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Batuque na cozinha

Aquele que é tido como o primeiro samba gravado no Brasil está em voga de novo. O Batuque na Cozinha, do João da Baiana em parceria com Donga e Pixinguinha profetizou que batuque na cozinha, sinhá não quer, e que muita gente na cozinha sempre dá alteração, mas parece que ninguém anotou.

Enquanto de um lado da casa, para aumentar a reserva nos banheiros, sobram pastilhas, metais e porcelanas, e os casais que podem instalam tudo em dobro, digo práticos gabinetes e românticos chuveiros, com os mais abastados se valendo até de do banheiro inteiro em dobro, um exclusivo para cada, a cozinha vem se tornando num ambiente de convivência familiar e até social.

Abro parênteses breves para lembrar da exceção: sei de um casal que mandou substituir o bidê por uma latrina extra, e assim desde cedo já começam a prosa conjugal, comentando as notícias do jornal. Fecha parênteses, porque tara se trata com discrição.

Os que viajam pra valer e invés do Hilton qualquer lugar vivem o cotidiano do local hospedados numa casa, dizem que na Europa e nos Estados Unidos o costume é absolutamente difundido. Não o das privadas conjugadas, que já estão superadas aqui, mas o da cozinha como ambiente social da classe média. O cinema e a arquitetura dizem a mesma coisa, e as “cozinhas americanas” estão aí derrubando fronteiras e paredes erguidas há décadas.

Atenção: é preciso não confundir as cozinhas americanas com a celebridade atual do mercado imobiliário, notadamente as “copas gourmet” instaladas nas varandas. Estas são a involução das churrasqueiras, que pelo menos tinham a vantagem de ser ao ar livre. Depois que o feliz proprietário pilotar o terceiro churrasco corporativo para o pessoal lá da empresa a fase exibicionista passa e ele volta a pedir pizza por telefone. O buraco da churrasqueira é condenado ao abandono ou, com sorte, vira bancada para orquídeas.

As cozinhas americanas são iguais a qualquer cozinha, só que mais bonitas, inteligentes e equipadas, tanto que falam de igual pra igual com a sala. O problema é que essas cozinhas são americanas do norte, e aqui somos a América do Sul, onde o complexo de sinhazinha permanece entranhado no povo. Então a parede cai, mas a separação continua, porque a sinhazinha na sala de jantar continua ocupada em nascer e morrer. Lavar louça nem pensar. E de ouvir o batuque ela também não gosta.

Aqui todo mundo quer ter uma mucama. Não é raro que a empregada doméstica ou babá da casa do rico tenha outra empregada doméstica ou babá na própria casa. É sempre alguém subjugado, uma prima distante que vem para a cidade e topa o serviço em troca do teto. Esta é a base da remuneração dos empregados domésticos no Brasil: o teto. Sem trocadilho ou jogo de palavras: a primeira recompensa que o empregador doméstico oferece é um lugar para morar. É a senzala que sobrevive em nós e faz parte do complexo de sinhazinha. Não é privilégio brasileiro. Qualquer população subdesenvolvida está sujeita.

Dois obstáculos fantásticos agora surgem e devem, se não resolver, melhorar muito a situação. Primeiro: a economia está crescendo e a fila está andando. Os bons empregados domésticos estão cada vez mais raros e merecidamente caros. O segundo vem na esteira: a legislação está mudando e agora eles terão os mesmos direitos de qualquer trabalhador, como limite de oito horas de carga horária diária e 44 semanais, hora-extra, adicional noturno, seguro desemprego e contra riscos de acidente de trabalho e outros tantos. É uma maravilha para toda a sociedade, mas é claro que a sinhazinha vai chiar antes de começar a se entender com a cozinha americana. Porque batuque na cozinha, sinhá não quer. O que ela quer é tudo na boquinha.

 
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