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Vendo vista para o futuro

“A população tem direito também ao nível de conforto adequado, a ter elevadores e habitações maiores. Com isso você tem estruturas melhores, também com lazer, área de esporte e também, área de trabalho, com pequenas lojas, exatamente como é o Casa Paulista.” Palavras do João Doria.

Por falar em Casa Paulista, lembro do Paulo Mendes da Rocha falando sobre a avenida homônima (aqui aos três minutos). Para ele, com a democratização do elevador – e transporte público, esgoto, energia, verticalização -, o conceito de moradia mudou, porque podemos empilhar as casas.

Então não faz sentido continuar pensando o lote sob o conceito da casa térrea, ou dos sobrados, com recuo, jardins e quintais que ninguém usa. Você pensa o coletivo e cria espaços de convivência agradáveis, com moradia, trabalho, lazer, comércio e serviço reunidos, como é o Conjunto Nacional.

Nos demais lotes ao longo da via, que foram pensados sobre os terrenos dos antigos casarões, há um desperdício absurdo de espaço, inclusive em prédios contemporâneos, com gradis que separam os jardins das pessoas.

E por que o Conjunto Nacional teve essa sorte? Porque foi empreendido sobre uma quadra inteira, enquanto seus vizinhos ficaram condenados aos retalhos. A discrepância urbanística causada pela arquitetura possível a cada projeto é brutal.

De qualquer maneira é precioso ver que sem esforço encontramos convergência de conceito entre o Prefeito e o arquiteto. Gostaria de festejar desde já, mas ando meio São Tomé e quero ver concreto.

Especialmente no imenso lote que a prefeitura e o governo do estado têm em conjunto na Marginal Pinheiros. Cem mil metros quadrados que devem ser pensados em também em conjunto, não em retalhos.

Vizinho do metrô, com estação de trem e terminal de ônibus ao lado, parque Villa-Lobos alcançável à pé, vista para o rio, para o arvoredo do Alto de Pinheiros e do Butantã, para a colina da Vila Madalena. Lá do alto é lindo. Já almocei um franguinho atropelado na cobertura da Editora Abril e contemplei a vista.

Com 300 mil habitantes e 700 mil trabalhadores que vêm diariamente de longe ou muito longe, Pinheiros merece um projeto de habitação popular nos moldes apresentados pelo prefeito no primeiro parágrafo.

Estou sonhando? Não. O mais caro, que é o terreno, é nosso (público). Infraestrutura há em profusão, só falta gente para usar. E o dinheiro? Tem também. A Operação Urbana da Faria Lima tem R$ 500 milhões em créditos dos quais ¼ ou R$ 125 milhões são carimbados para HIS (Habitação de Interesse da Sociedade – obrigado, professor Caldana) que devem ser investidos em seu perímetro.

Ali na Berrini com a Roberto Marinho, tem uns dez dias, o prefeito entregou a segunda fase do Jardim Edite. Menos de dez milhões de reais, sendo parte da Operação Urbana Água Espraiada, foram suficientes para entregar teto a quase setenta famílias.

Vamos pensar a solução de moradia para Pinheiros coletivamente. Tomar o elevador e trabalhar do alto, com vista para o futuro da cidade.

 
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Presença concreta – um ano sem Pedro Paulo de Melo Saraiva

Há um ano o nosso querido Pedro Paulo de Melo Saraiva embarcava para o cruzeiro definitivo. Alguns dias depois, seu filho Pedro me chama para dizer algumas palavras na missa de sétimo dia. Lisonja tremenda. Respirei fundo, anotei e encarei.

As linhas estão abaixo e na íntegra. Para falar na igreja tive que suprimir a forma como ele tratava os amigos.

Valeu, Papito! Comentei agora com o Pedro como você permaneceu com a gente nesse ano que passou. Sua presença, com o perdão do trocadilho, é concreta.

Tenho uma teoria particular que manda a gente não se tornar amigo dos nossos ídolos. É a equação expectativa x realidade.

Mas a vida reserva presentes e um dos que ganhei foi descobrir a amizade do Papito antes de saber tudo o que ele significava.

A poucas quadras daqui, onde a Cidade Jardim começa, havia o Pandoro, e um dia fui lá encontrar os amigos e à mesa estava o Papito. Conversa vai, uísque vem, e dia após dia fui me encontrando completamente seduzido por aquela figura elegante, que igual a tudo o que é de fato elegante a gente não percebe no ato, só depois.

Fomos descobrindo afinidades. O mar, o litoral norte, mangueiras enxertadas, coquinho, espada… Echarpes nunca lavadas. Algo simplesmente genial como dois ferrinhos torcidos que caídos de qualquer maneira ao chão param um automóvel. O desgosto com casinhas nas saídas do Metro. Ele dizia: “Se a escada termina na rua, no primeiro degrau já é a rua”. 

Na varanda do Ilha das Flores a gente olhava a praça em frente, com os carros clássicos estacionados. Comentei que, por mim, seriam só árvores e um buraco para o Metrô. E ele: “Você quer viver em Paris, não é, demônio?”

Um dia, ou noite, falando sobre arquitetura, ele citava com naturalidade os colegas mais conhecidos dos leigos como eu: “O Oscar é foda , o Paulinho é craque”. Aquilo me intrigou e fui estudar o Papito. Descobri que era fã dele.

Então era tarde. A amizade já estava completamente revelada. Me restou reconhecer o privilégio que era para um moleque como eu poder ser amigo de uma figura tão vasta. 

No dia dos pais o Pedro publicou uma foto deles dizendo que superariam mais essa. Enviei mensagem perguntando o que havia e soube que o Papito estava internado.

Na segunda-feira fui ao Santa Catarina fazer uma visita. Levei uma seleta de contos do Scott Fitzgerald – que por sinal comprei na Ilhabela – para deixar fazendo companhia durante a internação. Tudo no Scott Fitzgerald me lembrava o Papito. O homem, a obra. Mas nesse livro notadamente há uma história em que ele se materializa já no título: Love At Night. Um príncipe Russo exilado, uma Princesinha Americana, iates, a Riviera Francesa. E também por conta da viagem que ele, o Paulo Mendes da Rocha e o Fabio Penteado fizeram à Rússia e terminaram na costa da Itália. A foto dos três está na abertura do livro que ele autografou com o Museu da Casa Brasileira repleto de amigos outro dia.

É claro que a gente vai sentir muita falta do Papito. Mas a receita que tem me ajudado nesta última semana e que eu ouso compartilhar com vocês é pensar na vida extraordinária que ele teve. Vida invejável.

A dor da falta será imensa, mas nada perto do privilégio de ter convivido com o Pedro Paulo de Melo Saraiva e poder lembrar dele.

 
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Pula que a água está quente

Um governo de centro-direita teve uma ideia para enfrentar o problema do desemprego e dos altos custos da burocracia estatal, notadamente a fiscalização dos programas de bem-estar social. Como era a proposta era polêmica, optaram por começar testando com um pequeno extrato da população.

Ato contínuo, a economista-chefe da central única dos sindicatos de trabalhadores, que com um milhão de filiados, o equivalente a metade da população do país –  se posicionou contrariada. Afirmou que a proposta ia na contramão das políticas sociais e que, sendo absurdamente caro, o programa elevaria o déficit do Estado em relação ao PIB.

A ideia do governo – centro-direitista, você se lembra, freguesa – foi transferir para as contas de duas mil pessoas, incondicionalmente, 560 euros, mais ou menos R$ 2.100,00. Incondicionalmente significa que para ter o benefício o cidadão não precisa ser pobre, estar procurando emprego, ou oferecer qualquer contrapartida, como acontece com os programas de transferência de renda antigos em vigor, como o Bolsa Família.

Começou em janeiro e os efeitos são os seguintes: menos estressados com a grana curta, os contemplados passaram a tomar decisões melhores, se dedicaram ao que sabem fazer – e fizeram bem.

Juha Jarvinem, artista, empreendedor e pai jovem que participa do laboratório, falou à Economist: “É muito louco. Com os programas antigos eu evitava trabalhar por medo de perder o benefício. Era a ‘armadilha do desemprego. Agora, não. Tenho ideias melhores, planos de negócios e voltei a progredir. Além do que, não preciso mais parar o que estou fazendo para ficar prestando contas ao governo.”

Curiosamente, quem não gostou da notícia e reclamou à Bloomberg foi a economista-chefe da CUT da Finlândia – palco do experimento –, Ilkka Kaurokanta.

O Brasil é mesmo abençoado. Aqui da CUT à FIESP, todos concordam com a Renda Básica Universal. Está no livro do Suplicy.

Universal, diga-se, tem a ver com o sentido incondicional da ideia. Todos recebem, sem distinção. Este é o ponto essencial da ideia, defendido por outro governo, o da primeira-ministra Kathleen Wynne, de Ontario, no Canadá. Encontrei aspas dela e um link na reportagem publicada pelo Independent: “Distribuição de renda incondicional economiza dinheiro público diminuindo a burocracia tradicional dos programas de bem-estar social.”

Ela tem o olhar no futuro e acredita que as economias devem se fortalecer para enfrentar os novos desafios do mercado de trabalho, cada vez mais dinâmico.

Voltando ao Velho Mundo, na Inglaterra o Think Tank da Real Sociedade para incentivo de Artes, Artesanato e Comércio propõe oferecer trezentas libras esterlinas (R$ 1.200) a todo cidadão que tenha entre 25 e 65 anos de idade como estímulo para criação e produção.

Uma piada antiga recomendava que, vendo um milionário pulando da ponte, melhor seria pular junto, porque provavelmente ele estaria se dando bem. Hoje bilionários como Mark Zuckerberg, do Facebook, e Peter Diamandis, mecenas do fim da morte morrida, falam publicamente na adoção da Renda Básica Universal. Avante! Pula que a água está quente.

 
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Um 8×2 onde todos ganham

Foi um time excepcional. Alemão no gol, Armando Camargo, Esquerdinha, Mulata. Todos craques históricos e muito queridos até hoje no Esporte Clube Pinheiros. A foto da seleção está no bar da pizzaria Margherita, do Esquerdinha, ali na Tietê com a Haddock Lobo, casa onde viveu o presidente Washington Luiz.

Combinaram um rachão no ECP contra um time de várzea. Queriam integração, sociabilidade, coisas que o futebol, em que pese as maracutaias dos cartolas, as brigas de torcidas organizadas, pode proporcionar como poucas outras atividades.

Ansiosos e animados, cada um dos craques convidou a família, os amigos. O horário não era nada favorável: manhã de domingo. Mas para ver o time, a pena valia. Quem garante é o narrador original da história, o Julinho Toledo Piza.

O contraste entre as equipes saltava aos olhos das arquibancadas. No uniforme novo em folha do Pinheiros o preto reluzia tanto quando o azul e branco. Chuteiras novas, meiões. Indumentária de clássico.

A equipe da várzea não contava com o mesmo equipamento. Chegaram montados na caçamba fumegante do caminhão de um dos atletas, que era feirante. Uma ou outra meia furada, uniformes paradoxais, sem unidade na forma.

Mas o que valia era a partida. Futebol vale até com bola de meia e com camisa versus sem camisa.

Foi um jogasso. Quem assistiu não se esquece. Final: 8×2. Para a várzea.

Na saída para a cervejada o Julinho ouviu o goleiro adversário celebrando com o centroavante: “Comeu a bola, hem, Tonho?. E o Tonho: “Pepeu, imagina se nóis dorme de ontem pra hoje…”

Estou com esse caso na cabeça desde que a polêmica sobre cotas voltou com o anúncio da USP. Nas universidades americanas, onde o esporte é venerado, seja lá qual for a modalidade ela é um dos principais fatores de integração social. Quem assistir Invictus, do Clint Eastwood, verá que o Nelson Mandela, na África do Sul, conseguiu com o rugby arrefecer o preconceito social.

Sim, o final de semana em Charlottesville, no estado da Virgínia, foi de amargar. Mas imagina o nível da tensão racial se não houvesse nos Estados Unidos Muhammad Ali, Michael Jordan, Tiger Woods, Serena e Venus Williams, Magic Johnson, Jackie Robinson, Mike Tyson. Teria o Barack Obama sido presidente? Ou antes, teria ele ido à Columbia, se formado e inspirado tanta gente no mundo?

No Brasil, onde o preconceito é diferente do americano, dada a nossa miscigenação, fiquei receoso que as cotas raciais pudessem despertar uma divisão que é antes social e econômica do que racial – ainda que a origem seja a mesma.

Hoje, vendo os efeitos dos programas de cotas, tenho certeza que seria um risco necessário para rever tantos anos de desigualdade.

Primeiro os índices de desempenho dos estudantes que entram para a universidade pelas cotas. Depois porque salvo uma ou outra manifestação contrária, incluindo as discriminatórias, o saldo é positivo. E acima de tudo, porque evidentemente a sociedade só melhora quando se mistura. Perto do que avançamos, qualquer 8×2 é vitória de todos.

 
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Bilhete Único e Blockchain: oportunidade para São Paulo?

De parte a parte, sobra confusão quando o tema é privatização. Começa pelos diversos modelos, concessão, PPP, companhias de economia mista, e segue até as variações de nomes adotados, como o mais recente plano de desestatização da Prefeitura de São Paulo.

Pode ser um avanço, porque mostra que não necessariamente algum serviço venha a ser privado quando sai debaixo do guarda-chuvas do Estado.

Por exemplo a concessão da administração dos dados do Bilhete Único em São Paulo, parte do plano de desestatização que, somado às restrições ao passe estudantil, motivou a ocupação do plenário da Câmara Municipal por um grupo que também confunde o Parlamento, a Casa do Povo, com a casa de alguns. Vá lá que alguns (muitos) vereadores façam o mesmo. Mas é a Democracia e se quisermos melhorar o acabamento, é pelo voto e pela participação. Avante.

Sabe bem esta freguesia que o maior ativo econômico no mundo hoje é a informação ou, antes, a capacidade de processar dados e produzir mapas exatos.

A cidade de São Paulo acumula um volume imenso de dados gerados diariamente pelo uso do Bilhete Único. Mas talvez não alcance toda a capacidade de processamento desses dados, que podem e devem ser transformados em mapas capazes de melhorar a mobilidade, os contratos de licitação do transporte público, o zoneamento comercial baseado no fluxo de milhões de pessoas. As possibilidades são infinitas, assim como as perguntas sobre a melhor maneira de administra-las.

E eis que surge uma proposta nova, democrática, lógica, inovadora: Blockchain, cadastro universal de dados com administração coletiva. Parece boa primeiro pela segurança que proporciona: democraticamente espalhados e administrados, e individualmente controlados, os dados acumulados estarão melhor protegidos em caso de falha, fraude, pane, desastre, guerra. É a lógica dos ovos, que nunca devem ficar na mesma cesta.

Mais distante, há o estudo do economista italiano Michele Boldrin, professor do departamento de Economia da Universidade de Washington. Ele notou que a velocidade contemporânea da inovação destrói postos de trabalho de maneira que a educação não consegue acompanhar, criando certo monopólio intelectual, que no plano do conhecimento é um fenômeno comparado à absurda concentração de renda no campo financeiro. E a Blockchain, que começou no âmbito da Bitcoin, mostra que pode ser um caminho inverso justamente pelo interesse que desperta em cada vez mais setores. Leia entrevista no El País.

O valor estratégico de um banco de dados como o do Bilhete Único é imensurável. Muda a cada dia, a cada inovação. Daí a dificuldade de estabelecer um preço justo para a cidade que vende e para a empresa que compra. Por outro lado, se a gente somar à conta o significado político de uma cidade, que é convivência e troca de conhecimento, e que é em si a maior obra humana, usar uma oportunidade como a do Bilhete Único para experimentar o Blockchain na maior cidade do hemisfério sul me parece fantástica.

 
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Desengarrafando com Robin Hood

O prefeito de Nova York vem fazendo o que se espera de todo nova-iorquino. É próprio deles resistirem a mandos de cima pra baixo.

Quando a Coroa inglesa percebeu que a independência da colônia seria inevitável, tratou de plantar o futuro. Escalou os melhores professores para fazer Harvard, em Cambridge. Se perderiam o controle político, manteriam o cultural, formando a elite americana sintonizada com seus valores.

A resposta da Maçãzona veio à altura. Juntou dinheiro com a sociedade civil – que em toda cidade portuária é aquela zona espetacular, onde padres e putas convivem em harmonia – e fez Columbia, buscando sábios no mundo inteiro.

Palpite: o nome original, King’s College, era um chiste. Ou drible. Tanto faz. É palpite meu. Assim como boa parte dos dois parágrafos acima.

Voltando ao parágrafo primeiro, Bill de Blasio acolhe imigrantes peitando o tarado da Casa Branca. O mundo todo aplaude. Há vaias, claro, sempre bem-vindas com sua força fertilizante.

A última notícia que vem de lá é que o prefeito pretende cobrar dos mais ricos um tributo extra para dar uma garibada no metrô. O princípio é bom. Aqui em São Paulo eu começava taxando os helicópteros nas alturas.

Mas tem um modelo melhor, que inclusive une americanos e ingleses. Quem conta é o Leão Serva, na Folha.

A proposta Robin Hood do prefeito de Nova York, em Londres, aconteceu através do pedágio urbano, que consiste em cobrar de quem quiser usar transporte individual (carros elétricos e de pessoas com deficiência liberados), revertendo toda a arrecadação para o investimento em transporte coletivo. Em números ficou assim: 41% das famílias não tem carro e 45% das pessoas usam transporte coletivo. O trânsito melhorou e prefeito vai, prefeito vem, a regra não muda. E notem que começou com um trabalhista radical, passou por um tory fundamental e permaneceu quando os trabalhistas voltaram, inclusive com o prefeito fotografado no primeiro dia de trabalho esperando o ônibus no ponto.

Fica a dica, Johnny. Digo, Bill.

 
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Habemus PIU

Até que enfim a Prefeitura falou em PIU (Projeto de Intervenção Urbana) para a proposta de permuta entre o Parque Augusta e a área da regional de Pinheiros/CET, na rua do Sumidouro.

Segundo o Estadão, em reportagem de 04 de Agosto, o secretário municipal de Justiça afirmou que “Toda essa tratativa será levada para a Câmara, que fará um amplo debate sobre o tema”. E ainda: “A Prefeitura deverá enviar o PIU nos próximos dias”. É de se comemorar. Porém, nota-se pelo menos duas desatenções por parte da Nova Gestão.

A primeira é de concordância: se a permuta envolve duas áreas, são os PIUs, no plural. Um sobre intervenções urbanas no entorno do Parque Augusta; outro para a área e arredores do terreno da rua do Sumidouro.

A segunda é sobre o prazo. Ainda que incontestavelmente acelerada, a Nova Gestão, notadamente a pasta da Justiça, não pode suprimir o calendário legal, que no caso do PIU prevê, seja por meio de iniciativa pública ou por Manifestação de Interesse Privado, no mínimo as seguintes etapas em seu plano de elaboração: “diagnóstico da área objeto da intervenção, com caracterização dos seus aspectos sócio territoriais e ambientais; programa de interesse público da futura intervenção, considerando sua diretriz urbanística, a viabilidade da transformação, o impacto ambiental ou de vizinhança esperado, a possibilidade de adensamento construtivo e populacional para a área e o modo de gestão democrática da intervenção proposta”; e ainda, “divulgação para consulta pública, por pelo menos 20 dias”.

Logo, considerando que tanto a cidade quanto o prefeito João Doria têm pressa, convém evitar o atropelo da Lei, que só faz atrasar o desenvolvimento da cidade.

Carta publicada no Forum dos Leitores do Estadão

 
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Meio e fim

“As mulheres precisam estar mesmo peladas para entrar na coleção do Metropolitan?” A pergunta estampou um outdoor em Nova York, em 1989, junto dos dados: só 5% dos artistas naquele museu eram mulheres, e 85% das personagens femininas eram retratadas nuas. O outdoor se tornou obra ícone das artistas do Guerrilla Girls, grupo que defende a presença de mais mulheres nas artes há três décadas — e sempre incógnitas, os rostos escondidos sob máscaras de gorila. Em setembro, a obra das artistas ganha retrospectiva no Masp. “Vamos invadir o Brasil para lutar contra os homens velhos, brancos e raivosos”, disse uma delas, sob o pseudônimo Frida, à Folha.

Em tempo: os números do Masp hoje não são lá muito melhores que aqueles do Metropolitan de 1989. No museu paulistano, relata a Folha, só 6% dos trabalhos foram feitos por mulheres, e 68% das retratadas estão nuas.

Falando em feminismo… A atriz Fernanda Torres, que volta aos palcos nesta sexta, no Rio, com A Casa dos Budas Ditosos, dedicou ao tema boa parte de sua entrevista ao Globo. Um trecho: “Sinto uma profunda diferença no modo como as coisas são vistas. Nos anos 1970, uma mulher posar nua era sinal de que era dona do próprio corpo, liberta, mas hoje é corroborar com uma indústria machista. A questão sobre o que é liberdade mudou”. 

A fonte é o Meio, boletim noticioso gratuito que chega diariamente por e-mail, caprichado e comprometido, tanto com os fatos quanto com a velocidade da leitura: em oito minutos aborda política, cultura, economia, variedades. Artigo precioso em tempos de fakenews e relógio aflito, é perfeito para o café da manhã – se o Napoleão tinha quinze minutos para almoçar, você deve ter oito para o desjejum. Cadastre-se.

Trouxe aqui três notas de hoje porque acho que a gente precisa mais de Fernanda Torres e João Ubaldo – eterno, do que de Guerrilla Girls. Incrível um coletivo já balzaco continuar com esse nome e, sobretudo, com essa postura infantil. Lutar contra “Homens velhos, brancos e raivosos”? Já descontando o fato de termos exemplos inúmeros de negros esgravagistas, gays homofóbicos, judeus nazistas e mulheres machistas, não seria o caso de juntar a turma e olhar pra frente?

 
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Doria e o ovo de Colombo

João Doria ganhou flores na Avenida Paulista. “São do PT!” João Doria levou ovada em Salvador: “É do PT!” Será que, para ele, alguma coisa no Brasil não é obra do petismo?

A estratégia é clara. Mas antes dela, quero deixar claro, mais uma vez, que repudio qualquer agressão física. O Nelson Rodrigues dizia que um tapa já é a guerra, porque tem áudio. Estou na mesma linha. E para mim nem precisa do tapa. Só o áudio já me agride. Prefiro ofensas faladas a elogios gritados. O cuspe asqueroso do Zé de Abreu, a covardia contra o Mantega no hospital (dupla, porque o covarde  retirou o que disse em juízo), a ovada no João: atitudes abjetas.

Não fosse a assepsia própria do prefeito, eu diria que o ovo era de galinha paulistana e viajou a Salvador num farnel do comitê da pré-campanha – sete estados em um mês não tem outro nome. Com a cidade de São Paulo imersa em problemas gravíssimos, rosetar pelo país desse jeito não se justifica. Com efeito, gera sensação de abandono. Para desviar a atenção do que interessa, a solução colombina: um ovo.

Cristóvão Colombo, depois de descobrir a América, voltou à Europa e todos queriam saber como ele foi capaz da proeza. Num banquete, pediu ovos para explicar, e desafiou os comensais a colocar um ovo fresco de pé. Ninguém conseguiu. Então ele apanhou um ovo, achatou a extremidade inferior quebrando a casca de leve e vualá: ovo de pé.

O anfitrião, Cardeal Mendoza, desaprovou a manha. Disse que desse jeito qualquer um seria capaz. Colombo concordou e expos a audácia: “para viajar à América era só navegar, porém a ideia me ocorreu antes; agora qualquer um pode ir”.

João Doria singra a mesma linha. Sabe que sua chance de chegar ao Planalto tem um único e exclusivo caminho: a polarização com Lula. (Qualquer um poderia, até aquele deputado.) Declarou, inclusive, que não quer Lula preso. Prefere que ele seja candidato. Os motivos são principalmente dois:

João inflama os revoltados de um lado e, do outro, rouba votos do próprio Lula com o apelo da picanha, da mobilidade social, como já falei aqui e depois fui confirmado pela pesquisa da fundação Perseu Abramo, do PT;

Sem Lula no pleito a disputa se pulveriza, os perdigotos diminuem e uma agenda nacional factível ganha ouvidos – daqueles ouvidos que não costumam gostar de berros.

 
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O ostensivo cheiro da operação abafa

O Presidento falou ao Estadão. E o seu indicado para o BNDES falou ao Globo. Junto os dois porque vejo relação entre as falas.

Em entrevista exclusiva ao Estadão o Presidento afirmou sobre as mudanças na PGR, PF e STF, que elas “darão rumo correto à Lava Jato”. Vindo dele, Temer, carne e unha com Jucá, que falou em “estancar a sangria”, é natural que qualquer interpretação seja de, no mínimo, receio.

Ao Globo, Paulo Rabelo de Castro, o novo velho presidente do BNDES, passou a elogiar os joesleys, sobre quem prometeu, no Canal Livre, logo que assumiu, “tirar a champanhe de quem está em Nova York rindo da nossa cara”.

No primeiro dia do mês que vem haverá Assembleia Geral Extraordinária na JBS, e a permanência ou não do berrante nas mãos da família Batista está na pauta. O BNDES, que tem um quinto das ações. Vota e estará lá. E a mais recente opinião do seu presidente a respeito dos controladores vem numa metáfora futebolística, própria de quem é candidato a presidente da República:  “vamos dizer assim, é um jogador que fez gols. Independente dos malfeitos no campo político, no campo econômico, e isso é preciso deixar bem separado, o progresso que eles trouxeram pro campo brasileiro, mesmo com essa concentração que eu considero excessiva, deve ser reconhecido.”

Qual conclusão podemos tirar? Talvez naquele gravador vagabundo que o Joesley levou ao Jaburu tenha mais coisa. Por outro lado, o BNDES pode quebrar os Batista fazendo cumprir as cláusulas de conformidade expressas nos contratos de empréstimo e participação societária. E ainda tem a nova procuradora geral da República entrando, com o poder de melar a delação do Joesley e manda-lo direto para o confinamento, porque ele mentiu sobre as contas de Lula e Dilma na Suíça. E a regra é clara, Arnaldo: na delação, uma mentira basta para anular a taça, digo, o prêmio.

Não precisa ser ministro do STF para sentir o cheiro ostensivo da “operação abafa“. Cheiro de carne carbonizada. Carne do nosso lombo, claro.

 
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