Facebook YouTube Contato

À beira de um derrame

De vez em quando emerge a imprensa policial sensacionalista. Sempre há gente talentosa para fazer, como no caso do Notícias Populares e suas manchetes cultuadas. Dizia-se dele: se espremer sai sangue”. A minha impressão é que só há espaço para sensacionalismo quando falta notícia de verdade – que definitivamente não é o caso atual.

Ontem escrevi sobre os abusos das polícias paulistas. Publiquei e saí para um compromisso. Antes de chegar ao destino o texto já estava vencido: no facebook li e vi imagens da tropa de choque dispersando um bloco de carnaval que saiu para brincar pela Vila Madalena no domingo dois de fevereiro. Quando o Sérgio Cabral proibiu manifestações de mascarados nas ruas do Rio a primeira piada foi sobre o carnaval, que afinal não pode ser de outra maneira. E justamente em SP, “o tumulo do samba”, é que ela foi se realizar. Triste ironia do profetinha Vinicius de Moraes.

No mesmo facebook, pela página de algum jornal, chega outra notícia: filho e neta de Alckmin sofrem tentativa de assalto e ficam no meio de um tiroteio. Hoje sabemos que é muito mais grave, que se admite a ideia de tentativa de sequestro e até de morte encomendada. O relato dos policiais que faziam a segurança do filho do governador é claro: os quatro meliantes saltaram do carro fortemente armados gritando “mata, mata!”.

Num país onde a cada hora que passa mais de dez pessoas são assassinadas ou estupradas, onde decepar cabeças nos presídios é algo comum, publicar índices de violência não significa mais nada. Não há sequer papel jornal para embeber em tanto sangue. E mesmo assim as páginas policiais continuam a surpreender. Não pelo sangue corrido de todo dia nem pela exceção como a de um filho transtornado que mata o pai. Mas pelo sangue que corre nas veias da população e ainda está por vir. As notícias de ontem para hoje servem para medir o pulso da sociedade:

No Rio, bairro do Flamengo, um rapaz de quinze anos encontrado nu e preso pelo pescoço a um poste com uma trava de bicicleta depois de ser linchado a pauladas. De tão machucado nem conseguia falar. Testemunhas justificaram a surra dizendo que o moço era trombadinha e censuraram a filóloga Yvonne Bezerra de Mello, de 67 anos, que o socorreu.

Em São Paulo, região da Avenida Paulista, uma gangue juvenil matou um homossexual a golpes de skate. (na semana passada outro foi encontrado morto no Centro com todos os dentes arrancados.)

Wagner da Costa, presidente da Gaviões da Fiel, comenta a invasão e vandalição do centro de treinamento do Corinthians para quebrar as pernas de alguns jogadores: – “A violência está espalhada em toda a sociedade. Quem já não deu um murro na cara do outro?

Em Brasília o vice presidente da Câmara Federal, deputado petista André Vargas sugeriu dar uma cotovelada no presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa.

A pressão do sangue não tem como ser muito maior. Estamos literalmente à beira de um derrame.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments