Facebook YouTube Contato

Crônica da tragédia estabelecida ou Santa Maria!

Um amigo conta sua experiência de empreendedor. Estudou, planejou, investiu e inaugurou uma lanchonete. Na primeira semana recebeu a visita de um fiscal da Vigilância Sanitária. Há uma jabuticaba burocrática que se dá mais ou menos assim: para funcionar o restaurante precisa ter alvará, mas este alvará depende do aval da Vigilância Sanitária, que por sua vez só pode dizer se o estabelecimento tem condições de higiene se ele estiver funcionando. Quer dizer: qualquer lugar esteve ilegal por pelo menos um período. Não falha um.

Voltando ao dia da visita do fiscal, este chegou em horário de funcionamento, casa cheia, se identificou e começou sua investigação, que incluía farejar copos, pratos e talheres dispostos nas mesas desocupadas, vizinhas às ocupadas por gente que nítida e compreensivelmente ia perdendo o apetite. Apavorado, o empresário foi perguntar o que havia de errado, e ouviu que “nada”, mas que mesmo seria autuado, posto que cabia recurso e além disse não haveria risco de fechamento. Porém, a partir dessa autuação, seria conveniente contratar uma consultoria especializada em Vigilância Sanitária, que por uma taxa mensal daria toda orientação necessária para eliminar qualquer chance de enrosco. Muito gentil, o fiscal ofereceu o cartão de visita do consultor.

Na semana seguinte veio o fiscal do Meio Ambiente. Há uma árvore no lugar, pela qual o proprietário se apaixonou e fez questão de preservar com todo o cuidado. Isto o prestativo funcionário público reconheceu, mas sabe-se lá, falta de insolação, cupins e outros males urbanos poderiam trazer risco para a árvore, e portanto seria de extrema importância ter um especialista à disposição, inclusive para podas eventuais e, veja só a coincidência, tinha no bolso o cartão de visitas do consultor especializado em árvores, podas e botânica em geral.

Dias depois chegou alguém do Contru, que é um órgão da prefeitura que controla o uso  de imóveis. São suas atribuições: “Realizar análises de projetos de: Edificações que necessitem de adaptação; Edificações novas; Equipamentos de armazenamento de produtos combustíveis; Aparelhos de transporte vertical e horizontal; Adaptação de edificação para acesso de pessoas portadoras de deficiência física e necessidades especiais; Vistorias técnicas; Verificação da execução das obras de segurança nos projetos aceitos pelo Departamento; Verificação de atendimento de intimações emitidas por risco iminente; Verificação e encaminhamento das denúncias recebidas; Operações em toda a cidade, verificando condições de segurança em edificações destinadas a comércio, indústria, serviços, institucionais, eventos, postos de combustíveis, aparelhos e empresas conservadoras de transporte vertical e horizontal.” Juro que assim está descrito no site oficial.

Enfim, o representante do Contru entendeu que a árvore, apesar de ter tanta gente cuidando dela, inclusive especialistas, botava em risco a construção e a freguesia, e que por isso merecia acompanhamento de (adivinha!) um consultor, cujo cartão de visitas (bingo!) ele tinha à disposição.

Perseverante (teimoso, louco, insano), ele continuou investindo e foi buscar uma firma de manobristas. Eu não sabia, mas elas cobram um piso de três mil reais pelo serviço. É como uma consignação invertida, onde o contratante tem que garantir o faturamento mínimo. Fuça daqui, xereta de lá, orça, orça, arranjou uma molecada nova disposta a deixar o piso em mil reais. Tudo certinho, empregados habilitados e registrados, recibo verdinho da prefeitura. O primeiro carro que eles atenderam foi uma viatura da polícia. A tripulação desembarcou e foi logo avisando que estava tudo irregular com o serviço. Pasmado, o dono da lanchonete argumentou que não era possível, que verificou tudo pessoalmente. Sua Autoridade não fez rodeios: – “O meu, vai por mim que eu entendo das regras: contrata um dos três que já trabalham aqui no bairro que é mais negócio pra você.”

E quem acha que é só o governo nunca visitou um padre. A experiência é válida: vá a  igreja e diga que ser se casar, batizar o filho,  rezar missa de sétimo dia. A secretária do padre, numa dependência da Casa de Deus,  vai cobrar uma taxa e então meter na sua cara um livrinho de fornecedores exclusivos, que vão do florista ao bufê, passando pelo coral e o fotógrafo. Se não for com a turma deles você não casa, seu filho fica pagão e a alma do seu ente querido desamparada. Santa Maria!

Se Deus é brasileiro aprendeu direitinho a tirar sarro da cara alheia.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
8 Comments  comments 

8 Respostas

  1. fernando rebello

    Leo

    Por isso eu digo sempre que o Brasil e uma merda mas e bom, e Londres(onde moro atualmente) e bom mas e uma merda.

    hahaha

    abs

  2. Sensacional Leo! Eu já estive como síndico às voltas com uma adequação do prédio às normas do corpo de bombeiros… vou te contar!

  3. Carlos Hornstein

    Léo,

    Se um dia eu fizer um implante de cabelo mandarei parte da conta dos serviços para a Petrobrás. Por que? – porque parte de minha calva é de sua (dela) responsabilidade. Explico:
    Há anos atrás, dentro da engenharia, fui encarregado de cadastrar uma fabricante de bombas de combustível (de posto de combustível) como fornecedor da BR Distribuidora.
    A papelada exigida era inacreditável! Eu pagava um moleque para dormir na fila da Receita Federal na Rua Teixeira da Silva e log às 7:00 hora estava lá eu com caixas de papelão vindas de um arquivo morto em Jundiaí com Notas Fiscais e DARF’s de até 20 anos antes. Horas depois, o fiscal da como quites – dias depois apareciam mais DARF’s em aberto. A BR era um braço auxiliar da Receita Federal. Depois vinha a Receita Estadual, INSS, FGTS e tudo o mais.
    A bomba é um produto de engenharia que dentro das cidades onde os cuidados ambientais são muito rígidos. Nenhuma mas nenhumazinha questão era levantada sobre o produto-bomba e manutenção. O cadastro era meramente burocrático.
    Por isso rio quando um advogado ou promotor ou delegado diz que a boate ou qualquer outra instalação está com a documentação em ordem. No Brasil acha-se que um papel, um selo, um firma reconhecida, um carimbo, uma certidão resolve tudo. Até na aviação vem alguém e diz que a documentação da aeronave estava OK. Como pode cair, então?- ela não foi segura pelo carimbo? O tabelião vale mais do que qualquer parecer técnico. Vamos colocar um tabelionato ao lado da oficina de manutenção de aviões… e também ao lado do CONTRU.

    • Léo Coutinho

      Pois é, Carlos, foi o que o prefeito de Santa Maria disse ontem: “a documentação que compete à prefeitura estava certa”. Para mim é confissão de culpa. Gordo abraço

  4. Alfredo Pallavicini

    É por isto tudo que não concordo quando uma sua amiga, que de projetos aprovados e executados de construção não deve ter tantos assim lança sucessivos anátemas contra os dirigentes de prestigiosa agremiação quanto às obras feitas antes da conclusão dos trâmites legais.
    Nada é fiscalizado em SP, que dirá nos grotões, com o intuito de adequar, corrigir, legalizar e tornar mais seguro um espaço, um prédio ou o que quer que seja, mas sim apenas e tão somente para….. Bem, não vou concluir, pois não quero ser processado por diligentes fiscais.

    • Léo Coutinho

      Entendo seu ponto de vista, Don Pallavicini, mas são duas coisas distintas, apesar de ambas dependerem dos diligentes…