Blog do Léo Coutinho - Lincoln e Django
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Lincoln e Django

Lincoln e Django Livre se completam. Não são inseparáveis, mas há entre eles uma colaboração mútua. O primeiro trata de política, da emenda constitucional da abolição, e o segundo é uma comédia bangue-bangue, ou um “Southern” sarcástico. Mas ambos são sobre o espírito humano e ambientados nos Estados Unidos escravagista.

O risco do Lincoln atualmente no Brasil é servir de argumento para a defesa dos mensaleiros. O presidente Abraão, determinado a acabar com a escravidão e com a guerra civil numa só cajadada, desconhece os limites republicanos e bota a máquina da Casa Branca para funcionar sem o menor pudor. Analisa o mapa dos congressistas da oposição que não se reelegeram, e portanto estarão desempregados no despontar do ano novo, e autoriza seu secretário de Estado a contratar gente hábil em aliciar esses homens com cargos e até dinheiro vivo. Coincidentemente a primeira oferta é a direção dos Correios.

Outras muitas coincidências se repetem. O partido Republicano pelo qual o seu Abraão se elegeu e que serve de base ao seu governo entra na lista como favas contadas, ou voto obrigatório, de cabresto, sem discussão. No máximo uma esmolinha igual a que por aqui o João Paulo Cunha mandou a própria mulher sacar na boca do caixa.  Os membros do partido Democrata é que vão se lambuzar no propinoduto, alguns contra a vontade de seus eleitores, notadamente latifundiários senhores de escravos do sul americano, exatamente como fizeram os filhotes da ARENA, que vão do PP do Maluf e do PL/PR do Valdemar da Costa Neto ao agora PSD do Kassab, todos outrora conservadores e apoiadores da Ditadura Militar se aliando aos governos petistas.

De um lado o Abraão Lincoln se viu disposto a ignorar os limites republicanos para fazer valer sua vontade e se eternizar, que é viver para sempre. Do outro lado alguns votos que faltavam vieram da vontade de sobreviver no prazo imediato. Sempre haverá esta disposição nos homens, e por isso os fins jamais deveriam justificar os meios. Por maior que fosse a importância de acabar com a escravidão e a guerra, a corrupção é condenável.

De qualquer maneira, a diferença entre a compra da emenda abolicionista no governo Lincoln e o mensalão no governo Lula é básica: nos pratos da balança uma é a favor da Humanidade e engrandece a Nação, a outra envergonha o povo e apodrece o país, simplesmente pela razão mesquinha de ser, porque não servia a mais nada além da anulação do Parlamento.

Para o Django roubar é moralmente inadmissível, mas se for preciso matar para fazer Justiça, tudo bem. Ou melhor: com prazer. Tarantino se supera. Sua fórmula de roteiro onde até a morte do mocinho no meio da fita é possível, diálogos infernais, trilha espertíssima, atenção aos mínimos detalhes, homenagens veladas aos clássicos e clichês do cinema continuam iguais e serão sempre diferentes. A munição sem fim dos caubóis? Está lá. A vontade de contar uma história desconexa? Também. Desenho animado? Várias vezes. O banho de sangue é simbólico, porque sendo negro ou branco tem a mesma cor. E o melhor brinde é o sarro que ele tira da origem da ku kux klan, que está no contexto, mas não faria falta à história. E tem o Christoph Waltz. O compromisso do Quentin Tarantino é com o cinema. Ele se eternizou fazendo o que quis, sem precisar corromper nem ser corrompido.

 
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2 Comments  comments 

2 Respostas

  1. Carlos Hornstein

    Léo,

    Assisti ontem ao filme sobre o Abraão. Como sou muito detalhista boiei em 20% da história mas tentarei ler a respeito para me esclarecer. Digo que quando saí do cinema pensei exatamente igual a você a respeito do Mensalão.
    Realmente existem diferenças de situação. Os EUA estavam em uma guerra civil que matou, parece, 1/4 da população masculina – foi uma das piores da história.
    O assunto referia-se “apenas” à Abolição da Escravatura com todas as consequências, humanas, de direito, econômicas, sociais, ideológicas, antropológicas e todas as demais “lógicas”possíveis. Aqui não há guerra civil, o tal partido “perseguido” pelas elites está há apenas 10 anos no poder com chances enormes de ficar mais 06; a base de apoio desse governo domina o Congresso totalmente. Só falta a imprensa ficar totalmente dócil; se depender de Nassif, Paulo Henrique Amorim, Franklin, etc. ficará. O mensalão, além de encher os bolsos dos influentes fazia parte de um projeto de poder, apenas.

    • Léo Coutinho

      Também me confundi, Carlos. Há quem garanta que lá não houve grana viva, só distribuição de cargos. Mas não foi o que entendi. De qualquer maneira, o que fica é a máxima: “não há mal que sempre dure”. Gordo abraço