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A Cesar o que é de Cesar

Na sexta-feira saí para jantar fora e reconheci o senador Delcídio Amaral, do PT do Mato Grosso do Sul. Comentei com a minha Neguinha que a gente deveria ir lá cumprimenta-lo, porque sempre que festejamos os votos do ministro Joaquim Barbosa e de seus pares, que vêm condenando os mensaleiros, um quinhão dos aplausos deveria ser dedicado ao senador, pela isenção e firmeza com que conduziu a CPI dos Correios, que serviu de base ao processo.

E a Nega, que ao contrário de mim é serena e reservada, me pediu encarecidamente para desistir da ideia. Poderia, segundo ela, parecer antes provocação do que justa homenagem. Mas o Neguinho aqui, que já vinha da espera com dois Manhatans devidamente tragados e a convicção de que a Cesar se entrega o que é de Cesar, pediu licença para ir ao banheiro e se dirigiu à mesa onde o bom Delcídio jantava. Pedi licença e desculpas por interromper e perguntei se ele era o senador Delcídio Amaral, que respondendo afirmativamente se levantou para ouvir mais ou menos o que propus no primeiro parágrafo – e ficou muito agradecido.

Cada brasileiro pode imaginar a pressão que esse homem sofreu dos correligionários, alguns companheiros de toda a vida, para transformar a CPI numa pizza fantástica. Para se ter uma ideia, basta pegar o que o senador Osmar Serraglio, do PMDB do Paraná, que foi o relator da CPI, sofre até hoje com retaliações. Mas o Delcídio não cedeu. Foi firme, garantiu convocações, depoimentos, acareações. E ao cabo de alguns meses a investigação estava concluída, produzindo provas suficientes para garantir o trabalho da Polícia Federal, da Procuradoria Geral da República e outras instituições envolvidas.

A verdade é que da mesma maneira que toda a sociedade brasileira, exausta de tanta bandalheira, os mensaleiros e a turma que, sabendo ou não do esquema, se beneficiou dele enquanto foi governo, como os presidentes Lula e Dilma, todos acreditavam na impunidade. Os primeiros com desolação, os demais com aparente esperança. Primeiro a gente pensava que a CPI daria em pizza. Então que o processo ia caducar antes de chegar a ser julgado. Depois que alguma manobra melaria tudo. E até que o voto dos ministros seria parcial e obediente ao presidente que os nomeou. Mas a medida do bem que o funcionamento da Justiça está fazendo ao Brasil está no brilho dos olhos de cada cidadão que quer ver enfim esses gafanhotos na cadeia, e a mesma medida é o desespero de alguns deles, como o atual aspone José Genoíno, o acusado de ser o líder da quadrilha, Zé Dirceu, e até o Lula, que depois de ter sido apontado como chefe do mensalão pela matéria da Veja sobre os segredos do Marcos Valério não processou a revista nem o publicitário.

Ninguém poderia imaginar que a história corrigisse tão rápido o legado do Lula. De salvador da pátria o sujeito vai pra baixo de Maluf em coisa de dois ou três anos. E como não poderia ser diferente isso desnorteia qualquer um. Se disse decepcionado com os ministros do Supremo que fez o favor de nomear, espalhou que vai recorrer da decisão do STF aos organismos internacionais e consta que já fala até que o julgamento seria um golpe das elites. Pode ser tão patético?

Golpista é a turma dele. Digo e repito que quem pegou em armas para derrubar a ditadura no Brasil não queria a democracia, mas o próprio modelo totalitário – no caso de Dirceu e companhia, a la Fidel Castro. Mas democracia se faz com ideias, não chumbo. E assim foi feito pelo Montoro, pelo Tancredo, pelo Ulysses. E com o Fernando Henrique avançamos muito, tanto com o Plano Real, que simboliza a democracia econômica, quanto com o respeito, por exemplo, à liberdade de imprensa – lembrem-se que o Collor mandou invadir a Folha e o Lula queria expulsar o correspondente do New York Times e o “controle social da mídia”.

Como não deu certo com chumbo eles voltaram com a grana, e invés de fechar o parlamento, compraram os parlamentares com o mensalão, o que é golpe da mesma maneira. O dinheiro é capaz de subverter até a paixão, quanto mais a ideologia.

O último jogo do Brasil contra a Argentina assisti numa pizzaria, e aos poucos os garçons, manobristas e pizzaiolos foram se juntando no salão para acompanhar a partida na televisão. É impressionante como ficam apáticos. Por obediência ao salario, sublimam a paixão que têm pela Seleção. E isso é muito triste. Eu olhava para eles, olhava para a pizza, e pensava nos deputados comprados pelo PT em dia de votação. De um lado, trabalhadores honestos, querendo a alegria de um gol. De outro, políticos corruptos, apodrecidos, castrados da opinião própria. No meio, a pizza, que graças a Deus, ao Delcídio, ao Osmar, aos delegados, procuradores, ministros e a cada brasileiro vigilante me parece cada vez mais distante.

 
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