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Crônica da tragédia anunciada

Perplexo, eu deveria ficar quieto. Pelo menos esta é a recomendação dos manuais de boa conduta cada vez mais populares: não esquente a cabeça, releve, se não puder dizer algo bom simplesmente cale. Mas nasci com esse defeito e me envolvo, e me aborreço, e me desgasto. Esta é a minha natureza, não tenho como lutar contra ela.

Minha perplexidade, porém, não é simplesmente em relação ao número de vítimas do incêndio em Santa Maria. Acho que a de ninguém é. Infelizmente nos acostumamos à tragédia. Aqui em São Paulo mais de mil morreram assassinados a bala no ano passado, outros milhares foram moídos em acidentes de automóvel e aviões já caíram matando mais gente de uma só vez. O que barbariza neste caso é a suavidade que fica diante da barbárie. As vítimas serão veladas com os corpos e as faces intactas, como se estivessem dormindo, como se aquele ginásio fosse um dormitório de acampamento, absurdo, surreal, ou como se estivessem todos vivos, mas se fingindo de mortos num protesto para ver se o Brasil acorda.

A imagem descrita pelo poeta gaúcho Fabricio Carpinejar é desesperadora: “Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal”. Aquelas campainhas insanas insistindo contra o silêncio definitivo, clamando pela resposta impossível, são de levar qualquer um à loucura.

A maior dor é suave. Um curativo arrancado com violência machuca menos do que suavemente extraído. E a asfixia, o envenenamento por fumaça tóxica de cada adolescente encurralado é dilacerante. Resta crer que depois do susto eles não tenham sofrido. Que o efeito inebriante da fumaça tenha anestesiado cada um deles. Que a dor seja de quem fica, de cada um de nós, que vamos seguir adiante sabendo que há famílias olhando assim os seus filhos, amigos em dúvida sobre a alegria de viver, adolescentes viúvos do primeiro amor. Mas que, como escreveu outro gaúcho, o Luís Fernando Veríssimo, que a revolta tenha uma função prática.

Se fosse para apostar sem ver, botaria meu tesouro no palpite que a boate Kiss já é errada desde a calçada, tanto quanto à prefeitura que um dia autorizou sua operação. Mas pude ver num retrato a calçada, que confirmou meu palpite: feita para o entra e sai de mil pessoas, a faixa de calçada não comporta mais do que três perfiladas.

Da porta (única) para dentro a calamidade se espalha, tudo irregular, da capacidade ao equipamento, do treinamento da equipe à brincadeira com fogos de artifício, da falta de documentação à falta de seguro. Quantos lugares assim não frequentamos? É a crônica da tragédia anunciada. Boates, cinemas, shoppingns, estações de metrô. E mesmo assim têm alvará  e outras licenças de um, dois, três, infinitos órgãos oficiais que atuam em cada município brasileiro. Todos? Não sei, mas a maioria inúteis, que atendem ao interesse particular de mafiosos absolutamente alheios à coletividade.

Parece que os donos da boate e alguns músicos foram presos preventivamente. O prefeito Cezar Schirmer, no cargo desde 2009, e portanto cúmplice da tragédia, se limitou a agradecer a solidariedade e dizer que não está faltando leite nem medicamento. Prefeito, o que está faltando é vergonha na sua cara. O mínimo que você pode fazer é exonerar todos os fiscais que passaram pela rua dos Andradas nos últimos quatro anos e depois renunciar. O resto é com a Justiça.

 
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15 Comments  comments 

15 Respostas

  1. Regina Coutinho

    Todos seus comentários, perfeitos beijo Leo

  2. Marcio

    Querido Léo,

    Sofremos do mesmo defeito.

    Mas pelo que vemos hoje, eu há mais tempo, diria que é praticamente uma virtude…

    Abraços

  3. zeila

    Maravilhoso depoimento !!!!!!

  4. zeila

    Maravilhoso depoimento !!!!

  5. Meu querido primo,vc falou em poucas palavras o que eu penso disso tudo!!!!!Tem que falar mesmo,p/ver se as pessoas acordam nesse País!!!Parabéns/Mil bjs

  6. maria thereza g andrade

    Leo
    Parabens…Escreves muito bem e claríssimo.Seria ótimo se todos ,que precisam fazer algo e não fazem nada,estivessem lendo o que tão bem escreveste…E que mais pessoas fizessem isto que você fez com maestria…

    abraço MThereza

  7. Carlos Hornstein

    Léo,

    Concordo com você e acrescento.
    Falando em vergonha na cara, se esse caso tivesse ocorrido no Japão no mínimo os donos da boate, o Prefeito, o Comandante do Corpo de Bombeiros e todos os fiscais diretamente envolvidos no caso cometeriam suicídio (hara-kiri). E sabe por que? Primeiro porque existe vergonha na cara. Segundo porque a sociedade não aceita. Todos estariam proscritos de qualquer emprego, estariam proscritos dos amigos e da família. A perspectiva da solidão faria com que o ato desesperado fosse cometido. Pelo menos a honra seria salva.

    • Léo Coutinho

      Hoje circulou a notícia de que um dos donos da boate tentou se enforcar no hospital. Também não acho que seja para tanto. Ficar vivo e enfrentar as consequências é mais corajoso.

  8. Léo como finalizei meu post “não é natural os pais enterrarem seus filhos” quero insistir que não é normal ou natural esse tipo de tragédia.A irresponsabilidade e a ganância é que se tornaram naturais nesse país. Meu Deus quanto tempo mais ouviremos que o Brasil é o país do futuro? Horror ,horror!!!
    Parabéns por seus artigos.É muito bom lermos opiniões escritas com tanta lucidez e paixão.Bjo.

    • Léo Coutinho

      Obrigado, Ana.
      Está tudo muito triste mesmo. Essa semana que passou foi das mais ingratas da história do Brasil.
      Beijos gordos e obrigado pelo carinho