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Resgate cultural na primeira safra da farinatta

Temos que ser justos com o prefeito de São Paulo. Além de trabalhar tanto (chegou da Itália no domingo, terça estava em Brasília, hoje passou o dia em Goiânia e amanhã vai para um evento do LIDE no Paraguai) ele ainda consegue a proeza de fazer um resgate cultural relevante.

Recentemente propôs vender no mercado financeiro crédito de multas de trânsito sobre infrações que você, freguesa, ainda não cometeu. Por isso seja boa cidadã e não se esqueça de contribuir parando sobre a faixa de pedestres sempre que pegar uma pole Acelera.

A ideia evoca o Paulo Vanzolini, um dos nossos sambistas maiores. Anotei e o Estadão publicou: Aplausos para o editorial Mágica com as multas, de domingo. Inacreditável que na terra de Paulo Vanzolini, compositor de Ronda, Volta por Cima e Samba Erudito, que vai com o verso “soltei filipetas pra te dar um Cadillac”, em pleno 2017 vejamos um governo dito moderno pretender faturar fazendo o que se pode chamar de IPO da indústria da multa. Resta ao paulistano que acreditou na agenda de João Doria render-se à última estrofe do samba: “Então como Churchill/ Tentei outra vez/ Mas você foi demais/ Pra paciência do inglês/ Aí me curvei/ Ante a força dos fatos/ Lavei minhas mãos/ Como Pôncio Pilatos”.

Agora quem está na crista é o Adoniran Barbosa, xará de batismo do prefeito. Na pia, Peteleco foi João Rubinato.

Compositor de Trem das Onze, Saudosa Maloca e Tiro ao Álvaro, Adoniran fez também o No Morro do Piolho, samba que encerra recitando “É como diz o deitado: pobre quando come galinha, ou ele está doente, ou a galinha”.

Algo mais exato para celebrar a primeira safra da farinatta?

 
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Notas soltas: Somalia, Suburra e Pancetti

#DoNotPrayForSomália

O que impressiona mais sobre a Somália? As centenas de mortes ou o nosso silêncio? Ou a vulnerabilidade da desigualdade escancarada até nos números de óbitos de um atentado terrorista?

Releve a indelicadeza, freguesa, mas rezar pelos somalis – pelo Vale do Jequitinhonha ou por Cidade Tiradentes – só ajuda a quem transfere o peso da consciência para os joelhos.

Suburra

Coisa boa no Netflix é Suburra, a série, que deriva do longa-metragem homônimo, por sua vez baseado no livro sobre o escândalo apelidado de Máfia Capital.

O nome vem do vale no interior da Cidade Eterna, onde Aca Laurência, deusa da mitologia romana e mãe de leite dos fundadores Romulo e Remo, gemia enlouquecidamente, fazendo-se confundir com uma loba. Daí vem a palavra lupanar. Lupi é lobo em latim.

Segundo a Wikipedia, Subura era “fervente, clamorosa, um refugio de prostitutas, de revendedores de provisões, iguarias e adornos”.  Segundo a Netflix, continua.

Além do bravo enredo, que narra os diversos estados paralelos que governam qualquer lugar – no caso a máfia, a Santa Sé (que detém entre vinte e 30% dos imóveis na Itália), os ciganos, os sempre nobres, as famílias tradicionais e os novos empreendedores –, tendo como pano de fundo uma disputa imobiliária bilionária.

Tem a vantagem de estar com os dez capítulos disponíveis. Quem aguenta o semanário Designated Survivor?

Giuseppe Gianini Pancetti

Da Itália também vieram os Pancetti, que em Campinas tiveram o filho José, marinheiro, boêmio e pintor. O crítico do Estadão Antonio Gonçalves Filho anunciou a abertura da retrospectiva do artista e concluiu com uma frase deliciosa: “Pancetti jamais pretendeu ser moderno. Simplesmente foi”.

Com 45 telas expostas, a galeria Almeida e Dale apresenta uma curadoria digna de museu, com direito à linha tempo e uma variedade impressionante que amplia o horizonte muito além das marinhas.

Meu avô Francisco Coutinho foi amigo e médico do Pancetti nos anos 1940 em Campos do Jordão, quando ele subiu a Mantiqueira para tratar a tuberculose nos Sanatorinhos. Me emocionei com o inverno nas cores dos plátanos e araucárias da região numa tela que não conhecia. É na montanha e é inverno, mas não é rigoroso.

Saí com a impressão de que a mágica da obra está nesse acolhimento, capaz de ser ameno com intensidade. Como as vagas nas marinhas, que tragam a freguesia sem convidar ao mergulho. Marinheiros raramente mergulham em qualquer coisa.

Meu avô teve quatro marinhas, que vendeu nos anos 1980, quando o preço chegou a US$ 4 mil. Hoje valem cinquenta vezes mais. Como lembrança guardamos uma aquarela pequenina, com dedicatória “ao caro amigo doutor Coutinho”.

A vulgaridade do preço só interessa aqui por dois fracassos curiosos, mais graves do que o do meu avô.

Pancetti viveu um tempo como hóspede de uma prima na Praça Júlio de Mesquita, centro de São Paulo. Um coronel pagava a conta do apartamento e do uísque. Um dia, incomodado com o cheiro do óleo e o consumo elevado do combustível, reclamou. Orgulhoso, o pintor decidiu se mandar e deixou várias telas em forma de pagamento. Era um hábito antigo, dos tempos em que serviu na Marinha e trocava trabalhos por cigarros. Mas o coronel, estúpido, disse que não queria a “tralha” e distribuiu as telas entre os funcionários do prédio. Haverá uma ou outra, incógnita, na casa do zelador?

Isaurinha Garcia também era parente do Pancetti. A saudosa Lulu Librandi, produtora cultural e amiga da cantora, contava com tristeza que para pagar contas bobas ela se desfez de marinhas enormes. Uma delas teria trocado por uma caixa de conhaque nacional.

 
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Não ouvi panelas

Em setembro de 2007 Renan Calheiros era julgado em sessão secreta pelo Senado Federal. Acusado de ter contas pessoais pagas por um lobista, o então presidente do Congresso Nacional teria ido ao Salão Azul munido de dossiês contra todos os colegas. E meteu o dedo na cara de cada um de dos seus principais opositores. Foi absolvido. Placar: 40 X 35 com seis abstenções.

Dez anos depois os dossiês não valem nada. Com o que está publicado nos jornais, processos judiciais e, por que não dizer, no site da Câmara dos Deputados, os segredos que parlamentares dessa qualidade guardam sobre seus pares políticos valem pouca coisa.

Posso estar exagerando, eu sei. Sempre que um Eduardo Cunha evoluiu para uma delação premiada tudo pode acontecer. Mas o que há de ser pior do que um apartamento mobiliado com cédulas de dinheiro? É provável que mais uma vez eu esteja enganado. Mas gostaria que de estar certo.

De qualquer maneira, há lama para suficiente para a maioria do alto clero político. Nada além do que já foi publicado pode fazer qualquer um deles parecer mais sujo. E o efeito disto pode ser lido no resultado da sessão de hoje, que livrou a cara do senador Aécio Neves, em sessão aberta. Com o perdão da expressão, completamente elameados, estão todos cagando para a opinião pública. O que a semelhança com o placar da sessão fechada que livrou Renan Calheiros constata: 44 X 26.

O Supremo já lavou as mãos. Restariam as panelas. Mas estas a classe média vendeu para comprar feijão.

Para encerrar, só posso amargar a posição do PSDB, que definitivamente acabou. Em novembro de 2015 este mesmo partido – se é que ainda merece esta classificação – votou sim pela prisão do ex-senador Delcídio do Amaral (59 X 13 e uma abstenção), flagrado numa gravação que contava com todos os achaques do famigerado telefonema entre Aécio e Joesley.

 

 

 
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Indústria da multa

Aplausos para o editorial Mágica com as multas, de domingo. Inacreditável que na terra de Paulo Vanzolini, compositor de Ronda, Volta por Cima e Samba Erudito, que vai com o verso “soltei filipetas pra te dar um Cadillac”, em pleno 2017 vejamos um governo dito moderno pretender faturar fazendo o que se pode chamar de IPO da indústria da multa. Resta ao paulistano que acreditou na agenda de João Doria render-se à última estrofe do samba: “Então como Churchill/ Tentei outra vez/ Mas você foi demais/ Pra paciência do inglês/ Aí me curvei/ Ante a força dos fatos/ Lavei minhas mãos/ Como Pôncio Pilatos”.

Carta publicada no Estadão

 
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Nobel de Economia

Richard Thaler, que ganhou o Nobel de Economia ao introduzir psicologia à matéria, poderia render homenagens aos criadores do Plano Real. A inflação no Brasil foi derrotada num processo emocional, ao deixar os preços correndo em cruzeiros, enquanto a URV se encarregava de reintroduzir a noção de valor real na sociedade.

Carta publicada no Estadão

 
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Os patos do agronegócio

Tido como um sábio, dotado de sobre-humana paciência e capaz de simular o próprio óbito para comer o coveiro, o caipira vem levando sucessivas bolas nas costas.

Ocorre, meus caros, que sempre haverá alguém mais esperto do que vocês. Onde? Em Brasília, por exemplo. Ou nas igrejas.

Com os militares acontece mais ou menos a mesma coisa. A tropa fica lá na caserna e nas ruas, lutando a guerra perdida contra o tráfico de drogas, enquanto seus deputados, bancados pelos fabricantes de armas, querem ver mais e mais chumbo voando. Com os crentes é a mesma coisa. Quanto pior, melhor. Quando o paraíso na terra enfim puder ser enxergado, eles perdem o dinheiro – e o mandato.

Volto aos fazendeiros com uma história boa para provar que sempre tem alguém mais esperto que vocês, no caso, os padres. Dizia um conhecido pároco do interior: “Bom para a igreja é quando a safra é ruim, porque a paróquia fica cheia. Quando a safra é gorda, o que enche é a zona.”

Meus caros ruralistas, amanhã a operação Carne Fraca completa sete meses. Que sufoco! Até que deu uma abafada com a confusão que os joesleys arrumaram. Mesmo assim, a costela ficou dura de roer. Ah, e como vocês se lembram, eles eram senhores de toda a esperteza. Pois é.

Para superar a crise o que fizeram os senhores? Meteram ficha na chamada bancada BBB, da bala, da Bíblia e do boi, é claro. Até para os meninos belicosos do tal MBL sobrou crédito. Agora que grande parte dos cinquenta países que não queriam mais falar com o Brasil, suspendendo ou dificultando importações, começaram a amolecer, o que seus deputados arranjaram? Uma carta que dificulta enquadrar, mostrar e punir os senhores de escravos que mancham o nome do agro.

Bonito, né? Como se não bastasse o ministro da área ser investigado por desmatamento, agora essa.

Deixa eu contar uma coisa pra vocês: gringo não gosta. Pega muito mal. E tudo o que a peãozada desses cinquenta países mais querem é um pretexto para acabar com a concorrência brasileira mantendo, ampliando ou criando suspeitas e embargos. Escravidão e desmatamento? Perfeito para eles.

Quem ganha com isso? Creio que a essa altura vocês já adivinharam. Sim, os congressistas que vocês financiam e que vão cobrar caro por cada almoço e jantar com diplomatas estrangeiros e o valhacouto do Planalto – já descontado o vinho datado.

Acordem, seus patos! Vocês estão fazendo papel de bobo.

 
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Bolinha chateado

Bolinha ou Botafogo na boca de delatores da Odebrecht, Rodrigo Maia é hoje vice-presidente da República e presidente da Câmara dos Deputados.

No domingo 15/10 deu entrevista à Folha e, simulando mágoa profunda com o Palácio do Planalto, afirmou que daqui pra frente, tudo vai ser diferente. Ou, entre aspas para não deixar dúvida, “Daqui pra frente vou, exclusivamente, cumprir meu papel institucional, presidir a sessão”.

O problema, para este cronista, não é a dúvida, mas a certeza: qual papel além do institucional Botafogo ou Bolinha teria desempenhado até então.

O enredo do caso é a segunda denúncia da PGR contra Michel Temer, Eliseu Padilha e Moreira Franco por obstrução de justiça e organização criminosa.

Na CCJ, como diria o Noel Rosa, a peça foi posta no prego por Bonifácio. O resgate deve custar caro ao Governo. E o interesse de quem pode avalizar, isto é, as senhoras e os senhores congressistas, é cobrar o maior valor possível.

Plano perfeito: colocar num escaninho virtual da Câmara os vídeos com a delação do doleiro Lúcio Funaro e dar a dica a um jornalista, que levaria ao grande público em forma de furo.

O Presidento mordeu a isca e, por meio do seu advogado de defesa, repetiu a estratégia de atirar no mensageiro, chamando de criminoso o suposto vazamento das gravações.

Tremenda inabilidade do criminalista, que revela a falta que faz uma assessoria de comunicação. Um telefonema ao jornalista e mesmo uma consulta ao Google evitariam o drama.

Agora Inês é morta. Tudo o que Botafogo ou Bolinha e seus aliados precisavam era de uma desculpa para acirrar os ânimos contra o valhacouto do Planalto. E poucas coisas nessas ocasiões vestem – e despem – tão bem quanto a injusta carapuça de criminoso.

O valor do aluguel do Planalto disparou. Para evitar o despejo, sobretudo com a possibilidade de mudança para a Papuda, Michel, Moreira e Eliseu hão de assinar qualquer contrato de renovação.

 

Preparem-se para pagar a conta, brasileiras e brasileiros.

 
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Carminha e o marido da piada infame

A improvável freguesia desta página por favor perdoe a insistência em trazer o Vinícius de Moraes. Mas não encontro citação melhor para definir o placar de 11 de outubro do Supremo, quando Carminha decidiu não decidir.

O Poetinha dizia que para viver um grande amor é preciso ser “doce conciliador, sem covardia”. Não foi o que vimos.

O ideal, já botei aqui, seria que a República funcionasse com seus três poderes em harmonia e independência. Se não funciona, isto é, se Legislativo não assume suas responsabilidades, alguém tem que falar. No caso de um senador em flagrante delito, o Supremo. Se não, pra quê Supremo?

Me lembro do ministro Barroso dando o exemplo do casamento homoafetivo. Pegou os Estados Unidos para evitar enrosco por aqui. Lá, uma vez que o Congresso não conseguia decidir sobre o assunto, demanda crescente e relevante para a vida de diversas pessoas e para o próprio funcionamento da Justiça, a Corte Suprema teve que assumir a responsabilidade.

A toga não é leve, muito pelo contrário. Mas seu peso é sabido por cada um dos ministros que aceitam enverga-la. E o funcionamento do tribunal é pensado para distribui-lo. Daí serem onze para decidir, e não só um, como no Executivo. Há os acordos tácitos, como o rodízio na presidência. E a figura do decano, que é obra do acaso.

Na sessão que entrou pela noite da quarta-feira, o relator, ministro Edson Fachin, votou por manter no Supremo a palavra final sobre afastamento de parlamentares. Foi acompanhado por quatro colegas: Luiz Fux, Luis Roberto Barroso, Rosa Weber e o decano, Celso de Mello.

Contrários ao relator ficaram outros cinco ministros: Alexandre de Moraes, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Marco Aurélio Mello.

Sobrou para a presidente da Casa desempatar. E o que vimos foi a ministra Carmen Lúcia mostrando que não aguenta o peso da toga e menos ainda da Presidência.

Ela poderia ter votado com convicção e legitimidade com ambos os lados. Havia bons argumentos de parte a parte. Mas apelou tentando driblar a responsabilidade dizendo que concordava com o relator, que imunidade parlamentar não se confunde com impunidade, que caberia sim ao Supremo decidir, mas que a palavra final da decisão deve ser dos parlamentares.

O relator Fachin entrou de sola. Não se deixou driblar. De pronto, disse à presidente que seu voto era na verdade contra o relatório, posto que divergia do ponto central. Perdeu a bola, mas perdeu de pé.

À Carminha restou entrar para a História como aquele marido incapaz de ser doce conciliador sem covardia e vive condenado à piada infame: “aqui em casa a última palavra é minha – sim, meu amor”.

 
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Choveu pesquisa

A semana começou com um toró de pesquisas. Dados suficientes para alagar a Paulista. Contei pelo menos três e vou palpitar.

1)

Aquela dita cervejaria encomendou um levantamento sobre preconceito. Mulheres, negros, gays, gordos. Como o brasileiro enxerga quem se enquadra nestas categorias?

Segundo a diretora do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari, responsável pela pesquisa, o resultado é que não temos consciência do preconceito embutido no léxico popular. Como discordar?

Sem querer puxar a brasa para a minha sardinha, falo como gordo que sentiu na vasta camada de pele os efeitos do preconceito. Tenho dois exemplos.

Depois da cirurgia bariátrica, já emagrecido, recebi um bilhete repleto de ofensas. A história inteira está no meu livro, Gordo Pensando, e as quatro pessoas que leram se divertiram. Resumindo, ao ler os palavrões, minha Neguinha ficou tensa e estranhou o fato de eu rir da situação. Ao que expliquei: Pela primeira vez na vida quem quer me ofender não começa a frase com “gordo”.

Outro exemplo é o episódio da banana atirada em campo para agredir um jogador de futebol negro. Cena lamentável. Todos foram solidários. Mas pergunta é: um bombom para um gordo provocaria a mesma comoção?

Então é óbvio que precisamos continuar na luta contra todo o preconceito, porque tem funcionado. E o primeiro passo é admitir que ele está em nós, reconhecer a carga cultural e meter ficha na intolerância ante a discriminação, que ao contrário do preconceito, pode e deve ser dizimada já.

2)

A Transparência Internacional verificou que 11% dos brasileiros admitem praticar corrupção para ter acesso a serviços públicos. É o segundo menor índice entre os países da América do Sul e Caribe.

Parte do meu trabalho é ler pesquisa e fazer análise. Mas não precisa ser do ramo para concluir que a observação da Márcia Cavallari cabe aqui também. Só há uma tradução para este número: não reconhecemos o conceito de corrupção (estou de bom-humor).

3)

Terceira e última pesquisa: Datafolha sobre o governo João Doria. Como era previsto, a aprovação desaceleraria. É sempre assim. Anotei aqui. Me espanta é que o prefeito tenha posto no próprio caminho cada uma das cascas de banana em que escorregou.

A queda chegou a dez pontos. O motivo principal é claro e guarda um paradoxo: a marquetagem exagerada infla expectativas, que acabam frustradas ante a realidade, derrubando a avaliação.

Por outro lado, ela resiste no extrato mais rico e menos dependente dos serviços públicos, justamente o que se mantém fiel à audiência do reality-show do prefeito, onde a vida é bem melhor do que no Terminal Capelinha. Contudo, há uma cratera à vista.

Os que aprovam o João são em maioria usuários de automóvel e ainda estão dispostos a culpar a gestão passada. Porém, amplamente insatisfeitos com a buraqueira (perceptível até para quem assiste aos vídeos que o prefeito grava a bordo do carro), querem asfalto novo para ontem. As obras para sanar o problema, muito aquém da necessidade, foram prometidas para o verão, caso não chova. Será que chove?

Para encerrar, há que se considerar o efeito bola de neve das pesquisas. Um prefeito disposto a manter uma agenda polêmica, que inclui fantasia de gari semanal, campanha nacional, viagens constantes e privatização atropelada, precisa ter sobra de apoio na Câmara.

Para tanto há duas moedas: popularidade e dinheiro (verbas, emendas, cargos). Antes da pesquisa verificar a queda da primeira, a segunda já estava inflacionada. Na véspera da última votação importante foram 160 cargos numa canetada, verdadeiro trem da alegria, símbolo da velha política, oposto do que Doria propõe.

Com o prefeito impopular os vereadores passam a disputar dinheiro. A briga pela grana trava a agenda do governo na Câmara. Parado, o governo perde mais popularidade. Sem popularidade, o prefeito fica mais isolado. E o preço dos vereadores dispara.

 
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Somos todos Catalunha

A Catalunha não está só. Mobilizações independentistas crescem em toda parte. Ainda na Espanha, no País Basco e na Andaluzia há grupos assanhados. Na Bélgica, alguns flamengos. Na Alemanha, os bávaros. No norte da Itália, Lombardia e Vêneto. No sul do Brasil, paranaenses, catarinenses e sobretudo gaúchos. Na cidade de São Paulo, Santo Amaro sempre quer voltar a ser município.

No Reino Unido, embalados pelo Brexit, escoceses elevam o tom pela independência da Inglaterra. (Lembrando que suas reservas em uísque superam em valor todo o outro britânico. Com a vantagem de que uísque se bebe.)

Também há corsos propondo a independência da França. Napoleão, que nasceu na ilha quando a Córsega ainda fazia parte da Itália, era considerado corso, não francês nem italiano. E tentou dominar toda a Europa. Por que não deu certo? Pelo mesmo motivo que a turma agora se anima em ser independente: cultura. Lorde Nalson só resolveu a questão.

Alguns séculos depois do ocaso napoleônico, a Europa, recém saída da segunda grande guerra – que aconteceu pela loucura de outro tirano que tinha um plano ainda pior para a humanidade –, conseguiu se unificar. Mercado comum, fronteiras livres, moeda única. Mas com respeito à preservação das culturas locais. Proeza de políticos estadistas e diplomatas.

O que entorna o caldo cultural é o de sempre: crise econômica e medo. Falta dinheiro para manter os ingredientes tradicionais do caldo. E a ameaça de diluição de algo apurado por tantos anos, causada pelas ondas migratórias, apavora os povos. Sopa rala ninguém quer.

Piorar um quadro assim é tarefa para políticos populistas e autoritários – ambos disponíveis na Catalunha e em Madrid, respectivamente. Deu no que deu. Os primeiros ferveram o caldo e meteram um plebiscito propositalmente mal negociado. E o governo central reagiu com uso inaceitável da força, descendo a borracha em idosos, atirando mulheres escada abaixo, chutando cidadãos no chão. Se havia dúvidas sobre a presença do DNA da ditadura franquista no Partido Popular que governa a Espanha, ela se esvaiu naquele domingo.

Para o mundo é importante aprender com a Catalunha. Principalmente sobre o que não fazer. Gente populista e/ou autoritária é perigo. Mais castanhola e menos touro à unha.

Como está posto nos primeiros parágrafos, o fenômeno é global e tende a crescer com o desejo das pessoas por maior participação nas decisões de governo, impulsionado pelas novas tecnologias. Desejo legítimo e de realização inexorável. Não há meio para frear o debate. E não é separar, mas libertar para juntar mais.

A questão é como fazer. E a resposta pode estar no modelo da União Europeia. Política, diplomacia, diálogo, tolerância e respeito à diversidade cultural. Para descentralizar o poder e noção de responsabilidade universal.

No plano econômico vamos precisar da renda básica universal. E é fundamental ouvir o nosso diplomata mais querido, que também era poeta e não gostaria de muro na Escócia:

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim

Que nada nesse mundo levará você de mim

Eu sei e você sabe a distância não existe

Que todo grande amor só é bem grande se for triste

Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer

Pois todos os caminhos me encaminham pra você

Assim como o oceano só é belo com o luar

Assim como a canção só tem razão se cantar

Assim como uma nuvem só acontece se chover

Assim como o poeta só é grande se sofrer

Assim como viver sem ter amor não é viver

Não há você sem mim, eu não existo sem você

 
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