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A âncora e a onda

Raquel Sherazade, âncora do Jornal do SBT, se transformou em símbolo da intolerância atual no Brasil. Mas por quê, se a mesma emissora exibe, por exemplo, o Programa do Ratinho, que diz coisas ainda mais graves do que supor compreensível a atitude dos “vingadores” que lincharam e acorrentaram nu a um poste aquele “marginalzinho”?

É a tal da expectativa. A figura caricata do apresentador Carlos Massa enlouquecido com um porrete no palco que divide com outros personagens grotescos não choca quando diz entre perdigotos mil que está esperando os marginais para um confronto direto na porta da emissora. Tudo é parte do mesmo show. Mas quando uma jovem senhora ocupa o lugar que já foi do Boris Casoy para defender que a população adote o olho por olho, dente por dente, a audiência custa a acreditar no que está ouvindo. E tanto faz se o telespectador é contra ou a favor: o inusitado, qual um arrecife artificial, aumenta a onda.

O tamanho da onda será determinado pelas circunstâncias, principalmente pelo clima e pelo lugar. E não é preciso enxergar demais para ver que o Brasil atual caminha para um tsunami social. As pancadas em pontos isolados já acontecem diariamente.

As notícias a seguir são de ontem: vinte mil Sem Terra foram à Brasília protestar na Praça dos Três Poderes e ameaçaram invadir o Supremo Tribunal Federal, que acusam de fazer julgamento de exceção no caso do mensalão. As sedes dos poderes vizinhos também foram notícia. A presidenta da República nem foi ao Planalto. Avisada da manifestação, refugiou-se em casa.  E no Congresso Nacional o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) deu longa entrevista aos jornalistas interessados em saber suas propostas para a presidência da Comissão de Direitos Humanos. A parte mais polida foi quando se referiu a homossexuais como gente que “faz sexo pelo órgão excretor” e definiu o presídio de Pedrinhas como a única coisa boa do Maranhão. Daí para frente é impublicável.

Em Jacarepaguá, no Rio, a comunidade Bateau Mouche está há duas noites nas ruas protestando contra a morte de um membro. Fecham ruas, depredam lojas, tentam incendiar ônibus. Pelo menos duas pessoas já foram baleadas e ontem uma morreu.

Em Rio do Macacos, na Bahia, quilombolas vêm se estranhando há tempos com oficiais da Marinha que servem numa área que dá acesso à comunidade. Tanto que um dos seus líderes apelou à presidenta Dilma por atenção à iminência do conflito. Ontem chegaram à vias de fato. Um vídeo de segurança mostra os irmãos Rosemeire e Edinei dos Santos sendo agredidos por quatro militares. Um deles chega a sacar uma arma. As filhas dela, de dezesseis e quatro anos de idade, presenciaram a cena.

Na Praia Grande, litoral de São Paulo, um garoto de cinco anos foi posto de castigo na rua, pelado e sob um sol de quarenta graus, ao lado do colchão que mijara à noite. Ficou por lá durante três horas, sob o jugo dos próprios pais, até que a urina secasse completamente.

Nas redes sociais são cada vez mais comuns vídeos de gente com feridas abertas, se esvaindo em sangue, e no lugar do horror que um dia causaram, as imagens provocam torcidas, com compartilhamentos, curtidas e comentários apaixonados de pessoas tidas como civilizadas e aparentemente sensatas, como a âncora do SBT.

O tsunami se aproxima. E é de sangue, não de água.

 
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1 Comment  comments 

Uma resposta

  1. Deborah Zoppi

    Chorei quando li o que os pais fizeram com essa criança! O que êh isso? Que pais são? Meu Deus!!