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Comer fora é mais barato

Ao contrário da impressão geral, comer fora é uma medida própria de quem quer economizar, e não de quem quer gastar dinheiro. Guardadas as proporções devidas, será sempre mais barato comer num restaurante do que em casa.

Concordo que os preços em São Paulo estão muito acima dos outros países. Quem viaja volta escandalizado com o valor das notas aqui apresentadas. Um festim português com direito a Alvarinho e queijo da Serra da Estrela na cidade do Porto sai pelo mesmo preço de um beirute e dois Rabos de Peixe no Frevo da Oscar Freire. Por outro lado, os mesmos viajantes concordam que não se encontra mundo afora cozinhas funcionando do meio-dia à meia-noite como é a regra aqui em São Paulo. Dia desses, no Zucco da Haddock Lobo, já passava das 23h quando o salão começou encher. E a turma lá, às ordens e de bom-humor, esticando massa fresca para a freguesia. Imagine quanto custaria isso em Paris.

No 24 de dezembro tive a lisonja de fazer um brinde de cervejinhas à mesa do Zito Silveira no seu Pecorino da Eugênio de Lima, onde ele se preparava para almoçar com seus pais e seus filhos. Entre uma e outra lulinha gorducha como só eles sabem fazer fiquei sabendo de um caso interessante colhido em Nova Iorque. Em dois ou três casais eles queriam tomar um drinque antes de um programa qualquer, e a gerente foi perguntar à garçonete se tudo bem que este aperitivo acontecesse na praça dela. Percebem o ponto? O garçom nos Estados Unidos é praticamente sócio do restaurateur e explora uma praça sobre a qual tem autonomia, e a mesma coisa acontece com o barman, promovendo um ciclo virtuoso onde todos querem fazer mais e melhor e principalmente eliminando a situação paternalista do nosso sistema trabalhista.

Tanto o modelo europeu quanto o americano são melhores que o nosso, sufocado pelo atávico complexo de sinhazinha. A gente quer um empregado servil, subordinado, subjugado e disponível 24h, e por suas vezes eles topam, desde que tenham direito às garantias trabalhistas que engessam e encarecem tanto a produção. É a escravatura moderna, só não vê quem não quer.

E aqui volto ao proposto no primeiro parágrafo. Ainda assim, como todas essas diferenças, jantar fora será sempre mais barato do que dentro de casa. A quem duvida faço uma pergunta simples: você teria dinheiro para pagar cozinheiro, garçom e manter um estoque variado de comidas e bebidas? Só se estiver na lista da Forbes. E olhe lá.

O conceito financeiro original dos restaurante é ratear a despesa entre diversas pessoas interessadas em comer bem. Como se fosse um clube ou cooperativa. Vale para qualquer padrão. Tente fazer algo parecido com o Fasano na sua casa e veja se com ele nas mãos do Rogério não fica muito mais em conta. Agora vá sozinho ao Bovinus Grill do Anhangabaú, sirva-se, almoce e responda se no supermercado a despesa não seria bem maior.

O que proponho aqui é que se nós, que somos a freguesia, levamos vantagem atuando em grupo, os donos de restaurantes e suas equipes também só podem ter vantagens adotando o modelo americano. Quem é do ramo e está a fim de fazer o melhor vai topar. Até porque as alternativas são manter os preços na estratosfera ou passar a operar em dois turnos e só com reservas, como fazem os franceses.

crônica publicada no portal Taste: http://www.taste.com.br/cesar-giobbi/item/9894-blogueiro-maneiro.html

 
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