Facebook YouTube Contato

Passa Pedro, passa parente

O mercado aplaudiu de pé a Lei de Responsabilidade das Estatais, que pretendia profissionalizar as empresas públicas impondo regras de conformidade e restringindo indicações políticas para diretorias e conselhos.

Estatal-mor, a Petrobrás estaria em boas mãos com Pedro Parente, que entre outras coisas instituiu a quarentena remunerada, segundo a qual seus diretores teriam seis meses sabáticos entre o público e o privado, evitando o vício da chamada “porta giratória”. Embalado pela paralisação dos caminhoneiros, Pedro Parente pediu para sair num dia e no outro foi comandar a BRF, com aval do governo Temer. O mercado vaiou? Não. Curiosamente, ainda de pé, seguiu aplaudindo.

Não demorou para os deputados aproveitarem a brecha. Na quarta-feira 11 de julho suas excelências meteram um jabuti na nova lei geral das agências reguladoras, liberando os trens da alegria das nomeações político-partidárias-parentais. E o mercado, vejam só, reagiu escandalizado, sem qualquer reflexão.

No agro dizem que “passa boi, passa boiada”. No mercado dirão “passa Pedro, passa partido, passa parente”.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
No Comments  comments 

Por uma Câmara com 2001 deputados

Artigo publicado na Folha de São Paulo – Tendências e Debates – 10/07/2018

Para celebrar o aniversário dos seus 30 anos, o PSDB preparou um bolo que funciona como uma torta na cara de quem acreditou no ideário tucano original. O partido que nasceu compromissado com a defesa do parlamentarismo agora quer diminuir o número de representantes no Congresso Nacional.

Com inegável apelo eleitoreiro, dada a descrença popular em relação à chamada classe política, a proposta apresentada pelo líder da bancada tucana na Câmara, deputado Nilson Leitão, se apega à economia que seria alcançada, algo em torno de R$ 1,3 bilhão em quatro anos. Mas não passa de sofismo financeiro; a seguir, pretendo demonstrar o porquê.

Pelo texto, que já tem as assinaturas necessárias para ser protocolado e ainda cresce, o número mínimo de deputados federais por estado seria reduzido de oito para quatro e, o máximo, de setenta para 65. No todo, a Câmara passaria de 513 para 395 cadeiras, e o Senado teria 54 no lugar das atuais 81.

O bolo conta ainda com a cereja narrativa que submete o Executivo à dita austeridade, prevendo emenda à LDO de 2019 para diminuir em 20% o custeio do governo. As aspas do deputado Leitão são puro açúcar de confeiteiro: “Não é para reduzir a gasolina da ambulância, mas tirar carro oficial do ministro.”

Leia mais: Centro avante

Se levada a debate consequente, a primeira pergunta ante a proposta seria sobre a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap), que inclui benesses de todo tipo, incluindo R$ 4,5 mil por mês para cada deputado gastar em combustíveis e lubrificantes. Segundo o site da Câmara, o deputado Leitão gastou só em 2017 R$ 427.665,48 da Ceap, valor equivalente ao salário anual de mais um deputado, incluindo décimo terceiro.

Além da Ceap, que varia entre R$ 27.977,66 e R$ 41.612,80 por mês de acordo com o estado de origem do deputado, ainda há R$ 78 mil mensais para a contratação de até 25 secretários e R$ 3.800 para auxílio-moradia e despesas hospitalares por conta da Casa para internação em qualquer hospital do país.

É óbvio que o problema de gastos com o funcionamento do Congresso Nacional mora aí, nas verbas além dos salários, e não no número total de representantes. Este, a rigor, deveria ser ampliado. O Brasil tem a oitava menor Câmara de Deputados do mundo em termos proporcionais.

Doutor em ciências políticas pela Universidade Federal do Paraná com extensão na Universidade de Montreal, Márcio Carlomagno comparou a democracia brasileira com a do Reino Unido. Lá, só na Câmara dos Comuns são 650 deputados para 60 milhões de habitantes. Aqui, com população de 200 milhões, temos apenas 513 deputados. Isto é, enquanto os ingleses têm um representante para cada 97 mil representados, cada deputado brasileiro representa 390 mil cidadãos.

Se a proposta tucana avançar, a fatia do bolo destinada a cada deputado, que não é outra coisa se não concentração de poder, vai aumentar nessa proporção. E com um efeito imediato: o custo para fazer e manter o bolo também vai crescer. Os milhões de reais que entram como fermento na campanha de um deputado federal e os esquemas de corrupção de onde eles brotam estão diretamente relacionados ao cálculo de representatividade.

+O parlamentarismo já pegou, só falta virar lei

Porém, se impulsionada pela proposta a sociedade conseguir realizar um debate sério e transformador, atacando a raiz do problema, poderá economizar perto de R$ 8 milhões por mês aumentando o número de deputados dos atuais 513 para 2001, que seriam eleitos por distritos de até 100 mil cidadãos, diminuindo o custo de campanha e a distância entre representantes e representados, que por sua vez poderiam exercer maior participação política e controle social.

A conta é simples: benesses como a Ceap e até 25 secretários por deputado custam aproximadamente R$ 57 milhões por mês; 1.488 deputados a mais sem esse tipo de privilégio custariam algo em torno de R$ 49 milhões.

Na parte física do Parlamento nada precisaria ser alterado. Os amplos gabinetes, sem necessidade de abrigar tamanhas galerias, poderiam ser adaptados aos novos eleitos —e o plenário, que raramente fica lotado, quando fica, não é de deputados, mas de seus convidados, financiadores, lobistas e bajuladores em geral.

Como vimos na votação do último impeachment, uma dessas raras ocasiões de lotação plena, os deputados em plenário costumam oferecer as primeiras fatias de bolo aos seus cônjuges e filhos. Quem sabe se melhorássemos a representação, eles se lembrassem da sociedade.

Léo CoutinhoEscritor e jornalista
 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
No Comments  comments 

Não existe atalho na democracia

Estadista deveria ser um adjetivo raro, porque pouca gente na história merece. Dentro dessa turma pequena tem um nome que entra em qualquer lista: Franklin Delano Roosevelt. Caso único de presidente dos Estados Unidos eleito quatro vezes, FDR tirou o país da depressão de 1929 e mais tarde ajudou livrar o mundo do nazismo.

Mas como ninguém é perfeito, tem uma mancha feia na sua biografia política: ameaçou em 1937 ameaçou aumentar de nove para quinze o número de juízes da Suprema Corte. Acabou não fazendo, mas a ameaça bastou.

O caso foi lembrado pelo colunista Bruno Boghossian há uma semana na Folha de São Paulo, que tratava da proposta do pré-candidato Jair Bolsonaro de aumentar de onze para 21 os membros do Supremo Tribunal Federal. Isso logo depois de um de seus filhos dizer nas redes sociais que alguém tinha que parar o Supremo. É grave. É muito grave.

A receita do ex-capitão deputado federal vem da ditadura militar, período que ele considera exemplo para o país. Os militares aumentaram de onze para 16 os ministros do STF. Como bem lembrou o Boghosian, o então ministro da Justiça da ditadura Juraci Magalhães disse que o regime escolheria juízes “à altura das necessidades da ‘revolução’”. Bolsonaro diz que, uma vez eleito, vai “botar dez isentos lá dentro”.

É claro que, igual a todas as outras instituições, a Justiça passa por um período de provação. E o domingo passado não ajudou em nada a situação do país.

Mas é importante lembrar que as regras existem para serem cumpridas e qualquer caminho por fora delas

 
Tags: ,
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
No Comments  comments 

Que país!

Que país! Quando a gente acha que chegou ao limite do surrealismo, avançamos mais. Só me lembro dessa sensação quando do atentado das torres gêmeas nos Estados Unidos. O prefeito de Campinas, Toninho do PT, era assassinado, a filha do Silvio Santos sequestrada e o sequestrador, em fuga, descia do décimo andar de um flat pelo lado de fora, ia a até a casa do Silvio, ficava com o próprio na cozinha e chamava o governador Geraldo Alckmin para resolver o caso quiçá num café com bolo. E o governador compareceu. Sei que gente mais velha viveu coisas mais absurdas, mas a minha referencia mor é esta.

No final da manhã de hoje chega um zap: Lula livre. Pensei: fakenews. Mas fui conferir nos órgãos de imprensa confiáveis e era verdade.

Um desembargador plantonista do TRF-4, sozinho, revoga uma decisão colegiada. Até aí, estamos acostumados. Isso vem sendo o padrão do Supremo Tribunal Federal.

Logo em seguida, também pelo zap, chega o despacho completo. 33 páginas. Incrível velocidade. O primeiro argumento me prende: Lula é pré-candidato e estar preso atrapalha a campanha. Cuma? Se eu sou advogado criminal e tenho um freguês em cana, já estaria com o HC pronto dizendo que o meu preso também quer ser presidente. Ah, mas o Lula é filiado e o seu cliente trombadinha não tem partido. Ora, Tratado de São José da Costa Rica neles. Ninguém precisa ser filiado para ser candidato e muito menos pré-candidato. Base jurídica há. Vai que passa…

Minutos depois um amigo advogado mostra que o juiz Sérgio Frenando Moro, em duas páginas, diz que o desembarga de plantão é incompetente e não abre o cadeado. Impasse.

Ato contínuo, o desembarga insiste e manda soltar em uma hora – já vencida. Impasse permanece.

PGR diz que é para obedecer o colégio de Porto Alegre. STJ subiu no muro e diz que só fala provocado. STF diz que só fala depois do STJ.

Então foram perguntar à doutora Carmem Lúcia, presidente do Supremo, que se ateve à hierarquia: juiz não pode desobedecer ordem de desembargador. Resultado: solta o Lula. Cumpra-se. Só que não. O homem continua trancado.

Inacreditável. Mas é o que temos.

Logo mais Carmem Lúcia não será mais presidente do colégio mais alto da Justiça Brasileira. Fica o Tofoli no lugar dela. A rigor, não há eleição, mas rodizio.

O desembargador que soltou o Lula foi filiado ao PT, que é do Lula. Tofoli foi advogado do PT e, assim como tantos outros ministros, mais recentemente adotou a prática de decidir sozinho. E antes, lá no mensalão, já não se sentia impedido para decidir em casos assim. Colégio para quê?

Quem acha que o juiz é partidário pode relaxar. Quando chegou o caso da máfia da merenda envolvendo o deputado estadual Fernando Capez do PSDB, Tofoli também não viu impedimento para decidir, mesmo com o irmão do Capez trabalhando em seu gabinete no STF.

Zona. Zona. Zona. Pior que zona.

Dois palpites: se soltarem o Lula, não prendem de novo; Bolsonaro e ditadura ganharão força.

Uma dúvida: uma vez na calçada, Lula pode querer assinar o manifesto do Centro Democrático Reformista (é este mesmo o nome?). Vão aceitar? Sim ou não e por quê?

 

 

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
No Comments  comments 

Executivo da Philips tocou o apito e seus colegas foram tocar piano ou Elio Gaspari não pode tirar férias

O Globo vem dando um baile de reportagem e, se tem uma falha hoje, é o Elio Gaspari estar em férias. Pênalti grave. Daí que, sem medo de ser feliz, não me seguro e volto à carga para tentar cobri-lo.

Já escrevi aqui que a incineração da política não vai parar na política. E em que pese as declaradas ótimas intenções de jovens de todas as idades que falam em renovar geral, notadamente os grandes herdeiros que na casa dos vinte anos já integram os conselhos das empresas familiares, dificilmente qualquer um deles resistiria a uma CPI sobre os negócios da família. No mínimo, sofreriam grande decepção e teriam que deixar os jetons na recepção do analista. Vale para quase todo mundo que trabalhou no Brasil nas últimas décadas.

Ontem a Operação Ressonância da Polícia Federal, desdobramento da Fatura Exposta, também conhecida como Lava Jato fluminense, foi buscar executivos da Philips e mais 36 empresas envolvidas em esquemas de corrupção na Saúde do estado do Rio de Janeiro, governo Sérgio Cabral Filho e além, coisa de até R$ 300 milhões.

Mais distante e não menos importante é lembrar que o cerne do esquema era o Instituto de Traumatologia e Ortopedia (ITO). Tombos em calçadas são ¼ dos atendimentos de traumatologia e ortopedia no Hospital das Clínicas em SP. E quem é do ramo afirma que com R$ 300 milhões resolveríamos os problemas das calçadas.

Ainda: Sérgio Côrtes, ex-secretário de Saúde do Cabral, membro da confraria do guardanapo e pivô do esquema investigado pela Ressonância está preso e deu recentemente uma emocionada entrevista às páginas amarelas da Veja. Confessa que errou, não pede absolvição e não acredita no perdão nem dos próprios filhos. Só sente vergonha. Mas pelo menos confessou. E a confissão liberta. Leitura obrigatória para podermos avançar enquanto sociedade.

Hoje n’O Globo há uma entrevista com José Masiero Filho, ex-executivo da Philips punido por ser honesto. Denunciou o esquema, foi para a geladeira e, quando insistiu, acabou demitido e queimado no setor. Nunca mais arranjou emprego. Então procurou a Lava Jato e conheceu o programa de proteção a testemunhas do nosso país. Trocou de identidade, ganhou um salario mínimo e vive apavorado com a segurança de sua família.

Mas vamos ao Elio, se não a gente não termina. Trabalhasse na Philips dos EUA, Masiero estaria diferente. Lá existe a lei do whistleblower. E foi o Elio Gaspari que explicou como funciona: “Um vendedor do laboratório Pfizer denunciou técnicas ilegais de comercialização de produtos, reclamou por dentro e perdeu o emprego de US$ 125 mil anuais. Veterano da Guerra do Golfo, foi ao governo. A Pfizer foi investigada, tinha culpa e tomou uma multa de US$ 2,3 bilhões. O veterano que tocou o apito recebeu US$ 51,5 milhões.”

A lei do tocador de apito é uma evolução da Delação Premiada que a Lava Jato importou dos EUA. Ou por outra: pegou a ideia e topicalizou. Lá o delator nem precisa mentir para perder o prêmio, basta não provar o que disse. Aqui, delator mente e fica solto. Nossa capacidade de esculhambação é brutal.

Alheia a toda confusão, segue a Philips. Lá da sede em Amsterdã o diretor médico da centenária companhia disse à Exame que eles estão cada vez mais mergulhados na área da… saúde.  E emenda: “O futuro da saúde é digital.” Concordo com ele. Mas com o perdão dos trocadilhos, emendo: o presente da Philips é “digitais”. Masiero tocou o apito e seus colegas foram tocar piano na frente do delegado.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
No Comments  comments 

Ontem, no Rio, Eike e o Novo

Correu o martelo do juiz Marcelo e Eike Batista, até outro dia dono da sétima fortuna do mundo, pegou trinta anos de cana. Houve vasta cobertura e não vou me estender sobre isso.
Curioso é que lá do mesmo Rio de Janeiro a sentença do doutor Bretas acabou abafando a retumbante substituição no Partido Novo. O técnico Bernardinho, como sabemos, não tentará o Palácio Guanabara. Ensebou o quanto pôde entre o sim e o não, até que os caciques se aborreceram e mandaram ele pro chuveiro.
Sejamos justos: nisso o partido é novo mesmo. De modo geral, o tempo da política tolera indefinições. Nas cortes, ninguém tido como sensato é adepto do vai ou racha. Com o Novo é diferente. Lá o tempo tem a cultura do mercado, isto é, prazos, metas, deadlines e daddylines.
Já no diz-que-diz dos bastidores, o Novo é igual a todos os outros partidos. Exemplo: dirigentes reclamando em off para a imprensa e o Bernardinho no tradicional “sem comentários”.
No lugar do Bernardinho botaram Marcelo Trindade, ex-presidente da CVM, autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, responsável por botar ordem no mercado financeiro.
Além do Trindade, nos conta o Lauro Jardim n’O Globo, o Novo absorveu mais dois quadros egressos da CVM para disputar a Câmara Federal.
Mas o que o trio cevemístico tem a ver com o Eike além de viverem na Cidade Maravilhosa? Bom, durante o período Rio Maravilha, quando Sérgio Cabral Filho era reeleito e fazia sucessor, Eduardo Paes tinha o melhor emprego das galáxias, vinham UPPs, Copa, Olimpíadas, enfim, a farra do guardanapo corria solta e a turma se lambuzava sem receio, Eike publicava continuados fatos relevantes sobre seus negócios com uma inovação notável, o autoelogio, sobre os quais a CVM nunca deu um pio.
Sei lá, pode ser chatice minha, coisa de velho ranzinza e não de novo gente fina, mas eu acho que, fossem candidatos competitivos, os três da CVM seriam chamados a responder sobre o que não fizeram.
Aliás, algo me diz que o motivo da fuga do Bernardinho tenha a ver com vontade de evitar perguntas indelicadas, como a citação do fundo Aalu, controlador da Bodytech, rede de academia onde ele é presidente do comitê técnico, na delação da Andrade Gutierrez, envolvendo R$ 20 milhões, já confirmados por ambas as partes, que só divergem sobre se foi ou não propina para a campanha de Aécio Neves em 2014.
No fim das contas meu palpite é que tonto-mor desse período Rio Maravilha foi o Eike. Tinha tudo para não precisar se lambuzar e cedeu. Pior: não terminou a reforma do Hotel Gloria. Triste. O saudoso Eliezer Batista deve estar babando numa gravata celestial. Que Deus o tenha.

 

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Parabellum

A série Presidente da Semana, produzida e apresentada pelo Rodrigo Vizeu, editor-adjunto de Poder, na Folha, é obrigatória a que pretende entender o Brasil.

Chegando sempre às segundas-feiras o poscast está a cada semana mais interessante. O do Washington Luís é uma pérola. Em tempos de tentativa de proibição de sátira sobre candidatos e apelidos nas listas da Odebrecht, foi um deleite ouvir as trovas e marchinhas da época, além da alcunha que o boêmio paulista de Macaé fez por merecer: Rei da Fuzarca.

Na marchinha final, já a favor do Getúlio, chega com suavidade a ameaça de resolver as coisas no Parabellum, um dos calibres de arma de fogo mais conhecidos de todos os tempos por alimentar a pistola alemã Luger P08, se tornando algo como o Fusca das munições, tanto pela qualidade técnica quanto pela origem e destino, que era servir o nazismo.

Hoje é o calibre é mais conhecido como 9mm, o mesmo que a família Bolsonaro gosta de exibir, exaltar e sugerir como remédio para todos os males.

Ontem chegou a era Vargas, com participação e citação dos melhores biógrafos do Getúlio, respectivamente Boris Fausto e Lira Neto.

Já no começo, Vizeu elenca o tripé do golpe: elites regionais cansadas do estabilishment “café com leite”, políticos liberais em busca de espaço e democracia pra valer, e tenentismo – ou militares de baixo escalão tradicionalmente revoltosos.

Como sempre, nenhum deles apostou no caminho pela democracia e acreditaram no atalho do golpe  de “um período” totalitário. Como sempre, deu no que deu.

Qualquer semelhança com a cena atual não é mera coincidência.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Afinidade terrível

O diário da menina Miriam, escrito sob bombardeio na Síria, foi tema de reportagem do Fantástico pelo forte interesse que despertou em crianças brasileiras, notadamente da rede pública, das periferias. Isso se chama afinidade. Proporções guardadas, elas vivem em condições semelhantes. É comum encontrar por aqui crianças que antes de saber o beabá e a tabuada reconhecem diferentes estampidos de armas de fogo e se acostumam a ver cadáveres no caminho da escola, muitos deles conhecidos, amigos e familiares.  

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Copa e cozinha

Nosso querido Ruy Castro foi informado pelo amigo Carlos Maranhão de que o estrogonofe russo vem em tiras, não em cubos, sem ketchup ou creme de leite e desacompanhado de batata palha ou do onipresente arroz branco, e assim decepciona a torcida brasileira que se faz presente no mundial da Fifa. Então meteu na Folha de S.Paulo o “Fiasco na gastronomia”, narrando outras diversas confusões culinárias próprias de tudo que atravessa fronteiras e absorve costumes alienígenas.
Preparado na cozinha do Ruy o artigo só poderia ter ficado uma delícia. Mas convém uma objeção: o empanado do nosso bife à milanes, ainda que de fato não guarde semelhança com o que é servido em Milão, não condena a carne à asfixia. Um bom exemplo pode ser encontrado no hotel Fasano, pegado à casa dele no Rio: vitelo empanado em lascas de pão de miga, receita do chefe sarro Salvatore Loi.
Se aqui em São Paulo, basta ao Ruy chamar o Baiano e combinar uma tarde no banco do Julinho no Bar da Dona Onça. O bife à milanesa da Janaina Rueda chega com a crosta seca e crocante e a carne rosada, intumescida de todos os seus sucos que não tiveram por onde escapar quando mergulhados em óleo quente.
E hoje nO Globo o Ancelmo Gois mostrou que nos vingamos. Um brasileiro dono de restaurante em Moscou botou no cardápio o “Cowboy on the horse beef”, que seria o nosso bife a cavalo. Porém a foto de reprodução mostra um bife a Camões, isto é, com um ovo só, homenageando o escritor caolho ou, no máximo, um cowboy roncolho – adjetivo vulgar que no Brasil serviu para batizar outra receita clássica, o brigadeiro. Mas isso é outra história.
 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments 

Ciro Gomes no Data Coco

No “mercado”, para além dos bolões da copa, só se fala no medo de um segundo turno entre Bolsonaro e Ciro. Com razão a turma acha que Lula está fora e Marina Silva carece de estrutura mínima na chamada realpolitik, isto é, fundo eleitoral, capilaridade partidária, tempo de televisão. Isso tem prazo: 16 de agosto.

Sabem que as chances de mudança nas pesquisas de intenção de voto dependem desse prazo. Sabem também que a possibilidade de Geraldo Alckmin, Álvaro Dias ou Henrique Meirelles se juntarem ou superarem o estágio de inanição depende desse prazo – e que nada garante que uma ou outra coisa vá acontecer. Daí que Bolsonaro contra Ciro é o que há para hoje.

Bolsonaro conta com o prestígio da narrativa do Paulo Guedes, baseada na prosperidade pessoal do próprio (é impossível ser respeitado no “mercado” sem ser rico) e impulsionada pela retórica da repetição da palavra da moda: liberalismo. Guedes é radical nesse sentido, mas só na economia. Nos costumes, igual a toda patota liberal contemporânea, cede ao conservadorismo. Lessefér pra valer tropical é mosca branca.

Sobre esse fenômeno alguém já disse que “liberal na economia e conservador nos costumes é o novo ‘fumei mas não traguei’”. Não é. É o velho “fumei mas não traguei”. Lula também foi liberal na economia (sentido estadunidense) e conservador nos costumes. A “mulher de grelo duro”, “Pelotas polo exportador de veado” e Clara Ant emocionada com cinco homens de preto em quarto antes do desjejum são exemplos clássicos.

A turma mais esclarecida do “mercado” não acredita que Paulo Guedes logre êxito na promessa de tanger Bolsonaro – que é atrasado nos costumes e também em economia, com histórico nacionalista, protecionista e tem elogios ao modelo econômico bolivariano do general Hugo Chavez no currículo. O recente voto contrário ao cadastro positivo foi a gota d’água.

Leia Mais: PSDB 30 anos: o voo de galinha dos tucanos

Ao “mercado”, pois, restou conversar com Ciro Gomes. A XP Investimentos, instituição publicamente mais saliente neste processo eleitoral, desembolsou R$ 30 mil para ter uma palestra. Convidaram setenta clientes graúdos e soltaram o microfone na mão do homem.

Para saber como foi eu poderia simplesmente telefonar a alguns amigos influentes no setor, como fizeram os nossos grandes jornais que, resumindo, apuraram que foi bem (Folha, O Globo, Estadão) trato franco, cordial e até divertido, arrancando gargalhadas da plateia por quatro vezes. Ao final, justificou o cachê: “Tenho que pagar o gim das crianças. Quando a candidatura for homologada, aí evidentemente eu suspendo as palestras.”

Mas fui além. E aqui abro meu segredo: quando quero saber o que o “mercado” fala, vou ao Parque do Ibirapuera já na alvorada. A turma das finanças tem um apreço especial por corrida e vários deles participam de grupos que correm uniformizados, alguns com camisetas de maratonas patrocinadas por bancos de investimento e que tais. Quando vejo um grupo já no carrinho da água de coco, encosto e, como quem não quer nada, fico ali de orelhada. Apelidei a prática de Data Coco.

Hoje deu trabalho. Só no terceiro carrinho encontrei gente falando sobre eleições. Antes Neymar, Tite, Alemanha e Argentina prevaleciam. E quem falava de eleições também falava do leilão de ontem, das linhas de energia, considerado bom negócio para quem comprou. Sobre Ciro na XP a preocupação era mais relacionada ao temperamento do que às ideias sobre economia. Uma menina disse assim: “O Lula também falava muito mas até a Dilma não dá para reclamar do que ele fez.”

Não contente, chegando em casa peguei o telefone e chamei um amigo da época do futebol arte no mercado financeiro, criado na brutalidade do pregão dos anos 1980. É um dos poucos velhos que resistem ao estresse da profissão e seguem funcionando. Me contou que nos grupos de Whatsapp o assunto da noite de ontem era o mesmo. E emendou o seguinte: “Ciro é quase boca-suja, terá que se controlar na eleição e mais ainda se for eleito. Mas a sua geração é muito chata. Na minha época de BM&F a gente passava a mão na bunda dele.”

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments