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Pietá

Numa comparação à violência das guerras, a obra do Quentin Tarantino seria uma batalha greco-troiana, com corpos dilacerados, cabeças esmagadas a marteladas, animais degolados, montes de mortos espalhados pelo campo, açudes de sangue, num clima que oscula o deboche diante da carnificina.

Perto disso, qualquer guerra hoje parece fria. Homens matam uns aos outros a uma distância higiênica, e por isso muito mais cruel. Esta violência indiferente é a que mais me assusta. Estamos na iminência de uma guerra que pode ser nuclear por causa de um lunático que considera deflagra-la “por acidente”. É como se o outro não importasse. E este desdém pela vida refletido no cotidiano do homem comum está em Pietá, filme do diretor sul-coreano Kim Ki-duk.

Frio e muito forte, mereceu só uma ou duas janelas na programação paulistana. Mesmo sendo teimoso, ou acomodado, por duas ou três vezes pensei em deixar a sala. Mas a insistência compensou. É uma das melhores fitas de todos os tempos, um roteiro fantástico mas absolutamente crível, infelizmente, porque retrata a crueldade contemporânea, a banalização de tudo, a indignidade na vida.

É a história de um agiota literalmente inanimado, porque da vida não recebeu nada e por ela não tem respeito algum. É um selvagem urbano, a quem apenas a própria sobrevivência importa. Não há nele nenhuma emoção aparente, ou pelo menos não até o primeiro carinho, o primeiro cuidado, o primeiro cafuné.

O calor humano é transformador. Quem já pessoalmente viu a Pietá, do Michelangelo, garante que há no mármore pelo menos 36 graus centigrados. O amor da mãe brota no filho, seja ela a progenitora, uma ama de leite ou uma estátua de pedra. E é assim porque não quer nada em troca.

Talvez o que esteja faltando ao mundo seja esta noção, de que tudo está interligado, que sempre haverá recompensa, que somos todos frutos uns dos outros, pais, mães, filhos, irmãos.

 
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2 Comments  comments 

2 Respostas

  1. Léo Coutinho

    Discordamos em parte, don Pallavicini, mas sempre é agradável a sua participação.

    • Alfredo Pallavicini

      É óbvio que gostos são gostos. Agora, naquele tempo em que a obra de arte era destinada a celebrar o comitente e não o artista, estes eram infinitamente mais competentes.
      Mas não creio ser possível contestar que as soldas das aludidas “esculturas” seriam razão suficiente para reprovar um primeiranista do Senai.
      Mas, unanimidade é aborrecida, é melhor termos pontos de respeitosa discordância!