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Passagem

Em tese a Páscoa é a festa mais importante do catolicismo. Está certo que na prática perdeu muito espaço para o Natal, mas um analista diria que “só em números absolutos”, porque proporcionalmente continua firme e com muito mais significado.

O Natal já é quase uma obrigação social. É claro que há quem leve a sério, mas em maioria vamos uns aos outros sem saber por que, sempre que possível carregando uma “lembrancinha”, em movimentos vazios que prejudicam a confraternização.

A Páscoa, não. Nesta nos reunimos por princípio, sem obrigação nenhuma, e com a mania das dietas até os ovos de chocolate vêm perdendo espaço no cesto. Fica no ar um clima íntimo, diferente do Natal, onde os votos vão e vêm quase que automaticamente.

Os ovos e os coelhos simbolizam a fertilidade. Aquela história de ver o coelho na lua cheia está relacionada. Afinal, lua cheia também entra no pacote. E a fertilidade quer mais uma vez lembrar a vida, o renascimento, a passagem, que é a tradução exata de Páscoa. O meu mau-humor diria que este feriado significou o renascimento do verão, com a volta das altas temperaturas que tinham dado uma trégua. Mas a minha boa vontade quer olhar só para o renascer do catolicismo através do papa Francisco, este boa-praça formidável.

Houve quem protestasse perante a cerimônia do lava-pés, notadamente por serem pés marginais. Eu não. Gostei e muito. Independentemente se aqueles delinquentes italianos voltarão a transgredir, a humildade esteve muito bem representada pelo gesto, que sempre fala mais do que o sermão, e de quebra ainda mandou um recado: vergonhoso é comer fois-gras na casa de gente corrupta, que rouba entre outras coisas a oportunidade de ser bom de cada jovem internado.

Quando assumiu o papa Francisco disse em plena Capela Sistina que a Igreja Romana tem que se concentrar no Evangelho de Jesus Cristo, sob o risco de se tornar em uma ONG piedosa. Foi a maneira macia de dizer que não vai ceder na proibição da camisinha, do casamento gay e de temas mais polêmicos, como aborto, eutanásia.

Olhando para o costume atual podemos ver que a igreja não assim tão intransigente. Não faz tempo o Tríduo Pascal encerrava a Quaresma, período em que os católicos todos não comiam carne vermelha por quarenta dias. Mais recentemente deixaram pela Semana Santa. Hoje é só a Sexta-feira e não demora o almoço será a conta. Até porque restrições dessa natureza não combinam com um mundo onde tantos passam fome. Pois que a maleabilidade acompanhe as demais mazelas sociais sempre que possível. O mundo precisa dessa passagem.

 
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