Facebook YouTube Contato

Costurar para fora

O Luis Fernando Veríssimo botou hoje no Estadão uma crônica sobre cinema. Falou do Anna Karenina, do meu xará Tolstoi, que está em cartaz e muito festejado. Elogia a direção brilhante do Joe Wright e encerra o comentário com uma das suas piadas ótimas: entre os méritos do filme está o de ter ganhado só um Oscar.

O gaúcho coloca a russa ao lado da Madame Bovary como as duas melhores adúlteras da literatura. Eu incluiria a Capitu, até por conta da incerteza, que é a parte mais cruel do adultério. Corno sabido é fácil de resolver: morte ou perdão. A dúvida é torturante. E o meu jeito de ver Anna Karenina é diferente. Enxergo antes uma crítica à relação entre as classes do que entre homens e mulheres.

O Leon Tolstói quer nos convencer que só os ricos pulam a cerca, que a sofisticação é o mal do mundo e a vida simples sua salvação. Como se o que faz alguém mijar fora do pinico seja a vida em sociedade, que se o distinto topou ir a um sarau e achou normal a própria mulher dançar três músicas seguidas com um forasteiro charmoso não possa mais tarde sentir dor quando o chifre desponta. É uma ótica bocó e preconceituosa, como se o peão gavião não comesse a mulher do compadre depois de duas ou três umbigadas.

Para mim o que pega na obra é a conversa entre o capataz e o fazendeiro que insiste em trabalhar o campo de foice em punho, suando a camisa e calejando as mãos ao lado dos trabalhadores. Na cabeça do empregado isso é um desrespeito ao desígnio Divino, que fez as pessoas como elas são e devem continuar sendo. E além desrespeito para ele é um perigo, porque na base do “mais vale um pássaro na mão do que dois voando”, ele prefere ser  empregado para sempre do que se arriscar entre uma vida mais ou menos segura e confortável.

Qualquer semelhança entre a PEC das Domésticas não é mera coincidência, a não ser pelo século que separa as discussões.  Aqui no Brasil ainda sofremos o Complexo de Sinhazinha, segundo o qual as domésticas migram dos rincões para a cidade atrás do sonho de trabalhar para o que se chama de elite, não por sobrevivência, progresso, desenvolvimento, mas qual escrava ama de leite que se orgulha de dividir o peito com o filho de quem a açoita.

Outro filme que está na mesma linha é o documentário Fora do Fugurino. Mostra tecnicamente que as nossas maiores riquezas, notadamente a miscigenação, a prontidão e outras bossas são também os nossos maiores custos. A mistura de raças foi ajudada pelo jeitinho, mas hoje sofre com ele pela falta de qualquer padrão, no tamanho das roupas, dos carros, das camisinhas. Daí vem o João Sayad e profetiza o óbvio: “um dia seremos tão ricos que refazer a barra da calça será mais caro do que a própria calça, e então investiremos na concepção do padrão”. Desse dia em diante o termo costurar para fora vai mudar, de um jeito e de outro.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments