Seremos ricos como nunca antes

O presente é amargurante, desesperador. O futuro imediato será tétrico, deprimente. Mas a tempestade há de passar, a primavera vai chegar, e o mundo que restará para ser vivido pode ser combinado. As notícias que temos para já apontam um porvir longínquo e alvissareiro.

Posso estar otimista demais. Mas igual ao ficar em casa se possível é questão de sobrevivência, física e psicológica, respectivamente. (100% de isolamento não teremos. Então meu muito obrigado às turmas da saúde, da ciência, abastecimento, distribuição, mobilidade, garis, policiais, bombeiros, porteiros, governantes responsáveis.)

Minha esperança vem de uma constatação: o covid-19 causa uma doença aguda, potente, avassaladora, que não pode nem deve ser medida pela necrocontabilidade da proporção de mortes em relação a outros males. Estes são muitos, crônicos, a começar pelos problemas causados pela desigualdade social perversa e pelo descaso também perverso com o meio-ambiente.

A miséria é o que há de mais caro no mundo. Nada custa mais dinheiro do que a pobreza. E destruir recursos naturais não é o caminho para combate-la. Insisto: o modelo econômico de produção e consumo desenfreados que fazem dos EUA, China e Japão grandes potências, se escalado de 1,7 bi de pessoas para sete bilhões, explodiria o mundo.

É triste que tenha que ter sido assim, na marra, por causa de um vírus. Mas é o fato, irrefutável, e teremos que lidar com ele.

A parte alvissareira é que as respostas na sociedade, parte das empresas e dos governos minimamente esclarecidos – exceções talvez sejam os presidentes do Brasil e do México, tidos como “de direita” e “de esquerda” respectivamente – vão no melhor sentido.

Ontem a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade um pacote de renda básica emergencial por três meses. Ampliou à realidade a proposta do governo que era de R$ 200. As transferências serão de R$ 600 a R$ 1.200 para proteger as pessoas mais vulneráveis.

Importante registrar os parabéns pela luta antiga da Rede Brasileira da Renda Básica, presidida pelo Leandro Ferreira e vice-presidida pela Tati Roque, que esteve nos últimos dias à frente da campanha deflagrada pelo debate que a Mônica De Bolle colocou. A RBRB tem como presidente de honra o sempre senador Eduardo Suplicy, que dedicou a vida ao tema. A canção que hoje me embala é Eduardo e Mônica. E quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?

Os efeitos depressivos do covid-19 na economia estão postos e são inexoráveis, aqui e alhures. Marginais também são, dado que o importante é a vida e sem ela a economia perde a razão de ser.

Pode ser a maior crise econômica de todos os tempos, dividindo o pódio com a quebra da Bolsa de NY em 1929 e a crise dos derivativos em 2008. Uma e outra tiveram respostas governamentais diferentes. A primeira foi pelo New Deal, botando dinheiro nas mãos das pessoas. Alicerçou a economia, que quando foi retomada no macro encontrou bases sólidas. Não fosse assim, o mundo provavelmente teria acabado na Segunda Guerra, sem saúde para se reabilitar. Tão sólidos foram seus efeitos que chegou até quase o fim do século. Tão sólido que permitiu a aventura neoliberal das últimas décadas.

Em 2008 quem mandava era o mercado e o socorro dos governos foi para bancos,  montadoras, firmas imobiliárias, grande capital enfim. Os principais culpados se salvaram e já no ano fiscal seguinte distribuíam bônus e dividendos gordos. Custou caríssimo. A desigualdade galopou, a miséria se esparramou, o 1% vertiginoso e despudorado ficou flagrante. Há alguns anos tentamos pagar a conta, queimando até a democracia e o combinado histórico sobre direitos humanos.

Agora temos uma oportunidade única. A pandemia tornou imperiosa a solidariedade, que vem de solidez, da noção de quem é impossível ser feliz sozinho. Quando for possível voltar às ruas, duvido que tenhamos estomago para passar por alguém com frio depois de gastar quinze minutos combinando o casaco com a calça.

Sem querer abusar de vossa quarentena, freguesa, só mais um parágrafo para conclusão, porque é necessário atar meus palpites confusos por tanta alegria e esperança neste 27 de março.

A imensa riqueza produzida pelo mundo no século 20 foi possível graças ao New Deal do Franklin Dellano Roosevelt, ora redesenhado quase no mundo inteiro. Precisamos mais do que nunca aproveitar o baque e o retiro para pensar o que vamos querer quando a pandemia passar. É nossa oportunidade para sermos ricos pra valer, ricos no que importa, e fundamental para ser rico e viver em paz é saber que ninguém, absolutamente ninguém passa por necessidades básicas.

Na tranca e no tranco

O coronavírus mata. Aparentemente isso vai ficando claro inclusive para os negacionistas de tudo. Vide o homem que fala do gabinete mais poderoso do mundo, Donald Trump, que num espirro correu do “não estou preocupado, relaxem, vai passar”, à admissão da “pandemia que pode durar meses” e adoção da renda básica universal para todos os americanos.

Quer dizer, além de pessoas, o cononavírus mata a mentira, a desfaçatez, enquadra a irresponsabilidade. É um horror. Não precisava ser assim. Porém, igual a tudo na vida, o bem e o mal andam de mãos dadas. É a história da humanidade.

Com as crenças e religiões foi assim, da empatia às mais diversas cruzadas, passando pelo controle social. Com a ciência foi assim, desde a pólvora até a internet, passando pela tecnologia nuclear. Com a biologia diferente não seria. Tampouco com a economia.

O mundo está apavorado com o coronavírus, que espalha dor, sofrimento e morte pelo mundo. E também nos presenteia com imagens emocionantes de reconhecimento e solidariedade. Entre um meme e uma notícia, vamos do pranto às gargalhadas.

Vejo amigos empresários tendo que decidir entre seguir em frente ou baixar as portas. Escolha de Sofia. Pode parecer óbvia a decisão entre o desemprego e a vida. Mas e quando o primeiro também significa a morte? Soltamos as mãos uns dos outros ou assumimos o risco juntos? Eu não queria estar na pele de quem tem que decidir.

Alguns desses amigos empresários passaram os últimos tempos amaldiçoando a Política, assim mesmo, com P maiúsculo. Pois guardadas as proporções, faz parte do cotidiano dos políticos tomar decisões assim, escolher prioridades. Haverá reconhecimento a quem se doa à vida pública? (sim, canalha tem em tudo quanto é canto.)

Outros tantos, não raro os mesmos, falaram muito contra o Estado. Tinha que diminuir, tinha que acabar. E o que fazer agora que ele e só ele pode nos salvar? Ciência e tecnologia, rede de proteção e controle social, distribuição de renda, Justiça, quem mais poderia fazer? Alguns setores, exata e literalmente como quem está se afogando, desistiram da mão invisível do mercado para agarrar a mão forte do Estado. Pergunto: por que não ambas?

Entre as pessoas físicas é igual. Que fazer sobre empregados domésticos? Manter o salário sem trabalho e menor risco de contágio; peitar o risco mútuo, ainda que desigual de contaminação, continuando como antes; ou o famigerado lessefér, também conhecido como “cada cachorro que lamba a sua caceta”?

O novo coronavírus, ou vírus coroado, faz parecer que a questão é nova. Mentira! Mil vezes mentira. A gente é que fingia não enxerga-la. Ou o que é pagar um dólar para receber hambúrguer sentado no sofá? Ou aproveitar o desequilíbrio entre oferta e demanda para fazer uma viagem baratinha de carona até ali? Ou condicionar a manutenção da empregabilidade ao arrocho salarial e cortes de benefícios?

Voltando às empresas: o lucro da mineradora que segue bem cotada em bolsa, pagando bônus e dividendos gordos a executivos e acionistas, mesmo tendo um passivo enorme social e ambiental, é de verdade? Não é! É mentira!

O âncora do jornal ganha um milhão por mês. O repórter assistente, enfrentando enchente ou apanhando no curral do presidente, o equivalente a 0,05%. É verdade ou fakenews?

E mais uma vez a vida privada. Costumávamos a nos preocupar com suntuosas festas de aniversário para crianças. Hoje o que pais e avós não fariam para estarem juntos em torno de um bolinho de chocolate com uma pequena vela espetada cantando parabéns para suas crianças?

Passei a vida ouvindo de uma tia querida: o que você não aprende em casa com carinho, aprenderá no tapa fora dela. Eis que aos 41 anos me encontro em quarentena, na tranca, no tranco, aprendendo com dor e tristeza profunda lições que a rua mais agressiva seria incapaz de impor.

 

Com alguém que me lê tem sido diferente?

RBU: Renda Básica de Urgência

No começo de 2017 meu amigo Tomas Biagi Carvalho, que edita a revista Amarello, enviou mensagem com o tema de orientação para a próxima edição: perspectiva.

Sem nenhuma, seja pela depressão que me acometia, ou por racionalizar a impossibilidade do mundo continuar sob o modelo vigente, fui procurar um norte – taí um lado bom das obrigações.

Rolava naquele então nos estados Unidos uma edição da Conferência Brasil, organizada por Harvard e MIT. E uma das mesas improváveis reuniu o vereador paulistano Eduardo Suplicy e o ideólogo reacionário Olavo de Carvalho.

Decidi acompanhar porque uma das minhas preocupações essa o binarismo político-social. E para minha alegria aconteceu o improvável: convergência. Obviamente não integral, mas num tema específico: Renda Básica Universal.

Foi um sopro de esperança que me deu fôlego. Passei a estudar a ideia com entusiasmo. Arranjei uma audiência com o Suplicy, defensor histórico e quase temático da Renda Básica de Cidadania – como ele prefere, ganhei uma aula e seu livro autografado.

Convencido e apaixonado, passei a defender a ideia. Escrevi muito nesta página – o conteúdo está nas tags. Amolei dirigentes de think tanks por uma conferência. Não rolou. Mas tampouco foi em vão, porque com ou sem minha ajuda a ideia brotava aqui e acola em declarações de gente destacada.

A estrutura para o meu convencimento tinha quatro pés: com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos – que fazer?; a concentração de renda acabaria matando os consumidores e, com efeito, o capitalismo; o modelo chinês ou americano de produção e consumo, se escalado de 1,5 bilhão de pessoas para sete bilhões, explodiria o planeta; tudo isso somado à ao binarismo político poderia acabar com a democracia.

Quatro anos depois surge um quinto e trágico motivo: coronavírus ou COVID-19. E de desejável a Renda Básica passou a ser urgente. É o debate econômico global. Seja por perdão fiscal como na França, ou pela determinação do governo Trump de fazer um cheque de mil dólares para cada cidadão americano.

Aqui no Brasil quem capitaneia o debate é a economista Monica de Bolle. Hoje no Estadão vai um artigo seu com os cálculos necessários para a implementação. Leitura fundamental. E acalantadora ante o pavor de ver morrer tanta gente de gripe ou de fome.

Leigo, meu argumento sobre o custo da renda Básica era inverso: a pobreza é o que há de mais caro. E as condições brasileiras amargamente provam isso. Se os hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês já não dão conta de atender suspeitos de infecção, imaginem os demais. Imaginem a situação de uma população onde metade das casas não tem saneamento básico. Imaginem como farão para comprar comida os milhões de subempregados. Não por acaso, os dois primeiros óbitos (um ainda dependente de confirmação da causa) são de um porteiro e de uma empregada doméstica.

Mas a professora De Bolle fez as contas: As medidas de caráter imediato – saúde, proteção social e setorial – somam cerca de R$ 310 bilhões ao longo de 12 meses, ou uns 4% do PIB. Isso é metade dos cerca de 8% do PIB que gastávamos com os juros altos de 14% há poucos anos.

Vamos em frente. O caminho é claro e cada segundo pode custar uma vida.

#União

Antes das sete da manhã o dia já prometia, com a revelação de Paulo Guedes sobre a projeção do Banco Central para o impacto do coronavírus no Brasil. Sem qualquer responsabilidade ou exatidão sobre os números, o ministro disse que “na Itália a previsão era de 60% de contágio e aqui, 80%.” O governo sabia disso desde quarta-feira e só agora a informação vem a público e assim, esculhambada.

Sete da noite e nada melhora, tampouco se acalma. Em coletiva de imprensa PaGue surge autoritário como sempre e ensaia um chilique, chega a se levantar como quem ameaça não brincar mais. Então encarna o Cebolinha, desenhando os planos infalíveis que aprendeu na Chicago dos anos 1970. E sobe o tom ameaçando contingenciar orçamento básico ante a pandemia que vamos enfrentar. É de se perguntar quem é o chantagista.

E é claro que o eterno Beato Salu não desencarna. Se não for do jeito dele, o mundo acaba. Mas coitado, não está bom da cabeça. À Folha, na entrevista publicada hoje, diz que crescemos “1,7%, quase 2%”. Agora na coletiva, admitiu o pífio 1,1%. Talvez seja o caso do doutor Reale Júnior estender o pedido de sanidade mental que sugeriu ao presidente da República ao seu Posto Ipiranga.

Completamente fora da realidade, o ministro sequer falou no BPC, que o Congresso aprovou e o TCU, seu órgão auxiliar, contrapôs. Assunto do momento, um dos cernes da crise política, importante para garantir alguma dignidade a tantas pessoas com deficiência, idosos ou acometidos por invalidez, especialmente diante do que temos pela frente.

Porém admito que no geral há boas medidas, ainda que o próprio Guedes admita que insuficientes. Fora a charla. Acrescentar um milhão ao Bolsa Família é importante, mas além de não se lembrar de dizer se trata-se de pessoas ou de famílias, se esqueceu de dizer que expulsou mais de um milhão de famílias do programa, sendo regiões pobres do Nordeste as mais prejudicadas.

PaGue parecia muito preocupado com as pessoa jurídicas, e de fato deve estar. E a Caixa Econômica sinaliza que está preparada para acudi-las. Grave é o desdém do ministro pelas pessoas físicas, sem as quais as primeiras não podem existir nem teriam razão de ser.

Mais grave é ver que o descontrole é a tônica deste governo. Acima de Guedes está Bolsonaro, que não pode ver um balde que já corre para o tiro de meta. De manhã deu uma entrevista a José Luiz Datena, que ganha a vida inflamando as massas no horário nobre, mas que ao telefone com o presidente era a exata imagem do adulto na sala.

Desde ontem, nas entrevistas que deu para justificar o injustificável, só envergonhou a Presidência da República, como se dele fosse, como se institucionalidade não houvesse. Não entende ou não quer entender que o chefe de Estado e de Governo não se pertence. E por óbvio não pode assumir risco de contaminação e muito menos dar o exemplo do risco de contaminar.

A situação é muito grave. Para além do Estado e do Governo é urgente sacudir o chefe de ambos para lembrar que existe uma Nação. Imaginem o que será dos milhares de entregadores de aplicativos que estão sobrevivendo pelas cidades. Dormindo nas calçadas entre uma e outra corrida com as cabeças dentro das caixas, depois rolando entre restaurantes, supermercados e residências e circulando de mão em mão maquinas de cartão de crédito, são verdadeiros polinizadores do conoravírus. Mas sem isso, morrem de fome. Urge uma renda básica pelo menos para eles e as dezenas de milhões de desempregados, desalentados e subempregados brasileiros.

Só em São Paulo há estimados 25 mil desabrigados. Destes, sete mil são idosos. Grupo de risco, portanto. O que faremos? E quando esfriar? A Itália decidiu deixar morrer quem tem mais de oitenta anos. Qual sociedade sobrevive a uma decisão assim?

Precisamos urgentemente de união. Chefes do Legislativo e do Judiciário se reuniram hoje na sede deste último. Do Executivo, Luiz Enrique Mandetta, ministro da Saúde. O presidente da República não foi. Assim como não participou da videoconferência com sete presidentes de países vizinhos, alguns deles combinando fechamento de fronteiras enquanto o nosso chama a pandemia de histeria. Com o perdão do trocadilho, cadê o líder da União? Quem é esse líder da União que se conflagra pessoalmente com os governadores dos estados-membro?

Para encerrar: o fechamento de fronteiras é preocupação de muitos pelo risco de incentivar ultranacionalistas. Mas se é combinado, se é pelo bem comum, fronteiras fechadas antes nos unem do que nos separam. Quem sabe ao cabo dessa calamidade que enfrentaremos, e oxalá vamos enfrentar juntos, possamos continuar assim quando tudo passar.

Quem trabalha de graça é a mãe

O capitalismo tem uma regra: não existe almoço grátis. Não falha. Se por acaso acontece um almoço que parece grátis, convém investigar para saber quem está pagando. Sempre tem. Não falha.

Anteontem, no segundo domingo de maio, rolou um almoço internacional em homenagem às mães. Uma beleza. Todo mundo postando retrato. Realmente comovente.

Mas com o perdão da indelicadeza, e esta freguesia há de reconhecer que respeitei a boa digestão, proponho que a gente pare para pensar em quem está pagando a conta da maternidade.

Já foi pior, mas a verdade é que o trabalho doméstico ainda fica por conta da mulher. São elas que cuidam das crianças, dos velhos, dos doentes, das pessoas com deficiência. Também são elas que tratam de cama, mesa e banho. Mas não recebem pelo serviço.

Se não recebem, parece almoço grátis. Porém, como almoço grátis não existe, quem está pagando a conta?

Ora, é a economia, estúpido. No capitalismo, quem trabalha gera valor. Se este valor não é reconhecido, o capitalismo sofre. E quanto mais longo o caminho que o valor faz até encontrar o preço, mais caro fica.

O primeiro efeito da mãe trabalhar de graça é econômico. Sem ter seu valor reconhecido, a mulher não consegue reconhecer o valor do trabalho de outra mulher. Numa sociedade pobre como a brasileira, ocorre que outras mulheres são contratadas para fazer o trabalho doméstico pelo preço mais baixo possível.

O efeito social vem grudado. É possível ser pai de duas famílias. E impossível ser mãe de duas famílias. A moral praticamente extinguiu a primeira prática, mas ainda tolera a segunda com naturalidade. Preferimos ignorar o fato de que quando uma mãe se divide entre duas famílias, uma ou ambas serão prejudicadas pela falta de atenção, de laços, de respeito. E não há sociedade que pare de pé assim.

Aqui chegamos diante de quem acaba pagando a conta do trabalho doméstico não remunerado: a economia e a sociedade. Custa muito caro a todos nós manter esse modelo, que de grátis, como todo almoço capitalista, só tem a aparência.

E em respeito aos princípios capitalistas, é preciso rever o modelo. Ora, há concordância sobre o Estado gastar dinheiro para manter equilibrados recursos monetários, por que não haveria de investir para equilibrar recursos humanos?

Aos liberais radicais cabe a mesma pergunta. Como pode ser equilibrado um mercado onde alguém trabalha sem remuneração?

Para encerrar, se quem vai fazer o trabalho do lar é mulher ou homem, para mim é indiferente. Assim como não interessa se é casal, trisal, família monoparental. O importante é que, uma vez decidido que haverá um lar, alguém deve se dedicar a ele e ser remunerado por isso, porque é justo e convém a todos nós. O mínimo equilíbrio econômico e social dependem disso.

O melhor presente de dia das mães seria a Renda Básica Universal. Tenho convicção de que, uma vez adotada, o dia das mães seria mais contente ano após ano, principalmente para a principal interessada, que é a rede varejista.

Você topa trabalhar de graça?

O IBGE mostra que, às tarefas do lar e cuidados com parentes, meninas se dedicam o dobro dos meninos. Segundo a Pnad Contínua, elas ralam 21,3 horas, e eles, 10,9h por semana em casa.

Apesar do desequilíbrio, a diferença vem diminuindo. Onze milhões deles debutaram no serviço doméstico de 2016 para cá.

Usei a terceira pessoa porque estou fora das estatísticas. Aqui em casa o trabalho é dividido quase que meio a meio há tempos. Cuido da cozinha e Neguinha cuida das roupas. O desequilíbrio está na faxina, mas por questão de critério, não gênero. Sou menos exigente do que ela na hora de concluir que algo está limpo e gosto de cama desarrumada, respirando o dia inteiro. Ela não suporta. Pela harmonia, procuro não interferir.

A divisão das coisas de casa entre homens e mulheres é um problema social estrutural e não respeita fronteiras. Mas no mundo desenvolvido, o entendimento avança mais depressa.

Pelo NYT/Estadão soubemos da história de um casal que se formou em Direito em Cornell. Dez anos e dois filhos depois, ambos têm contratos com grandes firmas de advogados, que pagam salários anuais de sete dígitos. Porém ela trabalha meio período, ou 21h/semana, e ele entre sessenta e oitenta horas, chegando a ganhar até seis vezes mais do que ela trabalhando só três vezes mais.

O avanço no entendimento está na equação que permite ele ganhar mais. Se por muito tempo entendíamos que mulheres desistiam da carreira profissional por terem maridos ricos, agora entende-se que os maridos podem ser ricos porque elas desistiram da carreira.

Quer dizer, para topar a chamada “profissão gananciosa”, ou aquelas que prevalecem sobre qualquer outra esfera da vida, e que por isso pagam a ponto de fazer alguém rico, o profissional depende de uma retaguarda, sem a qual seria impossível “apagar um incêndio” a qualquer momento. Por exemplo, o advogado tem um cliente preso e corre para atender. Se tiver que buscar os filhos na escola, leva-los para casa, fazer lição, brincar, dar banho, jantar e botar para dormir, estará demitido.

Isso funciona com casais ricos do nordeste dos Estados Unidos, topo de qualquer pirâmide social. Mas ainda lá, no entorno de Cornell, quem vai cuidar dos filhos do bombeiro se ele corre para literalmente apagar um incêndio enquanto sua mulher, professora, está em aula?

Aqui na periferia do mundo a resposta parece fácil, notadamente para esta freguesia. Com mão de obra barata, contrata-se babá, cuidadora, motorista e toda a sorte de empregados domésticos. Mas e das crianças, dos velhos, das casas dessas famílias, quem cuida?

Em qualquer campo político fala-se da importância da família enquanto célula na sociedade. Mas na hora do que interessa, que é pagar quem trabalha diretamente para a família, todos se esquecem, ou parecem esquecer, que se a família é um pilar da sociedade, a sociedade só fica de pé se proteger a família.

É exatamente a relação particular do casal de advogados, só que ampliada para o coletivo. Sem trocadilho, é no mínimo uma questão de justiça remunerar o trabalho doméstico. E se é justo, convém a todos nós.

Me perdoem se insisto nesse tema, mas não vejo caminho diferente da Renda Básica Universal para resolver o problema.

Tapa na peruca

Roberto Campos, ao receber um prêmio, caprichou o seguinte: Diferente das roupas de baixo, que só devem aparecer pontualmente, a modéstia não deve aparecer jamais. E eu adoro ser homenageado.

Em 2017 já se falava bastante da reforma da Previdência e, sem base técnica para falar de Economia, anotei em maio um palpite político, chamando a reforma de peruca. Está aqui.

Em 2019 o debate da Previdência segue uma peruca gigantesca e talvez ainda mais cruel, tanto quanto o ridículo pode ser. E a unanimidade aplaude, burra como também só ela pode ser.

Evoco Nelson Rodrigues porque a personalidade mais importante para o Brasil atual seria um dramaturgo talentoso, corajoso e obsessivo, capaz de iluminar a sociedade com holofote de ribalta.

Na falta de alguém da mesma altura, fico com o próprio Nelson e empresto a frase dele para homenagear André, filho do seu amigo Otto Lara Resende: Só os profetas enxergam o óbvio.

O jornal Valor Econômico é o palco do melhor debate acadêmico sobre Economia que este século já viu e começou com um artigo do ALR, atraindo gente boa. Pelo WhatsApp rola o paper completo, com tudo que tem direito: filosofia, fontes, ressalvas, autocritica e a mensagem fundamental.

Basicamente ALR explica: A) Sobre finanças e investimento “que é o gasto do governo que cria a moeda, e não a disponibilidade de moeda que viabiliza os gastos do governo”;  B) Questão fiscal: que a natureza dos impostos é distribuir e realocar dinheiro, não capitalizar o Estado; C) Política: “A razão nas questões de políticas públicas, relacionadas aos déficits do governo e à dívida pública está com Mosler e os defensores da Teoria Monetária Moderna (MMT na sigla em inglês): o governo não está sujeito a restrição financeira e a dívida pública não é um fardo para as próximas gerações.”

João Sayad entrou na dança festejando o ar fresco. Esticou os suspensórios a la Bob Fields e estalou um alto lá que deve sacudir a unanimidade que repete sem “análise, descrição, contra-argumento” a já hostil ameaça de caos caso a Previdência não seja reformada.

Vai além o Sayad, contrapondo a certeza de hiperinflação caso o déficit e a dívida pública cresçam. Ora, EUA, China e Japão fizeram mais da metade da dívida do mundo e, pelo menos no Japão, o problema é deflação.

Ambos, André e João, usam filosofia para explicar que as finanças não são um caso isolado. Muito pelo contrário, pertencem ao todo e, tanto no princípio quanto no fim das contas, devem servir às pessoas.

E especialmente o Sayad encerra com uma beleza de parágrafo que, noves fora a dispensável modéstia, aponta o caminho:“A previdência gasta mais ou menos R$ 600 bilhões por ano, sem o déficit. Com estes mesmos gastos, é possivel pagar R$ 2 mil por ano para cada brasileiro desde que nasceu. Com esta renda, pode-se levantar crédito, garantir uma aposentadoria, e muito mais. Um brasileiro de 60 anos teria R$ 120 mil de renda extra. Sua família, R$ 360 ou R$ 480 mil. Para 90 % dos brasileiros, é uma fortuna. O efeito sobre a juventude seria imenso – menos violência, mais educação. Para os velhos, mais segurança. Para os desempregados, mais amparo. É uma ideia radical e, aqui, mal formulada. Mas muito melhor do que exigir 30 anos de contribuição das novas gerações. Alguns países já adotam esta alternativa.”

Ora, se precisamos de um esforço político hercúleo para passar a reforma da Previdência, por que não assumir uma briga maior a favor de uma solução maior, melhor, sintonizada com a atualidade e livre do ridículo da peruca?

Fato: viveremos mais e trabalharemos menos. O modelo de produção e consumo chinês ou americano, que proporciona pleno emprego para 1,7 bilhão de pessoas, se expandido para sete bilhões explodiria o planeta. A coisa mais cara que existe é a pobreza. E num mundo tão polarizado, a Renda Básica Universal é das poucas agendas capazes de unir extremos, de São Paulo a Karl Marx, de Davos a Porto Alegre, de Paulo Guedes a Eduardo Suplicy, transformando a ferradura em aliança.

André, João e Valor Econômnico, obrigado.

Direita e esquerda ou transformar a ferradura em aliança

“Tá legal, eu aceito o argumento. Mas não atrase o samba tanto assim…”
Esquerda e direita é um conceito político de duzentos e tantos anos, que surge numa divisão física e pontual entre dois grupos numa sala. Mas incrivelmente permanece válido e muito além de seu momento. Inegavelmente é um clássico.
Agora, sendo clássico, tem que valer a qualquer tempo. Há dois mil e tantos anos, como seria? Sócrates, por exemplo, era de esquerda? Platão, seu discípulo, de direita? Aristóteles no centro, tranquilamente.
Mais recentemente, Jesus, o Nazareno? Esquerda, claro. Sua biografia é igual a do Sócrates. São Paulo é direita, óbvio. Daí Lutero era esquerdista? E o Calvino?
Voltando às aulas no começo do ano imaginei pedir autorização ao Mackenzie 1870 para instalar na escadaria que fica no umbigo do campus de Higienópolis uma escada Santos Dummont filosófica. Colar adesivos com pensadores de esquerda e de direita nos degraus correspondentes.
Enrosquei já no Agostinho. Não consigo saber onde ele está. Tomas de Aquino, suspeito, está no centro. Maquiavel mereceria dois degraus, com o jovem à direita e o velho à esquerda (contrariando Churchill, que fez o caminho inverso). Com os contratualistas é moleza. Hobbes na direita, Rousseau na esquerda, Locke no centro. Kant direita, Hegel esquerda? E o Marx? A turma acha que comunismo é de esquerda, mas é de centro.
Deixei pra lá ao ouvir a conversa de dois colegas na Maria Antonia. Um deles se encantou com a política em 2013 e debutou no ativismo aderindo ao Movimento Passe Livre. Foi black bloc, filiou-se ao PSOL, mas se desencantou com o partido quando virou aluno do Olavo de Carvalho. Hoje está no PSL e seguiu carreira militar depois do serviço obrigatório. Em duas horas de conversa com um amigo, gastou uma atacando homossexuais. A um colega que descobriu seu passado psolista se justificou dizendo que Daciolo também foi filiado, falando do Cabo como referência de integridade moral. Como não sentir compaixão por uma pessoa que enfrenta uma barra assim durante a juventude?
Sobre torta e direita o que prevaleceu até outro dia foi a definição do Bobbio: “A direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda encara como uma aberração a ser erradicada.” Suspeito que seja por isso que, entre um e outro, a turma de esquerda gosta de se reunir no Arpoador para ver o poente, enquanto a turma da direita tem que ficar dentro da classe, olhando para a lousa, bem ali em frente, no colégio São Paulo.
No Brasil a melhor análise é do Antonio Prata. Por exemplo: catchup é de direita e mostarda de esquerda. É brilhante principalmente por causa das cores, para confundir bocó.
Particularmente e sem qualquer modéstia eu adoro a minha: esquerda é caviar e direita é bandejão. Por falar em bandejão, militar marcha assim: esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita. E o general Santos Cruz disse ao Roberto D’Ávila na Globo News que não pode existir na mesma sociedade uma pessoa ganhando mil e outra cinquenta mil. Vai encarar?
Na França, onde a turma costuma pensar, tem um movimento de jovens de direita que defende a família, o regionalismo e o meio-ambiente, atacam a União Européia e os capitais voláteis e são fãs do… Bernie Sanders. Ah, também são católicos – e francês contemporâneo religioso é algo tão revolucionário que pode ser de esquerda. (Ler Mark Lilla numa Piauí recente.)
Maravilha mesmo é a Geringonça portuguesa. Terrinha dando um baile.
Enfim, eu queria dizer dos rótulos que lamento muito cada um deles. Igual a tudo na vida tem um lado bom, mas no fim das contas servem para confortar os idiotas, o tal individuo contemporâneo, centrado em si e especialista em um troço qualquer, condenado a viver cercado, protegido e confortável no berço da idiotice.
Porém, igual ao príncipe Paulinho da Viola, o De Tocqueville do samba, aceito o argumento. Mas, por favor, não atrase o samba tanto assim. Vamos lá: Nazismo é o horror, ditadura nunca mais e a Tábata Amaral é uma deputada preparada e bem-intencionada. Teve formação bancada pelo Jorge Paulo Lemann mas aposto que, quando tiver que falar sobre subsidio para envasar em garrafa pet água com açúcar na Zona Franca de Manaus, votará contra os interesses do padrinho.
Ainda: tem um deputado federal chamado Paulo Guedes que é do PT de Minas. No mínimo é divertido. Só não ganha de ouvir o ministro PaGue ontem da Câmara elogiando o Bolsa Família, como não poderia ser diferente para quem vira e mexe fala em renda básica. Sabe aquela das pontas da ferradura? Pois então, a renda básica é uma das raras agendas universais capazes de transformar a ferradura em aliança.

Beato Salu na Praça dos Três Poderes

Na oligarquia da Asa Branca de Dias Gomes e Agnaldo Silva, o que mais se temia era a volta de Roque Santeiro. Dezessete anos após o desaparecimento, seu retorno era iminente, ameaçando o fim do mito.

A principal ameaça era feita por Beato Salu, pai de Roque. Desprezando e merecendo a recíproca dos poderosos locais, anunciava não a volta do filho, mas o fim do mundo.

Extrato do Brasil, Asa Branca, tanto quanto o filho ilustre, segue viva em todos os sentidos no coração nacional.

O engenho contemporâneo, porém, parece escolado, e conseguiu neutralizar Beato Salu. Não em suas sandices, mas na percepção delas. Como? Arranjando um elenco ainda mais surrealista.

Naquele mesmo 1986, enquanto Roque Santeiro finalmente era exibida no horário nobre, nos Estados Unidos estreava a comédia “De volta às aulas”, estrelando um empresário tosco e milionário por vender roupas para gordos. Seu slogan era: quer parecer magro? Tenha amigos gordos.

O slogan parece ser a única explicação para a percepção ora vigente sobre o ministro Paulo Guedes. Com êxito profissional incontestável, apesar de alguma nebulosidade em pontos legais, PaGue é financeiramente rico como a estrela do filme, mas considerado intelectualmente tosco por um sem número de economistas, de quem mereceu o apelido inspirado no louco da novela: Beato Salu.

Ocorre que, se no coreto da praça de Asa Branca se encontram Pastorinha, ChanCelerado, colombiano ufanista do Brasil, todos regidos por Marte no mapa traçado pelo astrólogo da Virgínia, convenhamos que Beato Salu parece razoável. Com a Praça dos Três Poderes não é diferente.

O fazendeiro Sinhozinho Malta está apavorado com o desmame prometido, não quer chorar sobre o cadáver de Ametista. Assim como o industrial e comerciante Zé das Medalhas com a ameaça da faca. Os padres Hipólito e Alcindo seguem batendo cabeça. Sem falar na sombra cada vez maior do bando de Navalhada. Já o político Florindo Abelha mostrou o ferrão e disse que sem flores não vai ter mel – levou um bilhão em emendas e a promessa de cargos mil.

Porém, no pregão da Faria Lima, Beato Salu roubou a fala de Sinhozinho Malta e repete ameaçadoramente: tô certo ou tô errado? E o pessoal do asset assente, fingindo acreditar que, mais que durar, o paraíso do semestre passado se repetirá na terra se passar a reforma da Previdência, materializando a década do trilhão.

Os apóstolos de Salu não têm limites e creem que podem reeditar as escrituras. Falam em desvinculação geral do orçamento, um trava língua de três trilhões e trezentos milhões, versão 3.0 da Pec do Teto, mais R$ 2 trilhões em privatizações, R$ 120 bilhões de ajuste fiscal e por aí vai. Quem ousa duvidar é condenado a embarcar com filhos e netos num voo só de ida para Atlântida.

Graças a Deus, contudo, ainda há céticos. Clovis Rossi na Folha de hoje os apresenta. O primeiro é Mohame El-Erian, conselheiro econômico-chefe da Allianz, para quem urge aos colegas um olhar mais amplo; Gene Sperling, guru econômico do Partido Democrata americano, para quem dignidade econômica é a única meta, tendo por tripé capacidade de cuidar da família, oportunidade de realização, liberdade contra dominação e humilhação; e, vejam vocês, o professor Delfim Netto, que botou na mesma Folha um “talvez” em referencia a uma renda básica para confortar o cidadão mais vulnerável.

Ainda: obviamente a reforma da Previdência é necessária, porém muito antes de ser panaceia deve ser sabida como paliativa. Com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos. Pleno emprego ao modelo de produção e consumo chinês ou americano para sete bilhões de pessoas explodiria o mundo.

Meu palpite é conhecido desta freguesia: só uma renda básica universal garantiria dignidade social e movimento da roda econômica. A parte boa é que a proposta é um dos raros pontos de convergência entre gente tão diferente quanto Eduardo Suplicy, Fernando Henrique, Bill Gates, Barack Obama, Ellon Musk, Richard Branson, OakLavo e Beato PaGue Salu.

Reformas

Reforma é sempre desagradável. Passei por uma na casa materna há uns vinte anos. Inventaram umas arandelas e, para tanto, era preciso cavar as paredes para instalar conduites. Ar crocante logo de manhã. A poeira era mastigável. E eu, que tinha cabelo e usava gomalina, chegava ao trabalho com um reboco grisalho na cabeça.

Recém-casado fui morar num apartamento lindo e velho. Troca o encanamento, o pedreiro varre o refugo para o ralo, volta o encanador, que trabalha o ralo se segurando na maçaneta da porta e estoura a dobradiça. Chama o marceneiro. Negocia tudo com a proprietária. O horror.

O ideal seria que a gente se mudasse enquanto rola a reforma, igual fazem com os carros. Deixa na oficina e pega quando estiver ok. Mas nem sempre é possível fazer isso onde se vive. Com o corpo, por exemplo. Não dá para deixar o coração no hospital e passar para buscar depois. Se precisar juntar um osso quebrado, tem que carregar o gesso durante algum tempo.

Com o país não é diferente. Vamos ter que reformar com ele funcionando (não é a palavra exata, eu sei). Será um transtorno mas não tem outro jeito. O mínimo que se espera de quem foi escolhido para tocar as obras é que eleja prioridades. Primeiro a cozinha, depois o banheiro e assim por diante. E muito, muito importante: explicar para o Carlinhos que pelo menos durante esse período ele não poderá brincar na sala.

Dito isto, vamos à escala de mão de obra. O pedreiro só deve entrar depois que o encanador concluir o seu serviço. Desenhando: Paulo Guedes e Sérgio Moro deveriam combinar o que vai primeiro. Reforma da Previdência ou pacote anticrime? Foram juntos, tumultuando. Agora 513 deputados e 81 senadores terão que organizar a fila. Na Câmara o líder do não-governo já mostrou que não lidera. No Senado, receando que a vaca vá para o brejo, chamaram o Bezerra do MDB (desculpem, não resisti). E o papel do Onyx, me parece, foi botar o caixa dois no pacote dois. Tudo isso com o Carlinhos, ou Cartucho, brincando de bodoque na praça dos Três Poderes, rodeada de vidraças.

Tendo a acreditar que a reforma da Previdência é urgente. Porém insisto que é paliativa e que a longo prazo só a Renda Básica Universal pode equilibrar a sociedade. Mas sendo o que temos para hoje, comento a seguir alguns pontos.

Afirmo que PaGue não viu o filme Eu, Daniel Blake. Tivesse visto, não apostaria que vai economizar R$ 10 bi ao ano criando uma gigantesca máquina burocrática para avaliar idosos e pessoas com deficiência que recebem o BPC. Meu palpite é que o molho vai sair mais caro que o frango.

Tratar como direito adquirido os privilégios de servidores da União, estados e municípios, e principalmente do Judiciário e militares (média de R$ 28 mil no legislativo federal e R$ 2 mil no setor privado), é uma excrescência, assim como é excrescente a dívida de R$ 500 bi de empresas públicas e privadas, equivalente ao dobro do déficit atual, e abjetos são os recorrentes Refis e perdões e desonerações parciais ou integrais a diversos setores.

Ocorre que, para cortar na carne, precisaríamos de uma carnificina ao modelo dos Estados Unidos na Guerra da Secessão. E o modelo brasileiro de reforma econômica-social é de transição longa. Para usar o exemplo correlato – até porque escravizar era defendido como direito adquirido –, por aqui precisamos de quarenta anos entre fim do tráfico de escravos, lei do ventre-livre, sexagenários e enfim a abolição. A pergunta que fica é: foi sem carnificina?

Olhando as estatísticas sobre homicídios, afirmo que não. Os negros são 71% das vítimas de homicidas no Brasil. No recorte paulista, estado que tem os índices menos ruins, a Ouvidoria da Polícia verificou que entre 756 civis mortos pelas polícias, 99% eram pobres e 65% eram negros com até 24 anos.

E então chegamos ao pacote anticrime do ministro Moro, que afrouxa ainda mais os limites para letalidade policial. É assombroso e já causa efeitos sociais, como o do projeto de policial que estrangulou até a morte um jovem no supermercado Extra, na frente de colegas e da mãe da vítima, a quem dizia: “Cala a boca, puta!”

Curiosamente, alheio às evidências científicas e aos alertas de estudiosos, o ministro Moro insiste no afrouxamento, mas botou de parte a criminalização do caixa dois para políticos que, ainda outro dia, dizia ser pior que a corrupção.

A integração das polícias, tão falada na transição de governo e fundamental para melhorar a segurança pública, acabou marginalizada.

Quem puder se mudar do Brasil e evitar o transtorno, aproveite para reparar como funcionam os aeroportos. Da porta para a rua, quem trabalha é a Polícia Militar. No saguão entre a porta e o portão de embarque, é a Polícia Civil. Passando o portão de embarque é a Federal. Se roubarem sua bagagem em algum momento, torça para que o ladrão tenha a bondade de aguardar os policiais dentro do limite onde cometeu o furto, porque se mudar de ambiente, babau: as três polícias não se falam.