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Química, sociologia e a explosão iminente – ou Parente, ouça o Montoro

Combustível espalhado havia. Muita palha seca por aí. Faltava uma faísca. Ou um gatilho. E foi justamente o que o governo fez: criou um gatilho para reajuste de preços de combustíveis na Petrobrás. Quer dizer, misturou gatilho com combustível. Deu no que deu.

Só no ano passado foram mais de cem aumentos no preço dos combustíveis. Desses mistérios inexplicáveis, a população aguentou quieta. Mas bastou o dólar disparar – Argentina, taxa de juros nos EUA etc – para deflagrar a revolta.

Como de costume, quem depende diretamente do preço se levantou antes: os caminhoneiros. E como o Brasil depende diretamente dos caminhoneiros, o país parou. Em três dias o desabastecimento colapsou as cidades. Falta gasolina nos postos, aeroportos e até alimentos e remédios em algumas praças. No campo, leite literalmente derramado por falta de distribuição e produção proteína ameaçada por falta de insumos (a ração que não chega). Na indústria, todas as montadoras pararam de produzir. Exportação, nem pensar. E até a cerveja está ameaçada.

Mas calma, freguesa, porque deve piorar. O que há nas ruas é efeito de quem depende do óleo diesel, que tem mais força porém menor potencial explosivo. Com o acordo feito entre o governo e os caminhoneiros, basicamente o imposto sobre o diesel deve cair e os reajustes serem anunciados com um prazo maior.

Deve piorar porque, além do acordo não garantir o fim do incêndio, a hipótese de normalização do abastecimento vai manter o gatilho sobre a gasolina, combustível que, apesar de gerar menos força, tem maior poder de explosão. Como a chance do dólar se acalmar é pequena ou quase nula, o preço vai continuar subindo. E aqui a química encontra a sociologia: donos de automóveis, motoboys, taxistas, uberistas vão explodir.

Enquanto isso as torcidas organizadas do jogo político insistem em direita e esquerda, como se ainda houvesse um meio de campo em Berlim. Ficam na briga eterna entre Estado e mercado, como se a convivência fosse impossível. Não é. A saída é pela terceira via, ou como dizia o Franco Montoro: “nem o punho cerrado da luta de classes, nem os braços cruzados da indiferença burguesa, mas os braços abertos da solidariedade cristã.”

Traduzindo, Parente caríssimo, a lógica cega do gatilho de preços num país que depende fundamentalmente dos caminhões, funcionou tanto quanto os punhos cerrados da luta de classes que quebrou a Petrobrás na primeira metade desta década. É preciso um meio-termo. Ouça o Montoro. Aliás, se ele tivesse sido ouvido, teríamos hidrovias e ferrovias, dependendo menos de ferrovias e petróleo.

 
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Transporte de carga é transporte coletivo

Meu sogro Manoel Sousa Lima tomou posse no Setcesp decidido a ser o presidente da transição, isto é, marcar o mandato com a transmissão do comando entre a geração dele e a atual – o que acabou se confirmando e, hoje, o presidente é meu amigo Tayguara Helou, (bem) mais novo do que eu.

Palpiteiro incansável, soprei para o Mané que ele poderia acrescentar uma utopia à gestão: construir a narrativa de que transporte de carga, ou abastecimento, é transporte coletivo. Lógico: o que determina a coletividade é o número de pessoas atendidas no final do transporte, e não quantas pessoas vão a bordo.

Óbvio, mas sequer os empresários do setor acreditavam. Caminhão era o vilão do trânsito e assim seria para sempre.

Porém fiz as contas e insisti que, com a determinação do então prefeito Fernando Haddad em privilegiar o transporte coletivo sobre individual em seu mandato, era o momento ideal para botar o bloco na rua.

Com hábil suavidade o Setcesp estreitou laços com a prefeitura, apresentou dados mostrando que, além de fundamental, o caminhão representa muito pouco no espaço viário, principalmente se comparado aos automóveis e, bingo, Haddad comprou e bancou a ideia.

Hoje o transporte de carga é reconhecido como transporte coletivo no Plano Diretor.

E hoje também aprendemos, na marra, que sem transporte de carga, não há vida nas cidades.

 
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Burrice humana e inteligência artificial

Crônica publicada no Esquina/Estadão em 23/05/2018

A burrice como barreira para a inteligência artificial. Para não ser indelicado, notadamente nesta Esquina sempre tão simpática, adianto que, por burrice, entenda-se teimosia. Até porque, por ora, quem desenvolve a inteligência artificial somos nós, os humanos – ou alguns dos nossos pares mais inteligentes.

A notícia que sacudiu o setor neste início de maio foi o êxito do Google Duplex no Teste de Turing. Conforme afirmou John Hennessy, ex-presidente da Universidade de Standford e membro do conselho da Alphabet, holding que controla o Google, o robô se provou capaz de fazer por telefone uma reserva em um restaurante. É a segunda vez na história, desde que o matemático britânico e pai do computador Alan Turing criou o teste, nos anos 1950, que um computador passa na prova. O primeiro foi o robô Eugene Goostman (homem fantasma?), que simula um garoto de treze anos trocando mensagens de texto. No Brasil chamar-se-ia Gasparzinho :-)

De carona com o Duplex recebemos outras duas grandes novidades. Dentro de alguns meses, na cidade de Phoenix, a Waymo, também controlada pela Alphabet, deve começar uma operação semelhante a do Uber, só que em carros autônomos, isto é, sem motorista. E o Google Assistant anunciou uma função que permite ao usuário encomendar um café na Starbucks.

Voltemos, pois, ao Duplex. O que ninguém informou é quem avisa o robô onde, quando e com quantas pessoas o ser humano pretende jantar. Suponho que seja o próprio ser humano e, em se tratando de jantar fora, embalado por seus instintos mais primitivos: fome, amor, sociabilidade.

Daí que me pergunto por que não informar diretamente à pessoa do outro lado da linha ou mesmo um robô do próprio restaurante.

Entendo, é claro, que é só um teste. E que seria muito bom ter um robô para falar com os robôs que os bancos, telefônicas e outras empresas já usam para falar com a gente, frequentemente nos levando à loucura, ainda que, neste quesito, ainda estejam muito distantes dos operadores de telemarketing. Mas continuo me perguntando se melhor não seria que os bancos, telefônicas e outras empresas se empenhassem no princípio de fazer a nossa vida mais fácil, e não mais difícil.

E é aí que entra a teimosia – ou a burrice – humana. Minha geração é divertida. A gente se conhece pessoalmente e imagina uma possibilidade de relação. Então trocamos algumas mensagens por Whatsapp para combinar data e horário para um “call” via Skype. Data e horário definidos, chega um e-mail para confirmar que haverá o “call”. Este que, se exitoso, nos levará a uma reunião presencial, provavelmente numa loja da Starbucks. Nossa prosperidade tecnológica parece estar transbordando.

Enquanto isso, numa cidade como São Paulo, o abastecimento de água e energia ainda depende da presença física de um funcionário para conferir o consumo e ligar ou desligar o fornecimento.

Das perguntas expostas ante o anuncio das inovações, duas se destacam. A primeira, tão humana, é a financeira. E a Alphabet explica: “com o Assistant, por exemplo, podemos ganhar na intermediação da compra do café.” Fico até emocionado. Descendo de agricultores e corretores de café que talvez nunca tenham imaginado em faturar na corretagem no estágio da xícara.

A outra questão é ainda mais humana, porém esquecida nos últimos tempos: ética. Nos testes, os humanos do outro lado da chamada pareceram nem desconfiar que falavam com um robô – exatamente como já acontece com telemarketing, inclusive com vozes de celebridades, que importunam possíveis clientes sob a lógica de que, por ser tão barato, compensa incomodar 99 pessoas para ganhar um freguês.

E há também a questão da privacidade, que apesar da voga atual, passou ao largo da apresentação. É claro que o seu cartão de crédito já sabe, usa e vende os dados sobre os seus hábitos de consumo. A novidade aqui é que o robô do Google promete ser ainda mais eficiente – e perigoso.

Puxando brasa para a minha sardinha deixo a questão derradeira: quantos filósofos integram o conselho da Alphabet?

 

 
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Olho em Berlim

Crônica publicada no projeto Esquina / Estadão em 03/05/2018

Carles Puigdemont, figura central do independencionismo catalão, está preso. Não mais na cadeia, como chegou a ficar em Neumuenster, norte da Alemanha, e de onde saiu sob fiança de 75 mil euros, mas na cidade-Estado de Berlim, em liberdade condicional.

Posso estar errado e certamente estou sozinho. Mas acho simbólico. E também acho que essa temporada pode ser boa para o mundo inteiro. Só depende de mais e melhor atenção.

Antes de prosseguir, é importante traçar algumas fronteiras: desprezo o nacionalismo, bairrismo me dá preguiça e, entre os raros assuntos que não tolero debater, está o separatismo xenófobo com seus muros e afins.

Do outro lado, sou apaixonado pelas culturas locais, modos, hábitos, tipos, comidas, causos, canções, ares, águas e qualquer coisa capaz de identificar um lugar. Acredito em terroir. Tenho certeza essa disposição em conhecer peculiaridades alhures é parte fundamental da civilização.

Voltemos a Puigdemont. Ele é acusado pela Justiça espanhola de rebelião por ter chamado o referendo separatista e de ter usado recursos públicos para promove-lo quando presidiu a Catalunha. A Justiça alemã achou a acusação exagerada e soltou o catalão em Berlim, negando a extradição pedida pela Espanha – que por sua vez segue insatisfeita e promete recorrer à União Europeia.

Com a escalada do processo, creio eu, ganha a humanidade. Quanto mais gente se envolver no debate, melhor. Porque é inexorável. Temos que enfrentar.

Ainda na Espanha, a voz rouca das ruas murmura no País basco e na Andaluzia. Na Bélgica, flamengos andam assanhados. No norte da Itália e no sul do Brasil renascem movimentos históricos. Assim como no sul da cidade de São Paulo, com Santo Amaro voltando a falar na autonomia que já teve. A lista é longa e vasta. Quebec, Tibete, Saara Ocidental, Zanzibar, Chechênia, Curdistão. E as ilhas? Córsega, Havaí, Groenlândia, Nova Caledônia, Madeira, Escócia – isso sem falar na própria Inglaterra com o Brexit. E há mais. Então é claro que temos que debater o assunto.

A proposta de independência varia tanto quanto o prato típico de cada um desses lugares. Entrar nas particularidades seria gastar energia à toa. E, pior, poderia dar palanque aos radicais e populistas que não o merecem.

Reconheço que soa contraditório meter uma frase como a que encerra o parágrafo anterior numa crônica aberta com o nome de Carles Puigdemont. Mas por outra, ele está em Berlim que, agora sim, deve ter papel igual ao de uma babá alemã na educação de um menino mimado e servir de referência a todas as cidades que se encontram nesse estágio de adolescência procurando afirmar identidade e ganhar autonomia.

A importância de Berlim como sede do debate supera o poder político e econômico da Alemanha na Europa e no mundo. Está além da efervescência cultural. Ultrapassa o exemplo de ser uma das cidades que mais recebe refugiados. Vem de séculos.

As aspas a seguir são do artigo O Federalismo Alemão e o modelo das Cidades-Estado – Uma abordagem político-jurídica da história e do desenvolvimento do princípio estruturante alemão com enfoque especial nas cidades-Estado, de autoria das pesquisadoras Isabelle Schaal e Lisa Galvano, publicado no caderno Megacidades da Fundação Konrad Adeneuer, cuja leitura recomendo na íntegra.

“Desde a Idade Média, as regiões alemãs encontravam-se divididas entre os chamados príncipe-eleitores, que tinham a incumbência de eleger o imperador. Durante o Sacro Império Romano da Nação Germânica já se podiam reconhecer estruturas federais, se tomarmos como exemplo a Liga Hanseática alemã. Um marco decisivo na configuração de elementos federais foi a Paz de Vestfália firmada no ano de 1648: a partir desse ponto o imperador dependia, no tocante a assuntos importantes que concerniam ao Império, primeiramente do consentimento do Parlamento. Para aqueles que mantinham um assento no parlamento (os chamados estados imperiais), seu domínio territorial continuava a ser reconhecido, o que significava um deslocamento de poder justamente para aqueles senhores feudais; com a continuação, isso resultou em que os estados territor iais de grande porte fossem ficando cada vez mais livres da influência do Império.”
(…)
“Com base nesses dados, pode-se afirmar, de modo resumido, que certamente se pode concordar com a tese de (Karl) Loewenstein [“quem quiser estudar o federalismo em seus últimos requintes (…)” terá de “ater-se ao exemplo da Alemanha, que já o pratica há séculos”]. O federalismo goza de longa tradição na Alemanha e surgiu, ao longo dos séculos, em diversas formas e variantes, em diversos contextos e como base para diferentes objetivos. A estrutura existente nos dias de hoje, que se baseia na Federação e nos estados federados, há muito se encontra consolidada, além de mostrar o elemento regional: interessa também possibilitar uma ‘integração’ em estruturas regionais específicas e com características históricas, assim como criar espaço para especificidades e peculiaridades regionais, o que ganha especial r elevância no âmbito das cidades-Estado”.

Isto é, toda essa tradição alemã, comprovadamente exitosa, pode servir à humanidade como exemplo. Não precisamos nos separar. Muito pelo contrário. O ideal é que haja maior possibilidade de integração, não só entre as nações como também entre os continentes. Mas até por essa escala de relações internacionais vertiginosa, as questões regionais devem ser observadas para servirem como guarda-mancebo às comunidades locais. Como dizia o governador Franco Montoro, “ninguém mora na União ou nos estados, as pessoas moram nos municípios”.

Tudo isso abarca desprendimento dos atuais detentores do poder e dos pretendentes. Descentralização ainda causa calafrios no jogo político. Aproximar as decisões sobre políticas públicas de quem mais interessa, que é a população, é um desafio para estadistas.

O Brasil é um caso de urgência. Na última eleição presidencial a candidata eleita tinha entre suas propostas construir creches. Pode, em sã consciência, alguém delegar à Presidência da República a responsabilidade de identificar e destinar investimento tão particular a cada localidade? Por essas e outras, deu no que deu e o redemoinho continua.

Em entrevista recente para o especial Desafios para 2019 do Estadão, o economista Eduardo Gianetti da Fonseca mostrou como os recursos se perdem nesse caminho tão distante, citando estudo do Banco Mundial que aponta que, em Saúde, poderíamos ter desempenho igual gastando 30% menos.

O problema, segundo o economista, está no “pacto federativo mal resolvido, gerado pela Constituição de 1988. Se tudo tivesse ido bem, o crescimento dos gastos nos estados e municípios acompanharia a redução dos gastos do governo central. Mas os três níveis cresceram ao mesmo tempo. A sociedade passou a carregar dois Estados superpostos, no que chamo de federalismo truncado. A solução do problema fiscal brasileiro passa por corajosa mudança no desenho do pacto federativo. Menos Brasília e mais Brasil. Diminuir o governo central e dar a estados e municípios mais autoridade para tributar. O dinheiro público deve ser gasto o mais perto possível de onde é arrecadado”.

Me arrisco a dizer o seguinte: para o Brasil e para o mundo a saída é clara: seguir a orientação do Gianetti da Fonseca ou enfrentar a onda separatista. Lembrando que a questão é de reconhecimento, não simplesmente financeira. Para usar os alemães, é mais Hegel e menos Marx. Por isso, olho em Berlim.

 

 

 
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Cidade e cerveja

Crônica publicada no Esquina/Estadão em 16/03/2018

Incrédulo, vi um amigo pedindo caipirinha com cachaça Anísio Santiago, que ficou conhecida tanto pela peleja com a marca de rum que leva o nome da cidade de Havana em torno do registro da marca, quanto pelo preço que atingiu embalada pelas qualidades reconhecidas. Na casa havia limão galego e gelo de primeira qualidade, donde não seria razoável supor que o resultado tenha sido ruim. Por outro lado, é óbvio que, considerando os fatores envolvidos, o resultado seria equivalente usando uma cachaça bem mais modesta.

As coincidências entre cidades e bebidas não ficam nos nomes de origem ou no desperdício derivado do exagero. Há, por exemplo, uma piada famosa envolvendo as cidades e suas bebidas mais conhecidas. Quem conta é um escocês simpático que trabalha como embaixador do uísque Johnnie Walker. Palestrando em Atlanta, ouviu uma provocação: “Aqui gostamos de misturar o seu uísque com Coca-Cola.” Diplomaticamente, o escocês devolveu o seguinte: “Well, lá em Glasgow eu diria que estraga o uísque. Aqui em Atlanta, afirmo que estraga o refrigerante.”

Em São Paulo, minha dor de cabeça mais frequente tem um endereço: o final da Avenida Paulista. Aquele platô que marca o encontro com a Consolação é minha rebordosa. A arquitetura do entorno é inebriante. Dos clássicos edifícios Gibraltar e Anchieta e os recém-nascidos IMS e o projeto novo do escritório Botti-Rubin – talvez ainda pagão. Tem o bar Riviera, o cine Belas Artes, horta comunitária na Praça do Ciclista. E debaixo, o túnel que vem da Doutor Arnaldo mostrando o que a avenida seria caso ele continuasse até o platô lá do começo, no Paraíso.

Mas o século vinte escolheu o inferno. A ressaca. De espaço público pensado para as pessoas há uma passagem subterrânea. Já para os carros a composição é tão diversa e absurda que foi parar num monólogo do Juca de Oliveira. Ele cita uma por uma as pontes, alças e passagens e conclui: “Claro que o Hospital das Clínicas e o cemitério do Araçá tinham que estar ali.”

Fico imaginando como foi agradável parar ali ao longo dos tempos. Descansar e contemplar a vista depois de subir o morro no caminho do Centro até Pinheiros. Córregos correndo até rio sinuoso lá embaixo, o charco fértil, quiçá as copas das araucárias. Olhar e imaginar aonde os caminhos poderiam nos levar. E hoje olhar pensando se chegamos ao ponto de não-retorno ou se haverá consolação possível.

Quero acreditar que salvação há. Inclusive para chegarmos a terras estrangeiras viajando pelos nossos rios. Cem metros Paulista abaixo embarcamos no rio Pinheiros, navegamos até o Tietê rumo ao sertão, chegamos ao Paranazão e, quando percebemos, estaremos no rio da Prata, alcançando Buenos Aires. Que tal? Falta uma obra ou outra, de despoluição à eclusa em Itaipu. Nada demais… O que importa é que eu estou procurando um jeito de chegar lá desde o primeiro parágrafo, para falar de bebidas e cidades.

Outro dia o Blog do Empreendedor do Estadão trouxe o problema do vinho na Argentina. Estão perdendo espaço para as cervejas. A hipótese levantada é que a sofisticação inventada pelos novos gerentes de marketing acabou por constranger e afastar os bebedores de sempre, gente comum, que bebia por prazer e sem frescura, misturava o vinho com soda, juntava os amigos em volta do garrafão, da brasa e era feliz. Agora com isso de taça adequada à uva, aromas imaginários, cores psicodélicas e outras afetações, além de preços injustificáveis, a turma ficou com preguiça e mergulhou na cerveja.

Não há motivo para duvidar. Gente sensata vem fazendo o mesmo alerta há anos. O Julio Iglesias, que já nasceu espanhol e rico, e ganhou mais dinheiro com futebol e música, reúne todas as ferramentas para beber o que há de melhor no mundo. Dizem que no Caribe envelhece suas garrafas numa adega submersa. Mesmo assim, numa entrevista à Marília Gabriela, perguntado sobre como identificar um grande vinho, foi sucinto: “Abra uma garrafa e compartilhe com os amigos. Se a conversa melhorar o vinho, é bom. Se piorar, abra outra.”

O fenômeno não é exclusivamente argentino. Um amigo que é do ramo me contou que o consumo de vinho arrefece no mundo inteiro, inclusive na Europa. E acrescenta que em Paris já há mais brasseries do que na Bélgica. A exceção são os Estados Unidos, onde tudo cresce: cerveja, coquetelaria e vinho. Dada a polarização política por lá, pode ser que metade do país esteja bebendo para esquecer, e a outra metade para comemorar.

Meu palpite vai além. Penso que a explosão do mercado de cervejas (e gins) artesanais guarde alguma relação com a urbanização no mundo. Sabemos que cada vez mais pessoas moram nas cidades, e tanto a cerveja quanto o gin são bebidas essencialmente urbanas. Podem ser feitas e consumidas em pequenos estabelecimentos, precisando, além de cereais, respectivamente de água e álcool, e dispensam envelhecimento. Enquanto o vinho requer espaço, vasto e específico, em todos os estágios de produção, impondo uma condição rural e distante.

Outros fatores que podem contar são a sensação de pertencimento, de vizinhança, um apelo semelhante ao da “comida caseira” ou das padarias, tão próprio das paróquias; o custo-benefício para o consumidor, posto que a maior parte do preço de uma cerveja está na embalagem e no transporte; e mais distante mas ainda relevante, a sustentabilidade que vem da economia de recursos naturais que a mistura de todos esses fatores, incluindo o viver em cidades, proporciona.

O caminho inverso também é verdadeiro. Nesse universo distrital o produtor ganha em sensibilidade e sintonia com o consumidor, e não sendo uma grande companhia, tem mais agilidade nas adaptações, driblando com facilidade os movimentos lentos das gigantes multinacionais.

Londres, que chega a emprestar o nome à mais conhecida receita de gin, esteve perto de uma revolução contra a monarquia em 1736. A turma estava bebendo demais e a Coroa quis proibir. O povo respondeu: “No gin, no king”. Vá lá que a estratégia foi algo desastrada. A fim de inflamar as massas, os produtores e donos de bar serviram uma rodada mais generosa na noite de véspera, e o resultado foi que ninguém acordou para a manifestação. Mesmo assim, a coroa perdeu. E hoje a cidade assiste satisfeita a volta das destilarias aos bairros centrais.

Em Nova York, as chamadas breweries se proliferam e recuperam bairros isolados. Os galpões das antigas fábricas que deixaram a cidade são alugados pelos cervejeiros, atraindo turistas e moradores, que além de beber, assim como as fábricas preferem estar perto das linhas de trem.

São Paulo segue pela mesma serpentina. O Plano Diretor de 2014 pela primeira vez autorizou a instalação de cervejarias no perímetro urbano, com algumas variáveis relacionadas ao porte. O efeito é que os produtores, antes obrigados às fábricas compartilhadas, sentam praça. Como mostrou a Heloisa Lupinacci no Paladar Estadão, a Tarantino instalou seu galpão no Limão. Nas Perdizes, a Trilha já produz pequenos lotes, assim como a Dogma em Santa Cecília.

Se a cerveja é mesmo a melhor amiga da cidade, só o futuro dirá. O passado aponta que sim. No tempo em que o platozão da Paulista era um ermo alto no caminho para Pinheiros, a cervejaria Antarctica entregava o parque homônimo na Pompéia, o hospital alemão Oswaldo Cruz no Paraíso, o Bosque da Saúde. Em Buenos Aires há o Parque de la Cerveceria Quilmes. E aqui no Estadão tem mais história, no papo do Edison Veiga com o Diógenes Sousa no blog Paulistices.

Para o presente o que temos é conversa de botequim e um trocadilho: cerveja serve tanto para consolação quanto para inspiração.

 
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Aonde não vamos parar

Crônica publicava no Esquina / Estadão em 14/02/2018

No fundo do coração da cidade de São Paulo pulsa uma biblioteca. Literalmente. Quem passa pelo número 140 da Praça João Mendes, a poucos metros do marco zero instalado em frente à Catedral da Sé, pode não se dar conta, mas ali sob o quase cinquentão Sebo do Messias, estão organizados mais de 300 mil livros, além de revistas, discos e aparelhos de som capazes de reproduzi-los. É o maior sebo do Brasil.

Onde cabe tamanho acervo num sobrado quase todo ocupado por estantes de loja? No subsolo, que já foi uma garagem. Plano, com pé-direito alto, comunicação por rampas entre os pisos e boa ventilação, o local é ideal para a função. E lá também trabalha o pessoal da triagem, com luvas e máscaras, não para se proteger dos gases de outrora, mas da poeira que por vezes se acumula nas coleções de quem decide vender, proporcionando o incomparável aroma dos ácaros.

Recomendo. Não sendo uma raridade, é o melhor destino que se pode dar a uma edição excedente, desde que se compreenda que do preço de venda será subtraído o valor do serviço de organização e preservação. Se a saudade bater, basta voltar lá e resgatá-lo, o mesmo ou outro exemplar. E a sensação de poder compartilhar, além de boa recompensa, nos encaminha para o assunto proposto.

O compartilhamento de automóveis já passou de tendência à realidade. Claro que o fetiche automotivo, marca do século vinte, resiste. É muito forte e ainda vai se demorar na gente. Mas já teve dias melhores. Ou piores. Cada vez mais se ouve comentários: “Lá em casa ficamos com um carro só.” E o melhor: “Meu filho fez dezoito anos e nem pensa em tirar habilitação.”

Aplicativos de carona, táxi, bicicleta, transporte público, pedestrianismo. Caminhamos, com trocadilho, nesse sentido. Cambaleando, mas com avanços.

A General Motors mundial, que planeja um carro elétrico, quiçá autônomo, para ser alugado e não vendido, é a mesma que no Brasil pressiona o Governo Federal pela manutenção de incentivos arcaicos, como o Inovar-Auto, ora batizado, pasme você, Rota 2030.

Os governos, sobretudo os inebriados por cálculos eleitorais, tropicam proporcionalmente. Com um terço da frota municipal em situação irregular, seja por calote no IPVA, licenciamento ou multas, o xodó do prefeito de São Paulo é o programa Asfalto Novo, pacote que inclui vasta publicidade e sai de 100% dos nossos bolsos. Nada obstante aparecer mais na televisão do que na rua, é uma política antiga e excludente, tanto no plano social quanto no financeiro. Enquanto isso, para o terço da população que é exclusivamente pedestre, sobra o Calçada Nova, uma agenda de factoides reservada a pequenos trechos e postagens dominicais nas redes sociais.

O mercado imobiliário mostra números parecidos. Um estudo da Poli-USP de 2012 mostrou a evolução ano a ano da área construída para abrigar carros em São Paulo. Até 1930, as garagens eram raridade. Trinta anos depois, com o aumento dos prédios de apartamentos, saltaram para 13% da área construída. Até atingir, em 2001, a inacreditável marca de um terço de tijolos assentados para guardar carros, não pessoas. Desde então houve uma diminuição e o número oscila em torno de 25% – que ainda é abjeto.

Porém há o lado bom, que se revela em duas facetas. Desde o Plano Diretor de 2014, que incentiva a construção de moradia com uso misto e no máximo uma vaga por unidade, a demanda por lançamentos livres de garagem, que chegam a custar R$ 60 mil a menos, puxa a tendência, e estes já representam 25% das novas unidades. Os números, de 2015, são da consultoria imobiliária Geoimóvel.

Outro ponto positivo é a transformação das garagens. Qual o Sebo do Messias, um velho estacionamento em Pinheiros, na rua Cônego Eugênio Leite, foi transformado em restaurante. É o Futuro Refeitório, instalado em um galpão que teve as características da função anterior mantidas pelo arquiteto Felipe Hess. O amplo vão, com pé direito de galpão, se transformou em um lugar aconchegante, com direito a lareiras, grandes vasos de plantas e sofás em couro. Aberto desde as 8h00 até o último freguês, vem passando os dias com tráfego intenso.

Outro marco da mudança é o Santos Augusta, prédio que nasce como ícone na esquina que lhe empresta o nome. Mantido como estacionamento por longo período, o terreno recebeu investimento de R$ 80 milhões da incorporadora Reud, dos irmãos Tchalian, que fizeram história no setor calçadista e parecem determinados em ver os paulistanos gastando mais as solas dos sapatos. Com projeto do festejado arquiteto Isay Weinfeld, terá o térreo aberto para a rua, oferecendo bar, café e wi-fi grátis, além de teatro com 230 assentos e palco de 450 metros quadrados sob direção do Emílio Kalil, que já dirigiu os municipais de São Paulo e do Rio. Vapores, ali dentro, só os da família Tatini, velha conhecida da cidade pela excelência do serviço em réchauds nos seus restaurantes.

Do outro lado da calçada as garagens também já receberam sugestão de adaptação. Durante a crise hídrica de 2015, Paulo Mendes da Rocha, nosso arquiteto querido, propôs transformar os subsolos do Conjunto Nacional em cisternas. Há alguns anos, no meu blog, anotei que um bom destino para as garagens seria salas de cinema, teatro, música, exposições e conferências nos bairros. No clube onde sou sócio, vira e mexe algum infante reclama um dos pisos de guardar carro para a prática de skate. No setor de transportes, as dificuldades em manter o abastecimento em harmonia com as paróquias aponta para pequenos centros logísticos, destinados à última milha da carga.

As possibilidades são infinitas. E as perguntas também. Passo diante dos shoppings, vejo os anexos destinados a garagens e me pergunto: quanto valeria o metro quadrado corporativo no Iguatemi, no Morumbi, no Eldorado? Como a transformação impactaria a frequência da freguesia, a curto, médio ou longo prazo? Quando aquelas lajes todas serão transformadas? Sim, a pergunta central é quando. Ou aonde não vamos mais parar os carros.

 
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Notas soltas

Surdo

Sobre economia, Jair Bolsonaro disse que deve chegar a 95% no índice de audição ao conselheiro Paulo Guedes. Sabe-se que, dizer, ele diz qualquer coisa. Daí até fazer, há um périplo longo. Conforme o voto do ex-capitão, contrário ao Cadastro Positivo, provou.

Napoleão

Gênio da estratégia militar, Napoleão dizia que nove entre dez preferidos do rei acabam enforcados. Sobre o Cadastro Positivo, onze entre dez neguinhos do “mercado” concordam.

Neologismo

Geraldo Alckmin registrou nas redes sociais que João Doria é candidato ao governo do estado de São Paulo, emendando que sua possível candidatura à Presidência é fake news. Dica ao ex-governador: neste caso você pode substituir fake news por farinata, aproveitando o neologismo cunhado pela Renata Lo Prete.

Aliás

Por quê nos acostumamos a ler “estado” (os entes federativos) grafados com maiúscula? Estado só tem um; estados temos 26.

Justiça Eleitoral 

O PT insiste que tem candidato a Presidente e que seu nome é Lula. Até aí, nada de novo. É assim desde que voltou a possibilidade de alguém ser candidato. Incluindo Dilma um e dois. Lula sempre concorreu.

A diferença é que agora, por causa da lei da ficha limpa (ou capivara positiva) a Justiça Eleitoral tem que dizer se pode. Deve fazer hoje.

Em termos de Justiça, prazo é vida. Tem de ser respeitado. Mas deve haver algum dispositivo que permita a gente zerar a conta dos candidatos a qualquer posto antes das eleições. Não tem cabimento, no ponto em que o país se encontra, irmos às urnas votar em alguém com possibilidade de condenação posta já antes de assumir.

Notadamente para candidatos ao Palácio do Planalto, cujo inquilino, sem aval do Congresso, só pode ser processado por supostos crimes cometidos durante o mandato.

Fulana

Marina Silva disse em sabatina à Folha/UOL/SBT que as conquistas no Brasil acabam fulanizadas, mas deveriam ser institucionalizadas. Para quem perde aliados, às pencas, por personalismo, pode ser uma evolução. Por ora, fica meio “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

Má fama

Encontrei um velho amigo que está em férias compulsórias há dois anos. Perdeu o emprego e não arranjou outro depois de se recusar a participar do esquema de bolas organizado entre colegas de trabalho, fornecedores e executivos das empresas clientes. Tudo na iniciativa privada. Definiu assim a situação: “Pegar fama de honesto no Brasil é fogo.”

 
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Um pacto pela empresa-Estado

A narrativa na vidada do século era o papel das empresas na relação com a sociedade. Assustadas com o levante de Seattle, em 1999, onde ativistas de frentes diversas reuniram dezenas de milhares de pessoas contra o encontro da Organização Mundial do Comércio, as multinacionais resolveram se sacudir e combinar uma agenda comum visando responsabilidade social.

Todo mundo correu para ajudar. A ONU, liderada pelo Kofi Annan, chegou a fazer um site para servir como ágora universal da iniciativa, que reunia perto de cinquenta corporações e bancos multinacionais, federações trabalhistas e outras entidades da sociedade civil. Todos juntos pelo Pacto Global (UN Global Compact).

Resumindo, a ideia era estender à governança corporativa os princípios universais de direitos humanos que regem – ou deveriam reger – os governos no Estado Democrático de Direito. A lógica era óbvia: sendo maiores e mais poderosas que grande parte das nações, as empresas deveriam se comportar como estados, oferecendo transparência e permitindo a participação da sociedade em suas decisões de conselhos deliberativos. Em contrapartida, participariam dos fóruns de chefes de Estado. Bill Clinton rodou o globo com este discurso. Aparentemente a maioria concordava e um circulo virtuoso parecia prestes encontrar seu modelo de movimento.

Calça jeans e renda básica

Daí, em Onze de Setembro de 2001, dois aviões entraram no WTC e mataram milhares de pessoas. Desde então a agenda mundial se voltou contra o terrorismo, deixando o mercado livre para continuar como bem entendesse.

Em 2008 tudo explodiu. A chamada crise dos subprimes quebrou o gigante Lehman Brothers, grife de investimento financeiro desde 1850, causando efeito dominó na economia. As agências de crédito imobiliário tiveram que ser reestatizadas, no maior socorro já prestado pelo governo estadunidense em toda a história. Coisa de US$ 200 bilhões. Na Europa, vários países somados pingaram US$ 1,5 trilhão para manter a economia respirando.

Em 2009, gestores de várias das empresas socorridas já recebiam bônus milionários por “bom desempenho”. Muitos dos países, no entanto, ainda não tiveram alta e seguem respirando por aparelhos ou, com sorte, em austera dieta imposta pelo “mercado”.

O círculo de Gini

Neste momento é maio de 2018. Seria a entrada do Pacto Global na fase adulta. Mas o que temos é pouco ou nada além de ensaios de laboratório. No contexto geral a coisa piorou. A concentração de poder das empresas aumentou muito. Em 2016, das cem instituições que mais arrecadaram, 69 são empresas e 31 são países. Oito pessoas têm o mesmo dinheiro que a metade mais pobre da população mundial. A participação social permanece no plano das relações públicas. E curiosamente, odiado ou, mais grave, ignorado no mundo todo, é o universo político.

Com o avanço das tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos, diminuindo as contribuições sociais e concentrando ainda mais a renda. Assim, o Estado de bem-estar social tende a colapsar. Sem cidadãos não pode haver consumidores, e o colapso atingirá a economia. Por outro lado, o modelo de produção e consumo da China e dos Estados Unidos, ampliado para sete bilhões de pessoas, colapsaria o meio-ambiente.

Por falta de responsabilidade e visão na virada do século, dez anos depois a bolha imobiliária estourou e deu origem a diversas bolhas sociais, com cada um tentando salvar o seu quintal. A apatia política cresce e no que sobra grassa o populismo, sempre flertando com o despotismo.

Um pacto global para valer, envolvendo governos, empresas e sociedade na solução do problema é urgente. Substituir o dilema sobre privatização ou estatização por um modelo universal de empresas-Estado.

 
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Resgatando Harry

Há quase um ano esta página saudava o príncipe Harry por uma entrevista onde ele, contrariando a tradição da realeza, tratava da vida pessoal publicamente. Consciente da epidemia de depressão que se esparrama mundo afora, cumpriu seu papel de membro da elite iluminando as sombras da humanidade, facilitando o caminho para avançarmos.

Hoje o Duque de Sussex se casou com Meghan Markle, jovem senhora americana, descendente de escravos, desquitada e atriz. O reverendo da igreja Episcopal dos Estados Unidos, Michael Bruce Curry, participou das bodas e, na homilia, citou Martin Luther King, ativista assassinado há exatos cinquenta anos: “Precisamos descobrir o poder do amor, o poder redentor do amor e, quando o fizermos, transformaremos este velho mundo em um novo mundo.”

Palpite: o velho mundo e o novo mundo do Luther King, na homilia, servem para o planeta inteiro, não para Europa e América. Curiosidades: King, em inglês, significa rei. Curi, em árabe, significa padre. Shakespeare tinha razão quando botou na boca do príncipe da Dinamarca a máxima “há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a sua filosofia”, notadamente neste período onde o racismo influencia vontades políticas pelos quatro cantos.

+ Bansky revelado e Harry, o grande

Colosso a elite ilhoa. Para não ser diferente da plebe, a mulherada também causou. A avó do Harry foi de verde e roxo, combinação atrevida, elogiada exclusivamente por minha comadre Renata Lima, bacharel em moda num curso lado de lá do Canal da Mancha. E a cunhada da Meg, Kate, repetiu o vestido que já usara num batizado e numa festa de aniversário, exatamente como propõe minha Neguinha na Circulando8. Estão de parabéns.

Para encerrar, naquela crônica que elogiei Henrique, falei também do Bansky delatado. Era algo que envolvia grafite e cracolândia. Um ano depois, aqui em São Paulo, confirmando as expectativas, tudo piorou. As passarelas de grafite do João Doria foram abandonadas há meses, e na cracolândia passaram a cobrar multa de doente dependente químico – isso numa cidade onde sequer o IPTU das pessoas mais bem tratadas é cobrado com justiça. Nossa sina é viver à base de de farinata.

 
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Fiasco da privatização em Nova York

Conforme previsto, investidor nenhum confia em botar dinheiro nas privatizações propostas na cidade de São Paulo. A razão principal, antecipada aqui através do infalível método que junta lé com cré, é insegurança política e jurídica.

Como mostra a reportagem do Silas Martí para a Folha de São Paulo, a apresentação do plano de privatizações para a plateia do Council of The Americas, um centro de estudos prestigiado em Manhattan, foi um fiasco retumbante.

Talvez orientado pelo ex-prefeito João Doria, presente no evento, e que nos seus, organizados pelo grupo Lide, costuma tanger plateias de executivos com um apito, Bruno Covas atacou de animador de festa infantil e pediu que levantasse a mão quem pretendia arrematar propriedades ou disputar concessões em São Paulo. Ninguém se mexeu.

+ Doria X Doria

A reportagem destaca que o grande temor dos investidores nasce da breve passagem de João Doria pela prefeitura. Imagine a confiança de quem há um ano viu um prefeito novo desfilar ideias pelos salões nova-iorquinos e, pouco tempo depois, reaparecer com outro em seu lugar. No mínimo o sujeito calcula: dentro de três anos deve ser outro.

Pior: a gestão atual afirma, sem pudor, que abandonou o Plano Diretor, firmado depois de longo processo e que deveria durar quatorze anos. Uma cidade onde um prefeito pode fazer algo assim dificilmente vai arranjar alguém interessado se arriscar numa concessão para durar trinta anos.

É o que retrata o comentário de uma mulher presente na plateia, que se afirmava dona de vasta lista de contatos no Oriente Médio, um dos primeiros destinos atacados por Doria: “ninguém confia num país que muda as regras todos os dias.”

+ Desencontro

No museu de Arte Moderna de Nova York um arquiteto brasileiro é celebrado com a exposição de croquis originais de seus projetos e também com um exemplar da cadeira Paulistano. Chama-se Paulo Mendes da Rocha e foi contratado pela gestão Fernando Haddad para o plano de intervenção no Parque do Ibirapuera. Seria o grande encontro dos nossos dois arquitetos mais premiados: Paulo e Oscar Niemeyer, autor do projeto do parque.

A própria gestão Haddad descontinuou o projeto e a atual afirma que não sabe do que se trata – apesar de ter no próprio site o histórico da intenção.

Resumindo, Paulo Mendes da Rocha propôs fazer o que todas as cidades do mundo – Nova York incluída – buscam: estimular o transporte coletivo e ampliar a área dos parques eliminando estacionamentos.

De novo, ligando os infalíveis amigos lé e cré, só posso supor que a concessão do Ibirapuera é, acima de tudo, a concessão de um estacionamento. Acelera à ré.

Não é só Michel Temer que nos faz voltar vinte anos em dois.

 
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