgarmente conhecida como “movimentos de rua”, se parece cada vez mais com os velhos partidos políticos. Ora ataca, ora apoia, dizem que sim mas que não muito pelo contrário, melhor aguardar. Esqueceram a célebre foto com Eduardo Cunha recebendo o pedido de impeachment.

Parênteses para o Meirelles. Como é que ele explica sua passagem pelo Conselho do grupo JBS? Ficou lá e não viu nada? Assim como a Dilma no conselho da Petrobrás? E antes disso, quando esteve no Banco Central. Foi informado da crescente grana viva sendo sacada nos caixas dos bancos, ora revelada. É automático. Quais providências tomou?

Parênteses para Aécio. Porra, caralho, heim? Que merda, peba. O advogado dizer que era dinheiro emprestado de um amigo para pagar a defesa? Depositar na conta do Perrela? E, pra não dizer que não falei das flores: João Doria, em lamentável entrevista à Jovem Pan, não foi perguntado sobre Rodrigo Rocha Loures, aliviou para Temer e atacou Aécio. Mas para o nosso prefeito, o problema está na forma, não no conteúdo.

Parênteses para Temer, que a aliados teria atribuído deslizes no colóquio palaciano ao sono. Como diria um erudito dado a trocadilhos, flácidos colóquios para acalantar bovinos. Ou conversa mole para boi dormir.

Parênteses para Joesley. Tendo a forma física elogiada pelo Presidento, agradeceu e deu a receita: “não é comer pouco, é comer bem, menos doce, menos industrializado”. Falou o maior produtor de nuggets do mundo.

Ainda o Joesley, incluindo o Wesley, o ministro Meirelles, o presidente do BC Ilan Goldfajn e a CVM: quais medidas serão tomadas sobre a compra de dólares na véspera da crise? O acordo da JBS com a Procuradoria foi generosíssimo, coisa de duzentos milhões de dinheiros em multa (Odebrecht/Braskem morreu com mais de seis bilhões), mas terá incluído permissão para usar informação privilegiada no mercado financeiro? Não pode ser. É crime novo, flagrante, e deve ser apurado.

Coisa boa – e agora a expectativa é minha – é a sagração da chamada operação coordenada da Polícia Federal, onde o delator combina a colheita das provas. Pode ser o caminho para evoluirmos para o que os americanos chamam de Lei do Tocador de Apito (Whistleblower), que por aqui poder-se-ia chamar Lei do Tocador de Berrante. Basicamente, quem vê coisa errada onde trabalha, e cala e consente por medo de perder o emprego, pode recolher provas e levar às autoridades. Ao cabo do processo, fica com uma comissão da multa aplicada.

Para encerrar, o que vem pela frente é o seguinte. Igual a Bolsa que despencou e o dólar que disparou pela baixa imunidade do país, como há muitos anos não acontecia, o Presidento, que já era fraco, está muito mais vulnerável. Se as medidas, mesmo as exitosas, custaram tão caro ao país por pressão dos parlamentares e setores da sociedade, agora ficou mais caro. Muito mais caro.

Sai logo, Michel. Você já está atrasado há anos, desde quando viu o descalabro da Presidenta, calou, insistiu, e só tomou posição quando foi conveniente. Sai daí! Faz as malas, Marcela.

 
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Pinguela sendo pinguela

No fim da tarde de 17 de maio de 17 o mundo todo, Terra Brasilis incluída, acompanhava a possibilidade de impeachment do presidente dos Estados Unidos, Mr. Donald, o “çábio”.

De repente, soa o grande alarme brasileiro, que é a vinheta do plantão do Jornal Nacional. Trêmula, Renata Vasconcellos dava a notícia: os irmãos Batista da JBS Friboi gravaram o presidento Michel Temer operando a favor de uma mesada para manter o silêncio de Eduardo Cunha e seu operador Lucio Funaro.

O senador Aécio Neves também fora gravado pedindo dois milhões de reais por “uma ajuda do caralho”. A gaita serviria para pagar seu advogado de defesa. Rastreada por um chip programado pela Polícia Federal, verificou-se que a mala foi parar numa empresa do Zezé Perrela, aquele do helicóptero com 400 quilos de cocaína. E a fita ainda trazia faixas com Guido Mantega, Moreira Franco e outros baluartes dos anos presidenta-presidento.

A pretensa ponte para o futuro ruía. Mas era só a pinguela sendo pinguela.

Impressionante no caso é que, em plena Lava-Jato, a turma continuava operando nos subterrâneos como aparentemente sempre fez. Inacreditável. Malandros demais ou idiotas? Dá no mesmo. Sensação de impunidade ou armação? Tanto faz.

Destacam-se no rolo duas atuações ora reveladas. Renan Calheiros, consigliere do diabo, não foi gravado porque julgou imprudente falar com os Batista a essa altura do campeonato. E os Batista, Joesley e Wesley, safadões, teriam comprado dólares nos últimos dias, usando as informações que tinham para lucrar financeiramente. Estima-se que os ganhos seriam suficientes para pagar toda a multa da JBS combinada no acordo com a Justiça. Porém fica a pergunta: não seria um crime novo, alheio aos anteriores? Nos Estados Unidos a apresentadora de TV Marta Stewart foi presa porque operou informação privilegiada conseguida numa sessão de análise.

De espanto em espanto emendo mais um: o mimimi dos que esperavam a conclusão das reformas trabalhista e da Previdência a qualquer preço. Mesmo estando claro que o molho estava ficando mais caro do que o frango, compraram a ideia e estavam dispostos a pagar qualquer coisa por ela. Digo, apoiar que o Brasil pagasse qualquer coisa por elas.

Fato: sem popularidade e legitimidade discutível, a pinguela do presidento só chegou até aqui porque tinha alguém pagando a base parlamentar. Ontem ficamos sabendo de um. Mas evidentemente há mais, muito mais. E, por que não dizer?, eu e você, freguesa, todo e qualquer brasileiro.

Se Temer resistir vai dar merda. Melhor renunciar logo e ir direto do Planalto para a Polícia Federal se entregar. O que ele fez é crime e uma das poucas coisas que justificam prisão preventiva: obstrução de justiça.

Resta saber o que fazer. Como diria o Vinícius de Moraes, “nada renasce antes que se acabe”. Pois que se acabe o quanto antes para que possamos discutir junto qual é a agenda que queremos para o Brasil.

 
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Zara

Nossa querida Lulu Librandi fazia anos e preparou um convescote. Lá fui eu. E artistas mil apareceram, como sempre, para festeja-la.

Entre tanta gente descolada e cheia de personalidade, da entrada do salão uma figura se destacou. Era ao mesmo tempo fidalga e descontraída. Um colosso de charme capaz de provocar inveja pela maneira que usava uma bengala. Acompanhei com prazer sua evolução pelo espaço, mais lenta pelas saudações carinhosas que recebia do que pelo uso da bengala.

Dias antes o mundo publicitário acompanhara atônito uma briga feia entre duas estrelas do ramo, presidentes de duas grandes agências. Até rímel se misturou aos perdigotos espalhados por e-mail. Não havia rede-social. Hoje está tudo bem resolvido, com grandeza e elegância de parte a parte.

A figura charmosa, além de artista plástico e colecionador, era um dos maiores publicitários do Brasil. O Z da DPZ. José Zaragoza. Ou simplesmente Zara. Baluarte da geração acima da dupla briguenta.

Com sua aproximação me levantei para cumprimenta-lo. Ele não me conhecia, mas sou atrevido assim. Saudações feitas, me contou que chegava de uma viagem horas antes. Repliquei que era sorte dele, por ter se livrado de acompanhar a contenda. E ele rindo treplicou: – “Ah, esses meninos…”

Anos depois algum bar da cidade me deu de presente a amizade de outro Zaragoza, o Fre, filho do Zé, maestro e o melhor compositor da mistura clássica de gin com vermute seco. Quem fez a embaixada foi o Ivald Granato, que ontem, junto com a Lulu e outros amigos, receberam o Zara na Eternidade, quando seu coração, usado e abusado por mais de oito décadas, parou de bater.

Imagino que eles estejam agora reunidos em algum lugar muito parecido com a residência Zaragoza, no Guarujá, projetada pelo arquiteto mexicano José Martinez Flores. Simples e refinada, espaçosa e acolhedora, reservada e repleta de luz e de ar fresco como deve ser o Paraíso.

A convite do Fre e da Kathia passei lá uma tarde deliciosa com José e Monique e convidados. Memorável, mesmo com a minha imprudência de tomar dois pileques no mesmo dia. A trilha sonora que ficou, programada pelo filho maestro, era The Good Life com o Tony Bennet.

Conversa vai, conversa vem, Zara se recolheu para tomar um banho e voltou fresquinho, vestindo uma camiseta com duas letras enormes estampadas no peito: EU. Fazia calor e a turma alternava os drinques com mergulhos na piscina. E insistia para ele sublimar o banho e entrar de novo. Mas ele dizia que não, que tinha usado até xampu, muita mão de obra.

De repente, num daqueles hiatos de conversa, ele desfila pela varanda e simula uma queda na água. De roupa, óculos, tudo. Inclusive algum dinheiro no bolso. Fiquei me perguntando por que alguém, na piscina de casa, estaria com dinheiro no bolso. Dali a pouco surgem alguns operários do condomínio e o motivo apareceu: Zara distribuiu agrados, em dinheiro e latas de refrigerantes gelados.

De dentro da água, pediu para o Fre temperar seu uísque. “Mais gelo ou mais uísque? ” “Both!”, respondeu, emendando uma gargalhada.

Zara era assim, generoso com todos e com ele mesmo. Nasceu em Alicante, cresceu em Barcelona e chegou a São Paulo a tempo de nadar no rio Tietê. Por aqui ficou e fez história, família e amigos. Muitos. Usou, abusou e compartilhou cada batida do seu coração durante 86 anos.

 
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O único macho é o Zé Dirceu

Por aqui, demorou para cair a ficha. O Brasil fez piadas, muitas delas boas, sobre o depoimento do Lula. Eu mesmo soltei uma, com a tinta do molusco original se espalhando na água para confundir os predadores. Mas só depois de alguns dias a compreensão do que foi o tão esperado episódio da Lava Jato começou a clarear na minha cabeça. E está muito além de um depoimento pontual.

Volto alguns anos para atar o que quero dizer. Quando o Mensalão chegou ao Supremo, vimos o espetáculo de vitimização do José Genoíno. Arranjou uma fraldinha bordada com passarinhos, botou sobre os ombros como uma capa de super-herói, lançou mão dos versos do Mario Quintana, alegou que não podia ficar preso por conta de um piripaque qualquer no coração.

Naquela época escrevi que isso provocava algo esquisito em mim. Tamanho era o desprezo que eu sentia pelo Genoíno que, de alguma maneira, surgia uma admiração pelo impávido Zé Dirceu.

Passado tanto tempo, o sentimento voltou. Dessa vez por conta do Lula.

Se você não é freguês desta página e se pergunta o que eu acho da delação premiada, ou colaboração, como vem sendo chamada, sou a favor. Só não acho ótimo porque gostaria que avançasse mais depressa para a lei do tocador de apito que há nos Estados Unidos. Lá, o cidadão que trabalha no setor público ou privado e apresentar à Justiça provas de desvios sobre a instituição, tem direito a uma porcentagem em dinheiro do que for recuperado, a título de premiação pela colaboração.

Sobre a prisão do Zé Dirceu, se é que interessa ao possível leitor, minha opinião é a seguinte: eu teria votado como os dois ministros que acham que ele deveria continuar preso porque mesmo condenado, continuou praticando crimes. Mas se a maioria da segunda turma decidiu por três a dois que merecia ir para a prisão domiciliar, me resta acatar a decisão, posto que nada, muito menos a minha opinião, pode ser maior que uma instituição soberana.

E oxalá os mais de duzentos mil brasileiros que aguardam julgamento em segunda instância cumprindo pena nas cadeias tivessem condições de se defender da mesma maneira. Ou que prisão domiciliar para mães com filhos pequenos não fosse um privilégio da ex-primeira-dama do Rio de Janeiro, Adriana Ancelmo.

Adiante, pois. O que eu acho do Zé Dirceu estar enrolado como está e preferir não delatar? Problema dele. Bacana mesmo eu acho que é ele não se vitimizar e muito menos transferir a culpa para outra pessoa.

Daí que vendo o depoimento do Lula, onde ele transfere responsabilidades e intenções para a falecida Dona Marisa, sua mulher, companheira e mãe dos seus filhos, avó e bisavó de tantos descendentes, sinto nojo, repulsa. Tanto quanto ou quase sobre o que ele falou dos filhos. Terrível, abjeto, asqueroso.

O Tarso de Castro tem uma crônica ótima em que diz que todo mundo, absolutamente todo mundo, é “boiola”. Inclusive ele. E encerra dizendo que o único “macho” é o Nelson Rodrigues.

Numa atualização para a contemporaneidade, arrisco dizer que o único “macho” hoje em dia é o Zé Dirceu.

 
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Palmas para Barbara e Varella

Vira e mexe me pego entusiasmado para elogiar alguém. E é quase irresistível meter um “é o melhor”, “predileto”. Talvez seja comum de todos nós essa tendência ao superlativo. Em mim é recorrente, admito. Meu freio se chama Vinicius de Moraes.

Vão dizer que o Poetinha era exagerado em tudo. Cachaça, cigarro, mulher, amizade, comida. Mas a passagem que me freia é um depoimento sobre o Tom Jobim. Ele explica que a gente deve evitar termos comparativos. Então, para elogiar o Tom, ele bota um “Tonzinho é simplesmente genial”, em seguida de “Na América Latina, é Tom e Piazzolla”. Prova que é difícil escapar, até para quem é intimo das palavras. Mas também prova que dá para ser justo e elogiar sem diminuir outras figuras.

Hoje a manhã foi um caos. Desde ontem queria festejar a Vanessa Barbara como a melhor cronista da atualidade. Tenho amigas, primas, irmã que escreve, admiro e adoro diversas escritoras, jornalistas, mas a Vanessa Barbara é a que mais me empolga hoje em dia. Colosso. Mas gostaria de poder elogiar com mais serenidade, inclusive sem a separação do gênero. Tal pessoa escreve uma barbaridade e ponto. Então fica assim: Vanessa Barbara é simplesmente genial.

Ontem li seu retorno à Folha, na coluna de continuação à coluna de estreia na revista Serafina. Era uma ode à desatenção, ou como ela contribuiu para que chegássemos a 2017 desse jeito. Deleite. Gente distraída, estabanada e meio porca ajudou muito a humanidade. Só senti falta dos preguiçosos. Tenho para mim a certeza que a descoberta da roda, enquanto foi hipótese, sofreu ataques virulentos dos que estavam acostumados a carregar as coisas de um ponto ao outro.

Ao lado dela amanheci com a vontade irrefreável de elogiar o Drauzio Varella. Que figura excepcional. Deve haver por aí, mas eu não identifico, um brasileiro tão vasto quanto ele, capaz de fazer grandes coisas de modo tão despretensioso.

O doutor está lançando Prisioneiras, obra sobre presídios femininos que encerra a trilogia sobre as nossas cadeias, ao lado de Estação Carandiru e Carcereiros, e promete ser um retrato do nosso colapso social.

Ainda não li. Mas meu palpite é que, quem pensa que o flagelo do cárcere está distante, sensação muito comum da classe-média pra cima mesmo em tempos de Lava-Jato, ainda que prefira não ler o livro, pode pela televisão fazer o seguinte exercício usando novela das oito e Netflix. Vai notar que, nas primeiras, a partir das famílias economicamente remediadas, o café da manhã é tomado à mesa com uma empregada doméstica servindo patrões e patroezinhos. E nas segundas o presidente da República, os bilionários, os mafiosos, todo mundo dá conta do próprio desjejum. Pode demorar para ligar os pontos, mas antes por repulsa à realidade do que pelos fatos.

 
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Notas soltas

Presidento ano um

No aniversário de um ano da gestão do presidento Temer há balanços de todo lado. Igual a tudo na vida, há espaço para críticas e elogios. Pode-se notar avanços e atrasos. O mais curioso, porém, é que a agenda apresentada a partir da segunda posse da chapa Dilma-Temer em 2015, não tem nada a ver com a que foi eleita em 2014.

Ainda assim, com o mesmo Congresso, passou a funcionar a partir do afastamento da presidenta. Donde fica a pergunta: a que preço? Sem apoio popular e com legitimidade discutível, seja por questões políticas ou jurídicas, o molho pode estar ficando mais caro do que o frango. Para usar num exemplo cultural, se por um lado caminhamos para o fim do imposto sindical, do outro permitiu-se falar em trabalho escravo, notadamente através da proposta do deputado Nilson Leitão (PSDB_MT), que abriria espaço para descontar o custo estimado de casa e comida de até quase a metade do salario dos trabalhadores rurais, algo inimaginável um ano atrás.

Quarta-feira de Cinzas de um e a Terça-gorda do outro

Pessoalmente atendido pelo corretor e mestre de obras Léo Pinheiro, que nas horas vagas também era dono da OAS, uma das maiores empreiteiras do país, Lula teria dito que da parte dele não haveria interesse no tríplex do Guarujá. Talvez da Dona Marisa, que não gostava de praia – apesar de frequentar bastante –, mas poderia estar interessada num investimento, sobre o qual não teria consultado o marido.

Para justificar o desgosto pelo tríplex, Lula disse que, sendo pessoa pública, só poderia passear pela orla da pérola do Atlântico numa Quarta-feira de Cinzas chuvosa. Também não gostou da cozinha, apesar desta ter o mesmo padrão da instalada no sítio em Atibaia, nem da escada, o que é compreensível, dado o sabido apreço do ex-presidente por umas e outras. Falo de cátedra.

Só acho estranho isso de pessoa pública não poder passear entre a gente ordinária. FHC vendeu a casa que tinha em Ibiúna, juntou com milhão de dólares que recebeu como prêmio da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e comprou um apartamento no Rio de Janeiro, onde costuma passear com sua senhora, pelos calçadões sem ser incomodado de maneira impeditiva. Mas cada um é cada um, né?

26 de Junho

Homologada a delação de Mônica Moura e João Santana, ficamos sabendo que se comunicavam com Dilma através do e-mail iolanda2606@gmail.com. O 2606 me intrigou. Pensei que poderia ser 26 de junho e fui procurar saber como a data seria cara à presidenta. Bom, é o dia das Nações Unidas de apoio às vítimas de tortura. Sabemos que Dilma foi presa e torturada pela ditadura militar. Também marca o fim das revoltas de junho na Paris de 1848, e Dilma tem revoltas de junho, as de 2013, para chamar de suas. E curiosamente é o dia em que a bicicleta foi patenteada. Que ironia, justo ela, que seria cairia por conta de umas pedaladas.

Atualização – 13 de maio: O site O Antagonista trouxe hoje outra hipótese sobre o 26 de junho. É a data do atentado que matou o soldado Mario Kozel Filho, promovido pelo VPR, grupo terrorista que Dilma integrava durante a ditadura.

 
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