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Calçadas em calamidade

Na terça-feira que passou fui à Câmara Municipal assistir pessoalmente a audiência pública sobre calçadas convocada pelo vereador Andrea Matarazzo. Pedestre e eleitor dele, queria ver pessoalmente as autoridades e a sociedade discutindo este tema que é urgente.

Abro parênteses para anotar uma má impressão sobre a o Palácio Anchieta: a meia-dúzia de redes de internet sem fio que está pelos corredores da “casa do povo” é protegida por senha. Não seria óbvio que pelo menos uma fosse aberta ao povo que lá vai assistir as sessões, participar de audiências, cobrar seus vereadores? Presidente José Américo, por favor.

Basicamente a ideia era contrapor as propostas do Haddad e do Andrea. O prefeito entende que a calçada é privada e portanto de responsabilidade do proprietário do imóvel adjacente. O vereador enxerga as calçadas exatamente como as ruas, corredores de ônibus e ciclovias, isto é, como vias públicas, e assim responsabiliza o poder público pela sua reforma e manutenção.

Aqui temos 35 mil km de calçadas. Dizer que fora dos três quilômetros da Avenida Paulista todas as outras estão entre ruins e péssimas não seria exagero. Posso falar do meu bairro, por onde ando diariamente: até as “boas” são ruins. O melhor exemplo é a Rua Cristovão Diniz, onde tudo é muito bonitinho, mas não funciona. Com canteiros bem cuidados dos dois lados, o espaço que sobra para quem passa a pé é insuficiente para mais de uma pessoa. Esses carrinhos para dois bebês perfilados também não passam. E o piso de paralelepípedo é lindo, mas irregular, e se maltrata os carros, imagine o pedestre, que não tem amortecedor. E os cadeirantes? Bom, para eles São Paulo é literalmente uma cidade proibida.

A deputada Mara Gabrilli também estava por lá. Ela é seguramente uma das pessoas que mais entende do assunto. Quando foi secretaria municipal para Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida fez um estudo sobre os deslocamentos a pé na cidade e chegou a uma conta animadora: adequar 10% das calçadas da cidade resolve o problema de 90% da mobilidade. É isso mesmo, porque a maioria das calçadas só é usada pontualmente, o grande fluxo de pessoas está concentrado em poucas delas. E o custo? Algo em torno de 120 milhões de reais. (O orçamento da prefeitura para 2013 é de R$ 42 bilhões.)

Ainda assim, o prefeito Haddad insistiu, articulou sua base parlamentar e fez valer o seu projeto, que mais do que deixar o problema como está, agrava, porque empurra com a barriga. Parece impossível faze-lo entender a lógica: em relação ao passeio público só o poder público têm as ferramentas necessárias para resolver o problema: poder, técnica e dinheiro. As estradas podem ser privatizadas. O Metrô pode ser privatizado. As calçadas devem ser públicas. Só na cabeça do Haddad as calcadas são privadas.

 
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2 Comments  comments 

2 Respostas

  1. Carlos Hornstein

    Léo, na cabeça do Haddad e de todos os prefeitos desde Anchieta, erradamente na minha opinião que segue a sua.
    Aqui em Melbourne todas as calçadas além de limpíssimas, etc.são asfaltadas. Se o asfalto suporta cargas altas por que não um pedestre?

    • Léo Coutinho

      Carlão, você ia gostar da audiência pública: calçadas padronizadas (de asfalto ou concreto permeável, como as do Parque do Povo) foram as sugestões do Andrea Matarazzo, que por sinal dez isso na Paulista quando foi subprefeito. O Haddad e sua base, porém, preferiram manter o pout-pourri.