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140 dias de estética

Hoje o governo Bolsonaro completa 140 dias. O número é emblemático. 140 é o limite de toques permitidos num tuíte, meio preferencial da comunicação direta adotada pelo bolsonarismo.

A força estética que o limite carrega não pode ser desconsiderada. A influencia na linguagem atual é evidente. Abreviações, pontuação, esforço de concisão, ansiedade, superficialidade são alguns dos efeitos. Não por acaso, os discursos do presidente, curtos e truncados, se parecem com tuítes narrados.

A data também é emblemática porque é a segunda-feira de uma semana problemática. Aperta a contagem regressiva para o 3/6, data de validade de MPs diversas fundamentais para o governo, principalmente a administrativa, e em calendário legislativo equivale a menos de uma semana.

A “Nova Previdência”, namoradinha da imprensa e último fio a sustentar o humor do mercado, também clama por um avanço. O Decreto de Armas, aceno para o eleitorado reacionário de base do presidente está diretamente relacionado com o chamado para manifestações de apoio ao governo, cuja pauta, entre outros itens, inclui o pacote de Sérgio Moro, que está desconfortável com a amplitude armamentista, assim como lideranças da bancada da bala.

Única explicação possível para tanta loucura em tão pouco tempo é a estética. Com a sociedade divorciada da razão, negando fatos e defendendo pós-verdades, afogada no tsunami dos tempos líquidos detectados por Zygmunt Bauman, parece que o governo sabe que a única forma de comunicação é a estética da confusão.

A referência histórica que oferece a melhor analogia é Jânio Quadros. O louco que tentou um autogolpe em 1961 e se deu mal, mas a gente se deu pior. Falei a respeito aqui observando a sofisticação estética dos cem dias, repeti na semana passada e, por tão evidente, já aparece em outras analises, de Bernardo Melo Franco a Tabata Amaral, passando por Celso Rocha de Barros e até a charge do Amarildo.

Jânio usou e abusou da estética em sua construção populista e na preparação do autogolpe. Nos salões do café-soçaite aparecia elegantíssimo e refinado; encontrando populares trocava o paletó bem cortado por um desgrenhado e com caspa artificial. Atacava todas as instituições brandindo uma vassoura, como se só ele pudesse varrer os males nacionais.

Bolsonaro surge nos Estados Unidos num belo terno azul-marinho, com as cores brasileiras delicadamente acompanhando a casa de botão na lapela, chique como nunca vi qualquer governante aqui ou alhures. Atrás dele, o onipresente Hélio Negão, numa gritante camiseta rosa. Sinais trocados como os passos de Jânio para quem despacha com ministros calçando chinelos e coleciona declarações racistas e homofóbicas, e cuja equipe já imortalizou o “menino veste azul, menina veste rosa.”

De volta ao Brasil, vai à cancela do Alvorada cumprimentar crianças vestindo roupas do domingueiro ordinário. Publica vídeo de pastor africano repetindo o que ele, Bolsonaro, sempre diz, que é um missionário a serviço de Deus. Faz circular carta em que fala de “forças ocultas”. Convoca seus seguidores para enfrentar STF e Congresso na Praça do Três Poderes

Repito que me sinto apavorado. É muita irresponsabilidade. Esta fogueira só interessa às aves de rapina. Para carcará, incêndio no mato é churrasco.

 
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Moro, Marielle e o 13 de Maio no Rio

Na segunda-feira 13 de Maio o ministro Sérgio Moro foi ao Rio para a celebração dos 210 anos da Polícia Militar fluminense, ao qual se somou o I Simpósio Nacional sobre Vitimização Policial.

Como é sabido, o 13 de Maio de 2019 também marcou os 131 da assinatura da Lei Áurea. A data, escolhida pela Princesa Isabel, é uma homenagem ao aniversário de seu pai, Pedro II, que pela convicção abolicionista enfrentou o risco de colocar o trono em xeque. No ano seguinte o Império seria substituído pela República.

Hoje os ativistas negros preferem celebrar a liberdade no 20 de Novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares. É compreensível. Para além da liberdade, Zumbi lutou por um pedaço de chão para seguir em frente, o Quilombo dos Palmares. Vale perguntar se Isabel do Brasil teria condições de assinar a carta com o mesmo espírito, garantindo terra para os escravos libertos. Qual seria o risco de botar tudo a perder depois de quarenta anos de avanços difíceis? O lugar para o debate é a Faculdade Zumbi dos Palmares – FAZP.

Voltando ao presente, foi no mínimo deselegância do ministro Moro, estando no Rio, no 13 de Maio, celebrando o aniversário da PM e debatendo vitimização policial, não citar Marielle Franco.

Primeiro porque Marielle, assassinada no Rio, cumpria mandato conferido pelos cariocas. Depois porque era negra. E ainda porque trabalhava firme em políticas públicas de proteção social a famílias de policiais mortos ou feridos em serviço ou em consequência dele.

No 14 de maio Moro deu entrevista à Globo News e falou sobre o decreto armamentista de Bolsonaro e os índices de violência, que em quantidade vêm caindo há um ano e acentuadamente nos últimos meses. O ministro da Justiça e da Segurança teve a decência de não faturar sobre os números. Mas não resistiu à frieza das estatísticas.

Explico: se é verdade que em quantidade o sangue da violência vem jorrando com menor intensidade, e ninguém sério se arrisca a cravar uma causa, seria prudente considerar a qualidade da violência que vem acontecendo de alguns meses para cá.

Em Angra dos Reis o governador Witzel, que estava ao lado de Moro no 13 de Maio, embarcou num helicóptero da Polícia Civil e transmitiu a chuva de chumbo que promoveu nas favelas da cidade. Uma tenda de orações de evangélicos virou peneira. No dia seguinte, na Maré, a nave sombria voltaria a atacar no horário de saída da escola, botando crianças para correr.

Em Guadalupe o Exército metralhou o músico Evaldo Rosa e o catador Luciano Macedo com mais de 200 tiros, sendo que só o comandante da operação, tenente Ítalo Romualdo, disparou 77 vezes.

Em Inhaúma a Polícia Militar matou o professor Jean Aldrovande, que acompanhado do filho de 17 anos chegava ao Alemão para dar aulas de jiu-jitsu para a garotada local. Jean Samurai, como era conhecido, disputaria o campeonato brasileiro neste 25/6.

Os favelados de Angra, as crianças da Maré, Evaldo, Luciano e Jean têm algo em comum, que podemos chamar de UPP: unidade em pele preta e periferia.

Na madrugada desta sexta 17 Dona Márcia Beatriz Lins Izidro, ex-secretária de Estado de Esporte e Lazer e chefe de gabinete do TCM carioca, desrespeitou uma barreira da PM em Botafogo, e os policiais tiveram a delicadeza de perseguir seu carro até o Jardim Botânico. Em cinco quilômetros, apesar da provável alta velocidade, ninguém se feriu. Ah, Botafogo é central e Dona Márcia, branca.

Meus parabéns à guarnição botafoguense pela prudência. Que sirva de exemplo para todo o Rio e, de lá, para o Brasil.

 
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Ninguém pode ser estrangeiro sozinho

Crônica publicada na #30 edição da revista Amarello, que está nas bancas

Ninguém pode ser estrangeiro sozinho. Mesmo com esforço, alguém disposto a viajar dez mil milhas, escalar oito quilômetros ou mergulhar trinta mil pés, só será estrangeiro se encontrar um semelhante no destino.

Na ausência do próximo, podemos ser exploradores, desbravadores, pioneiros, aventureiros. Nunca estrangeiros. Dada esta condição, com o perdão da redundância, o ser estrangeiro é antes um pré-conceito do que um conceito.

De modo geral o homem comum vai com gosto conhecer o estrangeiro. Se prepara para olhar com bons olhos, experimentar novas experiências, entender culturas diversas. Há exceções, como a guerra e as colonizações, mas estas vamos deixar de lado tanto quanto possível.

O inverso, que é quando o estrangeiro vem nos visitar, divide mais os sentimentos. São corriqueiros os rankings dos povos mais simpáticos a receber visitas. Considerando só os sentimentos espontâneos, sem outro motivo que não o das relações pessoais, costumam encabeçar as listas comunidades já habituadas às diferenças, como as cidades grandes e as nações miscigenadas.

Um fenômeno interessante acontece com nações que enfrentaram a diáspora. Quando se encontram, e principalmente se se organizam em colônias estrangeiras, descobrem e exercitam através de gerações uma solidariedade que não havia no lugar de origem, tratando com ainda mais zelo uns dos outros e fazendo prevalecer a cultura comum sobre qualquer diferença acessória.

Igual a tudo na vida, a dose conta pontos. Ao longo da história, cidades que prosperaram transando cultura e mercadorias com estrangeiros enfrentaram problemas quando a pluralidade deixou de ser uma característica para se transformar na própria identidade. Soluções como o de Nova York, capital do mundo, ou Paris, com o cidadão típico misturado a forasteiros, são raríssimas.

No plano doméstico não é diferente. Vizinhos dispostos à solidariedade incondicional são os mesmos capazes de cometer crime de sangue em caso de desentendimento. A hospitalidade contente tem prazo até para a visita mais querida. O vulgar costuma comparar os hóspedes aos peixes, que depois de algum tempo fora do lugar começam a incomodar. Nos ambientes de trabalho compartilhados, cada vez mais comuns nas últimas décadas, vemos colegas afinados, separados por poucos metros, preferindo conversar por meios inventados para encurtar grandes distâncias.

Este último exemplo talvez nos ajude a pensar na humanidade atual. Nos comovemos com a ocorrência da dor humana do lado de lá do globo com a mesma naturalidade com a qual nos acostumamos com a caatinga da miséria debaixo de nossos narizes. Deve ser algo do nosso instinto de sobrevivência.

A pergunta que proponho parte daqui: se a condição de estrangeiro depende de nós, somos todos estrangeiros ou ninguém é. Assim, seremos capazes de um entendimento universal?

 
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Agenda de um grande dia

São Paulo, 15 de Maio de 2019. Fui pra rua no fim da tarde. Já na esquina com a José Maria Lisboa, encontrei a Brigadeiro fechada pela PM, que acompanhava a manifestação a favor da Educação. De lá até a escola só andei sobre o asfalto e com dificuldade para avançar no contra-fluxo do tsunami.

Alguns pontos dignos de nota:

Estive em diversas manifestações nos últimos anos, sem jamais aceitar convite para subir em trio elétrico. Só tirei os pés do chão uma vez, no caixote do Boca no Trombone, para rogar pela renúncia de Dilma. Até hoje creio que seria o melhor pacto, seguido pela cassação da chapa Dilma-Temer, cujo processo terminou em vexame no TSE.

Quem, como eu, foi à Paulista nos anos anteriores e porventura levou cartaz, se guardou e voltou ontem deve ter reutilizado. A maioria das mensagens eram semelhantes. E os malucos presentes, também minoritários.

O volume de gente era impressionante, mas é difícil comparar com os outros anos, quando as manifestações costumavam ser estáticas, com os trios elétricos atravessados na avenida. E ontem foi uma passeata, com os grupos seguindo caminhões ou bandas afins.

Talvez data e horário contem como diferença. Se MPL e Contra Copa começavam no fim do expediente, e os Fora Dilma aos domingos, ontem começou com convocação de greve e encontro programado para as 14h00, combinando com o horário da fala do ministro na Câmara Federal.

Outra diferença é a pauta definida e o renascimento da militância política. O Passe Livre de 2013 se transformou em Não Vai Ter Copa e então se dispersou contra tudo. Partidos políticos eram expelidos como corpos estranhos. Ontem as bandeiras estavam lá, cada qual na sua, em harmonia geral.

Harmonia esta que se repetiu na Câmara desde a convocação do ministro aprovada quase que por unanimidade. Só PSL e pNovo votaram contra.

Durante a sessão, absolutamente nenhum partido defendeu o contingenciamento. Houve grosseria entre os parlamentares e em relação ao ministro, que por sua vez adotou já na largada a tática do ataque como melhor defesa, mesma linha do presidente da República que, dos EUA, chamou de “idiotas úteis” os manifestantes pela Educação.

Com preferência por divergentes ideológicos, por várias vezes o ministro passou do limite atacando o Parlamento e a Política de forma genérica. O último que fez isso acabou demitido a pedido do então chefe do Centrão. Aliás, DEM, PP e PROS bateram firme no governo.

Ontem não vi pedido de selfie com a PM. Mas a recíproca era diferente. Descontando a tensão natural de acompanhar uma multidão aborrecida, havia entre os policiais um ar de solidariedade indignada. Curioso porém previsível, afinal, quem pode ser contra a Educação?

Meu palpite é que a coisa cresce, seja pelo ânimo das estreias retumbantes, seja pela energia que Bolsonaro empresta com sua autocombustão.

De noite, no intervalo da aula, o céu estava claro e a lua, linda. Para meu gozo íntimo, o frio chegou. Mas é triste saber que vem se somar ao jugo da carestia, do desemprego, do desalento, do desespero que se vê nas ruas. O governo atual não pode nem deve ser responsabilizado pelo conjunto da obra, e sim pelo que não faz para remediar e até para piorar.

Clara como a noite fria vai ficando a agenda Bolsonaro (antecipei aqui). É o autogolpe de Jânio em 1961, com tuitadas no lugar de bilhetes amarelos. Todos os elementos para a analogia estão presentes: ataques à imprensa, universidades, Congresso, Justiça, Política; desmoralização e incentivo à conflagração de aliados sensatos; diversionismo de biquíni ou princesa gay, lança-perfume ou maconha; bicho-papão soviético ou venezuelano; linha sucessória com sérias fragilidades e até o “forças ocultas” já está no twitter do Cartucho.

Foi um grande dia. Mas hoje eu acordei apavorado.

 
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A morte do governo Bolsonaro

Imagine na tela do seu celular um aviso dizendo que, dentro de alguns dias, os 22 aplicativos que você escolheu e organizou de modo a facilitar sua vida seriam reconfigurados, alguns substituídos e reorganizados não ao seu gosto, mas ao de outra pessoa e que, ampliados para 29, poderiam travar o sistema. Sensação de morte?

Para evitar o drama, bastaria um pulo na assistência técnica. Sim, é chato, burocrático, tem fila, você não entende direito o que o balconista fala. Mas se é o jeito, neste momento você estaria na fila da assistência ou na festa do peão aguardando para brincar no touro mecânico?

A “morte” mais próxima do governo Bolsonaro é três de junho. O termo, assim como a indesejada, é usado em referência a algo inadiável.

No 3/6 vence a medida provisória que trata da configuração do ministério atual, com 22 pastas. Se recusada ou não votada a tempo no Congresso, o governo voltará a ter pelo menos 29 ministérios e, neste caso, a configuração adotada por Michel Temer.

Com este cenário, e partindo do princípio de que alguém no Planalto sabe o que está fazendo, seria natural esperar que o governo trabalhasse no sentido de manter a estrutura criada.

Pois o presidente da República está em Dallas para um convescote. Com ele está o general Santos Cruz, ministro responsável, entre outras coisas, pela comunicação do governo e parte de sua relação com… o Congresso.

No Brasil, espalha-se pelas cidades a primeira greve geral em defesa da Educação, cujo ministro foi convocado a explicar o contingenciamento para a oposição e dizer à situação se o mentiroso no bate-cabeça do governo é ele ou o Presidente. No Congresso.

Juntos, ministro da Educação e Presidente compartilham uma entrevista do primeiro atacando mais uma vez a política e mentindo ao dizerem que toda responsabilidade pela definição do Orçamento atual é do… Congresso.

O Banco Central prevê depressão e o ministro da Fazenda aposta na balbúrdia, ameaçando a Nação com mais cortes desproporcionais e jogando a fatura para o… Congresso.

Enquanto isso, no Congresso…

Na Câmara Federal, o filho ZeroTrês, Eduardo Bolsonaro, acredita que a prioridade é construir uma bomba atômica. (Meu nome é Enéas!)

O deputado-príncipe do PSL usa na tribuna a história da Sereníssima Casa de Bragança para atender à tresloucada Casa de Rio das Pedras. Melhor dizendo, em vassalagem aos Bolsonaro, o Orleans e Bragança usou a data da Abolição, assinada por Isabel do Brasil no 13 de Maio em homenagem ao aniversário do pai, o abolicionista Pedro II, só pra contrariar os movimentos negros que ora preferem concentrar suas festividades no 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares. Não contente, ainda disse que a escravidão é da condição humana.

No Senado, o filho ZeroUm só pensa em escapar da Justiça, disparando contra o Ministério Público e o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

No Twitter, o filho ZeroDois mete um vídeo falando em golpe engatilhado para derrubar seu pai. Como de costume, a mensagem é confusa, donde fica impossível saber se é autocritica.

 
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Surfistas de tsunami

Ninguém pode cravar o que Jair Bolsonaro quis dizer quando antecipou um tsunami para esta semana. Aliás, o próprio bolsonarismo, como onda que é, e com tanta ressaca fabricada no governo, quem poderá distinguir a mais alta e gorda? Há meses é todo dia uma série. Haja folego.

Mas se valer aposta, a que mais o ameaça vem do MP-RJ, que pediu a quebra dos sigilos bancário e fiscal do senador Flávio Bolsonaro, sendo atendido pelo TJ. Além do ZeroUm, a investigação alcança Fabricio Queiroz, amigo de quatro décadas de Jair Bolsonaro, a primeira dama Michelle e outros 88 funcionários que passaram pelo gabinete do então deputado estadual, muitos deles diretamente ligados a milicianos.

Para além do varão, do amigo do peito e da mulher, a investigação atinge o núcleo que é ainda tido como razoável dentro do governo. Mais exatamente os superministros Sérgio Moro, Paulo Guedes e militares.

Já escrevi várias vezes e não me não custa repetir:

Em 2018 a Lava Jato no Rio de Janeiro prendeu dezenas de deputados estaduais, quatro dos cinco ex-governadores, presidentes da Alerj e do TCE;

O relatório do COAF sobre Flávio Bolsonaro faz parte da mesma operação e chegou ao MP-RJ em janeiro de 2018, mas só veio a público depois das eleições, em novembro, com saldo de trinta páginas. Em janeiro de 2019 a investigação somava 300 páginas e dois arquivos digitais;

A Lava Jato só foi tão longe por ser uma força tarefa onde a sintonia entre polícia, promotoria e juízes era total. Sérgio Moro precisa dizer quanto sabia de Flávio Bolsonaro;

Queiroz e filha dizem que foram exonerados treze dias antes do segundo turno das eleições, período que coincide com a versão do general Mourão sobre quando Paulo Guedes se encontrou com Sérgio Moro para fazer o convite para o ministério da Justiça. PaGue precisa contar ao Brasil sobre como foi a conversa, que agora inclui toma-la-da-cá com STF;

Entre fevereiro e dezembro de 2018 o Exército comandou a intervenção federal no Rio, com acesso irrestrito aos dados de inteligência da Secretaria de Segurança. Os generais devem falar ao Brasil se em onze meses notaram ou não as súcias bolsonaristas-milicianas. Precisam dizer se sabiam que o miliciano Ronnie Lessa, acusado de assassinar Marielle e Anderson, dono de 117 fuzis, era vizinho e ex-cossogro do presidente da República eleito.

 
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Quem trabalha de graça é a mãe

O capitalismo tem uma regra: não existe almoço grátis. Não falha. Se por acaso acontece um almoço que parece grátis, convém investigar para saber quem está pagando. Sempre tem. Não falha.

Anteontem, no segundo domingo de maio, rolou um almoço internacional em homenagem às mães. Uma beleza. Todo mundo postando retrato. Realmente comovente.

Mas com o perdão da indelicadeza, e esta freguesia há de reconhecer que respeitei a boa digestão, proponho que a gente pare para pensar em quem está pagando a conta da maternidade.

Já foi pior, mas a verdade é que o trabalho doméstico ainda fica por conta da mulher. São elas que cuidam das crianças, dos velhos, dos doentes, das pessoas com deficiência. Também são elas que tratam de cama, mesa e banho. Mas não recebem pelo serviço.

Se não recebem, parece almoço grátis. Porém, como almoço grátis não existe, quem está pagando a conta?

Ora, é a economia, estúpido. No capitalismo, quem trabalha gera valor. Se este valor não é reconhecido, o capitalismo sofre. E quanto mais longo o caminho que o valor faz até encontrar o preço, mais caro fica.

O primeiro efeito da mãe trabalhar de graça é econômico. Sem ter seu valor reconhecido, a mulher não consegue reconhecer o valor do trabalho de outra mulher. Numa sociedade pobre como a brasileira, ocorre que outras mulheres são contratadas para fazer o trabalho doméstico pelo preço mais baixo possível.

O efeito social vem grudado. É possível ser pai de duas famílias. E impossível ser mãe de duas famílias. A moral praticamente extinguiu a primeira prática, mas ainda tolera a segunda com naturalidade. Preferimos ignorar o fato de que quando uma mãe se divide entre duas famílias, uma ou ambas serão prejudicadas pela falta de atenção, de laços, de respeito. E não há sociedade que pare de pé assim.

Aqui chegamos diante de quem acaba pagando a conta do trabalho doméstico não remunerado: a economia e a sociedade. Custa muito caro a todos nós manter esse modelo, que de grátis, como todo almoço capitalista, só tem a aparência.

E em respeito aos princípios capitalistas, é preciso rever o modelo. Ora, há concordância sobre o Estado gastar dinheiro para manter equilibrados recursos monetários, por que não haveria de investir para equilibrar recursos humanos?

Aos liberais radicais cabe a mesma pergunta. Como pode ser equilibrado um mercado onde alguém trabalha sem remuneração?

Para encerrar, se quem vai fazer o trabalho do lar é mulher ou homem, para mim é indiferente. Assim como não interessa se é casal, trisal, família monoparental. O importante é que, uma vez decidido que haverá um lar, alguém deve se dedicar a ele e ser remunerado por isso, porque é justo e convém a todos nós. O mínimo equilíbrio econômico e social dependem disso.

O melhor presente de dia das mães seria a Renda Básica Universal. Tenho convicção de que, uma vez adotada, o dia das mães seria mais contente ano após ano, principalmente para a principal interessada, que é a rede varejista.

 
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15% dominaram o Brasil

O desencanto é geral. Desemprego, desalento, desespero. Ruralistas insatisfeitos, evangélicos contrariados, industriais em extinção, construtores sem perspectiva, caminhoneiros irritados, militares envergonhados. Sérgio Moro esculhambado, PaGue desautorizado, general Villas-Boas espancado nas redes sociais. Carla Zambelli chora.

Em seu universo paralelo e ainda sob os vapores (obrigado, Braga) do porre homérico do semestre passado, o mercado financeiro finge que vai tudo bem. Já reduziram uma dúzia de vezes a projeção do PIB mas a Bolsa segue firme perto dos cem mil pontos, o dólar se mantém estável, bancos aumentam lucros concentrados na usura sobre uma sociedade endividada.

Hoje balançou, dólar subiu a quatro reais e Bolsa caiu, mas em função da guerra comercial entre China e EUA, não pelo caótico cenário intestino. É como se para os nossos investidores o Brasil não tivesse qualquer relevância, ou fosse antes um rincão para ganhar no mole do que um país.

Academia, imprensa, intelectuais, ambientalistas, cientistas, ativistas, artistas, comunidade internacional, atônitos, procuram entender como tal cenário pode parar de pé. Incompreendida, a alegoria sequer pode ser combatida. Sem resistência, segue o desmonte.

Admito que não sei o que fazer, até porque também não consigo entender como chegamos a tal ponto. Mas sei o que não fazer.

A primeira coisa é nunca ceder para o “eu avisei”. Se o bolsonarismo é incompreensível para quem enxergou que seria assim, imagine para quem acreditou que poderia funcionar. Apelar para a razão, portanto, é tão ineficiente na teoria quanto na prática, isto é, algo como querer voltar no tempo.

A segunda é jamais abrir mão da solidariedade. Quem votou contra o PT deve estar tão mal quanto quem votou contra Bolsonaro. E foram os eleitores do contra que definiram o resultado. O fato é que a eleição passou, há um governo eleito e estamos todos sob ele. Juntos.

A terceira é em nenhuma hipótese render-se e desistir de analisar e tentar entender o que acontece. Juntando a primeira e a segunda, nunca ceder à tentação da vingança e dizer “eu avisei”, mas sempre continuar avisando e lembrando que, mesmo separados em partes discordantes, somos inseparáveis enquanto sociedade, tanto quanto o governo é uma coisa só. Defendendo ou atacando a parte, defende-se ou ataca-se o todo.

Considerando o primeiro grupo, formado pelos que acreditaram na alternativa bolsonarista, se descontarmos seu grupo original, que eu suponho ser algo em torno de 15% de gente realmente reacionária, restam 45% de eleitores que podem ser conservadores, neoliberais, militaristas, lavajatistas, antipetistas. Mas não são bolsonaristas, portanto não votaram a favor de Bolsonaro. O que teria os unido?

Meu palpite é uma estética sofisticada e muito bem trabalhada. Sem explicar a que veio, Bolsonaro simplesmente simboliza.

Ornamentado com símbolos de conveniência que serviram à comunicação de nicho, como Moro, Mourão, PaGue, Bolsonaro tornou-se viável eleitoralmente saltando de 15% a quase 60%. Problema: transformar expectativa eleitoral em realidade de governo sem apoio do Presidente. Efeito: descolamento e desidratação precoce.

Os símbolos de convicção, fiéis ao bolsonarismo original, como filhos, OakLavo, ChanCelerado Araújo, Damares Alves, Abraham Weintraub, Ricardo Salles, tornam-se cada vez mais enraizados. Problema: terão apoio da base reacionária, do Presidente e seguirão operando. Efeito: desmonte.

Arma predileta de Bolsonaro, seu Twitter mostra que sua base virtual é alegórica como a da maioria dos políticos. No caso dele, 60% são contas inativas, 59% não falam português, 84% seguem e 87% são seguidos por quase ninguém, 69% são localizados em lugar nenhum, indicio de atividade bot. O que ele tem de força é um engajamento alto, apontando para a existência de um público diminuto, denso, fiel e combativo. Meu palpite é que sejam os mesmos daquele estrato de 15% reacionários.

A escolha de Bolsonaro é clara. Governará para os 15% de reacionários. Assim, quem esperava que ele trocaria sua base por reformas econômicas ou pacote anticorrupção, errou. Agora defender Paulo Guedes é fortalecer Damares Alves. Atacar Ernesto Araújo é enfraquecer Sergio Moro.

Repito que não sei o que fazer. Mas pergunto: o Brasil seguirá entregue a esses 15%? Por quanto resistirá assim?

 
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A SP de Covas, Doria e Bolsonaro será o paraíso gay

Se confirmada, a emigração da Formula 1 para o Rio será emblemática. A São Paulo de João Doria e Bruno Covas diz querer vender o autódromo de Interlagos, e Jair Bolsonaro afirma que um novo será construído em Deodoro, no Rio. Diz mais: que o circo, passando uma vez por ano, gera sete mil empregos diretos e indiretos que permanecem para sempre (sic).

Outro dia o presidente da República, após suspender a campanha do BB, disse que o Brasil não pode ser um paraíso gay, mas que o estrangeiro esteja à vontade para vir fazer sexo com mulher. Não disse porém se também vale para as estrangeiras que eventualmente gostem de mulheres.

Relacionando as duas falas, resta saber se na conta dos sete mil empregos estão incluídas as operárias do amor. Como é sabido, se tem um setor que a F1 aquece a ponto de fervura na economia paulistana é o do chamado “entretenimento adulto”. As casas mais conhecidas fazem até propaganda. Diz aí, Oscar Maroni.

Sem a F1, a São Paulo de Covas, Doria e Bolsonaro promete ser o paraíso nacional do turismo gay.

Um estudo recente mostra que a Parada Gay é o segundo evento que traz mais dinheiro para SP. Sem a F1, será o primeiro? Talvez. Os números precisam ser atualizados considerando o carnaval.

De qualquer maneira, jamais será sem a prestimosa colaboração da comunidade LGBTTQI, pois dizia o José Simão: “quem faz o carnaval é o bicho e a bicha”. Isso no Rio. Em SP, com bicho fraco, devemos clamar: força, bicha!

 
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Chocolate

Painel da Folha: Segundo a nova pesquisa XP, “o índice dos que a classificam como ruim ou péssima (gestão Bolsonaro) oscilou cinco pontos, de 26% para 31%, de abril para cá.”‬

‪Na margem de erro, 3 chocolates em cada dez derreteram. ‬

‪Confere, ministro Abraham Weintraub?

 

 
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