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Tem que manter isso aí e caldo de galinha

Tem que manter isso aí

Nunca antes na história deste país um presidente da República foi denunciado. Se o Presidento queria um legado definitivo para o breve périplo que faria pelo terceiro andar Palácio do Planalto, conseguiu. Não é pouca coisa.

Logo que viu seu grupo político – ou a maior e mais perigosa quadrilha do Brasil, nas palavras de um amigo de outrora – começar a derreter, o Presidento estabeleceu uma regra: quem for citado em delação ou investigado, fica; quem for denunciado, sai. Menos ele, que é o chefe. Pode?

Por isso, não estou de acordo com a denúncia. Sobre organização criminosa, lavagem de dinheiro, prevaricação e todo o mais que virá em suaves parcelas da PGR, vá lá. Porém indício de obstrução de Justiça para mim não há. Se tem previsão penal que digam os doutores. Mas a mais alta autoridade do país se ver denunciada, notadamente por crimes assim, e não se afastar para transmitir total isenção em relação ao julgamento, já configura tentativa de interferir na Justiça.

Da mesma maneira vejo a denuncia sobre corrupção passiva, que é quando a autoridade recebe dinheiro para atender a pedidos especiais. Ora, um grupo que chantageia com CPI, venda de MP para concorrentes, retenção de pagamentos contratados, para mim comete corrupção ativa.

A qualquer pessoa, o bom é confiar nas demais, acreditar que elas podem mudar. Mas precaução e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Logo, se você conhece alguém disposto a tolerar este governo, ou que ainda espere um “caso de gravidade absoluta” para se posicionar, trate como pomada: uso exclusivamente externo. E se essa pessoa for deputado, senador, prefeito, governador, trate de nunca mais votar nela.

Caldo

A Força Aérea Brasileira costuma aparecer nos jornais como o uber predileto das autoridades. É quase sempre escandaloso. Parentada para a praia, consulta com o doutor que faz implante capilar e outros bichos. Mas fica na página política.

Mais recentemente a FAB chegou às páginas policiais, quando Rodrigo Rocha Loures, o ex-assessor especial do Presidento deu aquele show de cooper carregando meio milhão de reais na rua Pamplona. É que ele tinha vindo a São Paulo de carona com o ministro Gilberto Kassab.

E hoje tivemos, talvez, o auge. Um caça da FAB interceptou um avião com seiscentos quilos de cocaína. Segundo o piloto, a pista de decolagem fica em uma fazenda do ministro Blairo Maggi, o que escandalizou a Nação.

De novo, convém lembrar que canja de galinha e precaução não fazem mal a ninguém.  É importante esperar as investigações para dizer qualquer coisa com certeza. Mas por falar em canja de galinha, com toda a certeza você pode dizer: qualquer caldo em cubinho, incluindo o Maggi, é uma droga.

 
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Folhinha

Passo por uma banca de jornal a vejo numa capa, linda, como não poderia ser diferente. Giselle puxando o cordão das musas eternas do calendário Pirelli. Parei e me permiti a um instante de contemplação.

Retomando a caminhada o homem se põe a pensar. E me ocorreram teorias sobre o calendário.

O doutor Modesto Carvalhosa esteve no Roda Viva dia desses e falou da importância que tem o calendário eleitoral na Democracia. Está certo. Em que pese a ideia de novas eleições diretas antes do prazo previsto ser sedutora, a gente só pode pensar nela teoricamente. Qualquer coisa diferente disso é muito arriscado. Igual à própria Giselle. Pensar, contemplar, imaginar, tudo bem. Mas só os irresponsáveis podem levar a sério a ideia de bulir com uma jovem senhora que jurou fidelidade aos pés da Santa Cruz. E ainda tem o chamado “risco zagueiro”.

Se o tal livrinho, tendo sido reeditado em momento emocionado, não atende mais à Nação, façamos uma Constituinte nova. Rasurar o que temos seria uma temeridade. Sobretudo a parte da folhinha. Já dizia o Ernesto Hemingway: você tem que cumprir sóbrio o que promete ébrio. Só assim a gente aprende.

Voltando à folhinha da Pirelli, Giselle e gloriosa companhia, estou impressionado com o poder das musas. Não que eu duvidasse. Mas não imaginava que fosse tanto. Vá lá que o governo do Presidento está por um fio e que ele próprio tenha um sabido fraco por misses. Mas o que vimos nos últimos dias foi o surgimento de uma Cleópatra à brasileira. Da original do Egito diziam que, tivesse um pouco mais de nariz, a história do mundo seria outra.

Recentemente ao desembarcar na Terra de Vera Cruz, Giselle diz aos paparazzi: gostaria que o Temer não permitisse retrocesso nas áreas de proteção da Amazônia. E o Presidento, que depende da bancada BBB para ficar no Jaburu não só vetou a própria MP que autorizava ampliar o desmatamento numa área equivalente a dois campos de Piratininga contemporâneos como ainda prestou satisfação à musa via twitter.

O que as musas do calendário, lideradas por La Bündchen poderiam fazer pelo Brasil? Um desfile na Praça dos Três Poderes, sutil e refinado, causando no máximo incêndios metafóricos, e pedindo com os beicinhos e os dedinhos indicadores que elas sabem jigar como ninguém: Michel… Micheel… Saí daí, Micheeeel… Vem, Michel…

Coisa rápida, leve e certeira. Não precisariam sequer daquela parafernália ridícula com trios elétricos na Avenida Paulista.

Para encerrar, recomento o que o Bernardo Melo Franco escreveu sobre o vexame da mas recente missão internacional brasileira:

“A viagem de Michel Temer à Europa produziu um vexame internacional. Enquanto o presidente passeava em Oslo, o governo da Noruega anunciou que cortará pela metade a ajuda ao Fundo Amazônia. O motivo é o fracasso do Brasil no combate ao desmatamento.

A devastação da floresta avançou 29% na última medição anual, divulgada em novembro. O país perdeu 7.989 quilômetros quadrados de mata tropical, o equivalente a sete vezes a área da cidade do Rio de Janeiro. Foi o pior resultado em oito anos.

A Noruega é a maior patrocinadora do Fundo Amazônia. Já doou R$ 2,8 bilhões para o Brasil proteger as árvores e reduzir a emissão de carbono. Isso equivale a 97% dos recursos do fundo, que também recebeu aportes da Alemanha e da Petrobras.” (Continua)

 

 
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Lei Soninha

No dia dois de janeiro a Nova Gestão madrugou na Praça 14 Bis em uniforme de gari e vassouras por estandarte. Era a estreia do prefeito João Doria. Símbolo do programa Cidade Linda, a avenida Nove de Julho seria transformada, com atenção especial às dezenas de desabrigados que se amontoavam sob o Viaduto Plínio de Queiroz. Meteram umas telas e tapumes “para proteger” as pessoas e deixaram a promessa de prover abrigo a todos eles em noventa dias. Perto de completar 180, o que se vê é o “Condomínio 14 Bis”, com cerca de cinquenta moradores.

Também saíram caiando toda a extensão da avenida. A Cidade Linda contaria com a estética dos quartéis. Quem melhor explica como (não) funciona é o Andrea Matarazzo: tudo o que se mexe bate continência, o que não se mexe a gente pinta de branco.

Ali adiante, na Praça das Guianas, além de zebrar as guias caiaram uma mureta do paisagismo. Ocorre que ambas são de granito, justamente para nunca precisarem de manutenção. Mesmo assim a brocha atacou. Resultado? Seis meses depois já demanda novos recursos.

Mas eu queria dizer da Lei Soninha. Lá no dois de janeiro a então secretaria Francine chegou quarenta minutos atrasada. E todo paulistano sabe que “esperar mais que vinte minutos, que é que aguenta?” Palavra do Adoniran, antes de tudo um tolerante capaz de reconhecer que “de um relógio pro outro, as horas vareia”.

Quarenta minutos foram demais para o João Doria, assim como seriam para o Rubinato, e Francine sofreu seu primeiro constrangimento antes daquele vídeo de triste memória. O prefeito baixou uma norma dura até para o padrão Adoniran, segundo a qual atrasos de até quinze minutos seriam multados em R$200 e, a partir disso, R$ 400.

Soninha era a responsável pela Assistência e Desenvolvimento Social, e entre outras coisas cuidaria do gravíssimo drama da Cracolândia. Basta ver as sucessivas ações desastradas na região para notar que seu olhar e experiência estão fazendo falta à Nova Gestão.

Hoje a Folha trouxe uma notícia que une tudo isso: “Sem comida e com espera de 10h, ação de Doria tem desistência de internação”. Pelas minhas contas, sob a Lei Soninha cada viciado poderia cobrar multa de R$16 mil da Prefeitura. Dura lex, sed lex.

 
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O PSDB só tem dois caminhos: mais PSDB ou o fim

Quando me perguntam por que sou tucano, respondo que eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim. À modinha de Gabriela. Ou, mais exatamente, Montoro, meu tio avô, fundador do PSDB que anotou o seguinte na abertura do manifesto original do partido: “Longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas”. Esta é a essência.

Posso ouvir as gargalhadas desta freguesia, notadamente neste momento em que não desembarcamos do abjeto governo Temer. Sei como é e também rio – pra não chorar.

Meu desconforto é imenso. Pensei seriamente em desfiliação. E se ainda não saí é por razões muito claras. Primeiro acredito que a gente deve ter alguém para nortear o caminho em uma área. Esse alguém para mim é o Fernando Henrique. Se ele não saiu, eu também não saio.

Segundo porque prefiro, com todo prejuízo, falar de dentro do que de fora. Nunca gostei de agremiações, sou por natureza solitário e independente. Mas do PSDB raiz eu gosto. E não é agora na doença que vou abandonar o barco.

Pelo contrário, creio que a melhor coisa que os tucanos podem fazer pelo Brasil hoje é sair do governo do Presidento e entrar no PSDB raiz, com sangue, suor e lágrimas. Quem deve estar constrangido não somos nós, mas o PSDB nutella, viciado na morrinha dos gabinetes.

Sem essa autocrítica não podemos ajudar o Brasil. Num avião despressurizado a orientação é clara: primeiro veste a sua máscara de oxigênio, depois procure ajudar quem não alcança.

Uma posição sobre os casos de corrupção está muito atrasada. Anos. Em todos os níveis. Dando o tratamento devido a cada um deles, poderemos tratar dos casos de caixa-dois – que também é crime, mas não é a mesma coisa. (É fundamental lembrar que nem todo caixa-dois é corrupção, assim como muito caixa-um é.)

E antes disso, temos que ver a questão do programa do partido. O que tem de corpo estranho pendurado não é brincadeira. Aqui em São Paulo temos um vereador que é estelionatário confesso. No estado, um deputado que defende bandido no saco, muro para separar o Brasil do norte e do sul. Em Brasília um deputado federal propôs a volta do trabalho escravo. Temos um senador fazendo bom trabalho no governo, mas o suplente que ele deixou no Salão Azul é um parasita quercista que jamais receberia onze milhões de votos. Seja lá o que for isso, não é o PSDB.

O PSDB só tem dois caminhos: mais PSDB ou o fim.

 
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Notas Soltas – Dois palitos

Escrevi recentemente que a gente demora para fazer as coisas. Da abolição da escravatura falei quarenta anos. O Elio Gaspari corrigiu para 50. Mas lembrou que a tramitação do projeto levou 64 dias. E por falar nesse número também lembrou que o Parlamentarismo em 1961 só precisou de uma PEC e 48 horas para ser instituído. Fato. Mas em 1963 o Presidencialismo estava de volta e o ano seguinte foi 1964. E até hoje não nos livramos do Complexo de Sinhazinha.

Hoje li em algum lugar que uma comissão qualquer aprovou recall para presidente da República. Um opcional que no Presidencialismo só pode ser entendido como a vontade de eternizar a crise atual. No Parlamentarismo é item de série.

Será que a gente é parlamentarista e não sabe? Já achei que sim e a Folha publicou. Pessoalmente sigo convicto. Mas tenho minhas dúvidas sobre a vontade geral da Nação.

Volto ao assunto olhando para a reforma política. A regra eleitoral do ano passado não tem como funcionar em 2018. O prazo para os ajustes é setembro. Julho tem recesso. E o Congresso só pensa numa muito escura viatura. Vão fazer tudo em dois palitos, nesse clima? Pesadelo. Acorda, amor.

 
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Notas Soltas – Em frente! Mas cuidado com o désireux

Em frente! Mas cuidado com o désireux  

A gente precisa dar uma ajustada no entusiasmo em relação ao Macron. Para menos. Excesso de expectativa não ajuda.

O nego é um fenômeno, ninguém duvida. O Republica em Marcha! tomou 308 das 577 cadeiras da Assembleia Nacional, sendo que o governo só precisa de 289 para ter maioria e ainda conta com 42 do MoDem para a gordura.

Ainda assim, à moda lusitana ele misturou todo mundo, de gauche à droite. Mas a França, sendo França, já tratou de guilhotinar quatro ministros antes da posse, incluindo o da Justiça e o da Defesa.

É preciso lembrar que essa gente toda não é exatamente um partido político. O que os une é o momento, talvez uma agenda, mas não uma ideologia. Apostar que o governo será um purê de batatas é pura torcida.

Quanto vale o show?

Ainda não acabou a votação. Mas se o Supremo decidir rever o acordo de delação dos irmãos Joesleys todas as operações anticorrupção no país estarão comprometidas. Que o prêmio é alto não resta dúvida. Mas é o que vale entregar quase dois mil políticos com mandato e três presidentes da República, incluindo o atual e seus dois antecessores.

O celular

No bolso de trás da calça, quebra o vidro. No da frente, causa impotência ou esterilidade. No da camisa, infarto. No criado mudo, caranguejo na cabeça. Nas mãos das crianças, ansiedade. Carregar mochila eu não quero. E noto que as meninas nunca encontram o aparelho dentro das bolsas quando ele toca. Beleza. Mas como é que faz para viver sem esse troço?

 
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Notas Soltas – A base da derrota

A derrota do governo na Comissão de Assuntos Sociais do Senado é mais um retrato da zona instalada no país. A senadora Kátia Abreu, conservadora, ruralista e melhor amiga extraordinária da Dilma, bateu boca com a historicamente progressista Marta Suplicy, petista de origem ora no PMDB. Detalhe: a primeira falou contra e a segunda a favor da reforma Trabalhista.

Aliás, Katia Abreu é do PSD, aquele partido que o Kassab diz que é dele e a turma acredita a ponto de garantir ministério com um tinteiro que é um balde. Dos três senadores que Kassab oferta, dois votaram contra e um faltou.

Do PMDB, partido do Presidento, o senador Hélio José votou contra e justificou falando do seu histórico na CUT. Foi retaliado com demissão de aliados nomeados no governo. Mas o recado é claro: a CUT não quer perder o imposto sindical.

Eduardo Amorim do PSDB votou contra e explicou que não podia entrar em conflito com a própria mulher, que é procuradora do Trabalho.

Ronaldo Caiado do DEM, apoiado pelos setores que mais prezam a reforma, não apareceu.

O texto continua tramitando pela casa e logo deve ir a plenário. Isto é, a votação de ontem é menos grave para a aprovação final da reforma do que para a sustentação do governo, que acredita ter mais votos do que tem de fato.

Para a economia de modo geral é gravíssimo. Se a reforma Trabalhista que dada de barato no Senado começou assim, imagina a da Previdência. Lembrando que, com a PEC do Teto já vigorando, se não passar a da Previdência não haverá 2018 no Brasil.

 
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Terra arrasada

A última voga no circuito das conferências, palestras, fóruns e afins é o elogio ao comportamento do brasileiro em auditórios estrangeiros. Destaque para rodadas recentes nos EUA e no Reino Unido, feitas pelo MIT/Harvard e Oxford/London School of Economics, respectivamente. Juntam gente que teoricamente discorda e ficam lá, pasmados com a urbanidade, admirando antes a forma do que o conteúdo, algo como um bird watching acadêmico.

Saudosismo de parte, devo lembrar que houve um tempo em que esse tipo de coisa era corriqueira mesmo em clima tropical. Não, não quero entrar numa de Paulo Francis e dizer que bom mesmo era a Avenida São João dos anos 1950, com os cavalheiros passeando em terno e gravata sob a garoa – que já não há. Isso que teve hoje em SP também é garoa, mas de outro tipo.

Admito que gostaria da São Paulo Francis, mas procuro controlar e espero reconhecimento pelo esforço. Por mim, saibam, chapéu coco seria acessório vulgar. Bonde é inegociável. Vou insistir até que possa esvaziar o bilhete único no camarão.

Um exemplo bom do que já fomos é um programa de televisão de 1985 que se acha no YouTube. Tribunal do Povo – Luis Carlos Prestes X Roberto Campos. Quem me disse foi o Canal Livre, com a devida ressalva do Fernando Mitre sobre a edição que favorece o liberal, feita para as celebrações do seu centenário.

Se a gente ficar na forma já é uma maravilha. Duas pessoas respeitáveis  esgrimindo, moderador imparcial, plateia atenta e respeitosa.

Mas o conteúdo vale mais. O Velho, velhaco, não defende o socialismo então vigente em países diversos, preferindo atacar a nossa iniquidade atroz. E o Bob Fields, velhaco igual, concorda discordando e mostra que o que temos no Brasil não é capitalismo, garantindo que, se houvesse, os problemas sociais estariam mais próximos da solução.

A pena é que, passadas três décadas, tenhamos conseguido avançar tão pouco. Vá entender o Prestes, que sabe-se lá de onde tirou forças para perdoar o Getúlio, não conseguir entrar num acordo com o Campos, este que, ídolo liberal, teve estomago para servir à ditadura militar, seu Estado paquidérmico e favorecimentos idem aos amigos empresários, mas não digeria o discurso do Velho por justiça social.

Trocando os nomes do parágrafo anterior podemos repetir a história até o exato momento. Ou, especialmente, à entrevista do Joesley Batista à revista Época. Explico.

Em 1994 ninguém tirava a faixa do Lula. Era batata. Mas dois anos antes o FHC foi à PUC do Rio, pegou uns malucos, fez o Plano Real e acabou com a inflação. O PT, cego de ódio, foi contra. Chamou de golpe, de proposta neoliberal trololó.

Eleito, o PSDB começou os programas de transferência de renda, Bolsa Escola, Vale Gás etc. E o PT foi contra. Lula chamava de bolsa esmola, tentativa óbvia de amansar o proletariado e impedir a revolução, golpe de novo.

Em 2002 FHC passava a faixa para o Lula, que vinha com a Carta ao Povo Brasileiro, vice industrial e um tal de Fome Zero. Para o Banco Central foi buscar um tucano banqueiro chamado Henrique Meirelles. Cancelou o Fome Zero e em seu lugar botou o Bolsa Família, que não era outra coisa se não a versão condensada e ampliada do Bolsa Escola e companhia. Continuidade, portanto. Mas para nossa surpresa o PSDB não gostou e chamou de… bolsa esmola, compra de voto trololó.

Antes da malfadada eleição de 2014, numa tentativa de passar a régua, Aécio Neves propôs no Senado que o Bolsa Família se tornasse um programa de Estado, não de governo. Quem recusou? A base do governo Dilma Rousseff, que reeleita tentou adotar a agenda econômica proposta pelo derrotado. Em vão.

Se não o Brasil, quem ganhava com essa idiotice, que está para a malandragem igual a fumaça para o fogo? Era óbvio, mas a entrevista do Joesley enfim escancarou: enquanto as figuras com capacidade para liderança se tratavam de parte a parte como deus e diabo, na terra das trevas prosperava a quadrilha mais perigosa do Brasil, retroalimentada por bandidos como o próprio Joesley, que nunca gostaram de capitalismo nem de justiça social. Em escuridão tão vasta, ficou praticamente impossível distinguir quem só entrou na alcova de quem aderiu à suruba.

De orçamento em orçamento, impeachment em impeachment, CPI em CPI, com as consequentes meia-calabresa, meia-mussarela, metade foi parar na cadeia. Beleza. Mas a outra metade ainda está – como jamais esteve – na Praça dos Três Poderes. E nem ao longe se enxerga alguém e muito menos uma agenda capaz de substitui-los.

Terra arrasada, enfim.

 
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Minha Casa, Minha Vida, Minha ideia genial

Tive uma ideia genial. Já que a Federação está em colapso, com municípios que nunca tiveram independência orçamentária, estados quebrando e tomando cada vez mais dinheiro da União via BNDES (com expectativa de erosão do buraco porque o Presidento precisa do apoio dos governadores e congressistas para se segurar no Planalto, nada obstante seu governo tenha largado com a PEC do Teto), sessenta mil assassinatos por ano, metade das casas sem saneamento básico, educação, saúde, transporte de pires nas mãos, precisamos de uma solução urgente para fazer a conta fechar.

Prover tudo isso que falta nas cidades se tornou inviável. Com a recente concentração urbana o preço do espaço aumentou muito. Ainda que muitos dos centros, principalmente nas capitais, estejam decadentes, repletos de imóveis vazios, a especulação segue firme. Então o que fazer?

A ideia é simples e já existe na área da habitação. A iniciativa privada, com o firme compromisso social que sempre teve, combinou com os governos federal, estaduais e municipais que faria casa para todos em lugares ermos e distantes, onde o preço da terra é bem mais em conta. O programa é bem conhecido, chama-se Minha Casa, Minha Vida.

Não é genial?  Pois vamos adotar a mesma lógica para todos os outros serviços públicos. Imagina fazer metrô lá longe. Em alguns lugares nem vamos precisar cavar, o trem poderá passar pela superfície, e as estações terão um custo muito mais baixo na desapropriação do terreno (você sabe, freguesa, que é imprescindível ter uma casinha para a estação de metrô, aquelas da avenida Paulista, onde basta um buraco para a turma entrar e sair, não prestam).

Escolas, hospitais, estações de tratamento de esgoto: tudo mais barato se a gente fizer lá longe. Até a cesta básica deve baixar, posto que as pessoas viverão perto de onde o feijão e a mandioca são cultivados, eliminando o sobre preço do transporte e do atravessador. Para a segurança, solução clássica e sempre exitosa: mais presídios, e ainda mais baratos, porque estarão ainda mais distantes.

Sim, estou sendo irônico. Tentando provocar. É o folego que me resta. Obviamente nada disso funciona. O caminho é justamente o inverso: adensar, trazer as pessoas para perto de onde já existe alguma infra-estrutura. O melhor exemplo recente é o Complexo Julio Prestes, na Luz, em São Paulo.

Curiosamente, porém, a maioria dos governos, em associação com a iniciativa privada, insistem em seguir na contramão. No mercado imobiliário comenta-se o seguinte: a construtora Tenda, que tem 70% do seu faturamento amarrado ao MCMV, deve investir dois bilhões de reais na compra de novos terrenos. Onde? Provavelmente naquelas paróquias que o Jaime Lerner definiu como “meu fim de mundo”, dando o sobrenome exato ao Minha Casa, Minha Vida. Já a MRV, com 95% da receita dependente do MCMV, deve fechar o primeiro semestre de 2017 com o maior valor geral de vendas de sua história. Crise? Recessão? Só se for para você, infeliz, que não é amigo dos homi.

Não acreditem quando dizem que o Brasil não tem memória. A Globo News exibiu recentemente um especial sobre os quarenta anos da morte do Carlos Lacerda. Documento impecável. Entrevistaram gente contra e a favor. E todos só falaram verdades. Estão lá coisas do seu legado, incluindo o fantástico Aterro do Flamengo, da Lota Macedo Soares, e Cidade de Deus, que só precisa de um comentário: é o primeiro Minha Casa, Minha Vida da história. Sobre ele, indico dois filmes: Reidy – A construção da utopia e o longa homônimo. Aqui e aqui.

Para encerrar, uma nota que me veio por causa do Lacerda. A turminha da FGV retirou a homenagem ao assessor especial do Presidento depois do cooper de meio milhão em frente à pizzaria Camelo. Para eles não pega bem uma escola de administração que forma grandes executivos, que preza a livre competição, ter qualquer ligação com o Rocha Loures. Mas continuar chamando Getúlio Vargas, sin embargos.

 
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Pedalada narrativa

Dilma e o lulopetismo caíram pelas pedaladas fiscais, auge da chamada contabilidade criativa, artimanha usada para fazer os números trabalharem de acordo com determinado argumento. O resultado está aí: 14 milhões de desempregados e impeachment.

Agora as mesmas pessoas que perdoam no Presidento os pecados que usaram para condenar a Presidenta, lançam mão do artifício para justificar a incoerência.

Oficialmente é a pedalada narrativa.

Eis o que diz o Painel da Folha: “Peso pena – Nomes do PSDB fizeram levantamento que insinua que os tucanos que cobram o desembarque do governo Temer são nanicos. Dizem que os 16 que defenderam a permanência da sigla na base aliada, em reunião na segunda (12), somam 46,1 milhões de votos. Os que pediram a saída, 2,7 milhões.”

Mesclar numa conta os votos recebidos por candidaturas majoritárias (governador, prefeito, senador) para comparação com as proporcionais (deputados federais) é no mínimo esdrúxulo. Principalmente quando se nota que, na Câmara, onde a denúncia da PGR será autorizada ou não, votam os deputados federais – e todo o eleitorado saberá como votou cada um.

Ainda: quando o Judiciário enviar a denúncia ao Legislativo, diferentemente dos pedidos de impeachment o presidente da Câmara não tem como engavetar. O regimento manda que o processo siga direto para a CCJ, que tem prazo certo para trabalhar e devolver ao plenário onde, de novo, saberemos como votará cada deputado. São necessários três quintos dos votos para aprovar a abertura.

Será a primeira vez na História que o Presidente da República é denunciado por crime comum, incluindo lavagem de dinheiro, obstrução de Justiça e formação de quadrilha. Tornado réu, deve ser automaticamente afastado por seis meses.

Curiosamente, mesmo sob o risco da votação aberta, a base do governo planeja acelerar os trâmites. Para eles, cada a semana que passa uma denúncia ou delação nova pode surgir, agravando a situação.

 
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