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50 anos esta noite

Hoje, às 19h00, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, José Serra autografa seu livro de memórias sobre o golpe de 1964, batizado 50 anos esta noite, em alusão evidente ao 30 anos esta noite, do Paulo Francis.

Ainda não peguei o do Serra, mas o do Francis é uma revisão crítica do que a ditadura militar fez da geração deles, uma transição para o que ele chama de “vida adulta”, mas na verdade o fim trágico da esperança, sequestrada, torturada, abatida à bala.

E como o mal não pode ser subestimado jamais, a constatação é que pouco ou nada aprendemos com aqueles vinte anos de amargar. A gigantesca camada de chumbo sobre a liberdade sufocou, mas não serviu para tornar definitivo o horror das pessoas ante o autoritarismo.

Como dizia o marqueteiro do Bill Clinton, “é a economia, estúpido”. E nos últimos anos, enquanto ela foi bem, com o continuísmo do Plano Real e o mundo navegando com tranquilidade, nós brasileiros, comprando carros, trocando geladeira e passeando de navio, toleramos tudo, elegemos e reelegemos governantes que aparelharam o Estado, alugaram partidos com o mensalão, tentaram anular o Congresso, perseguiram adversários como se fossem inimigos, avançaram contra a liberdade de imprensa. Uma reedição torpe do Milagre Brasileiro.

Mas tudo na vida tem o lado bom e o da economia estável é gigantesco. FHC é sociólogo, não economista, e sabia que o Plano Real era o melhor caminho para instituir a democracia. Se na bonança somos levados à comodidade, na desesperança sequer conseguimos parar para pensar em algo além do pão. Quem pode ser cidadão com a inflação acabando com o salário na metade do mês? Quase vinte anos de inflação controlada deram aos brasileiros noções de direitos e deveres que antes ignorávamos. E agora que ela volta a ser uma ameaça cada vez mais iminente, exigimos mudança de rumo – e de comando.

Às vezes me pego chorando o leite derramado e pensando onde o Brasil estaria se o José Serra tivesse sido eleito presidente em 2002. Tenho certeza que, progressista que é, ele teria dado continuidade ao Plano Real, mas sem a austeridade inexorável ao governo FHC, que enfrentou crises internacionais violentíssimas. Durante o governo Lula, nosso desenvolvimento, comparado aos vizinhos latino-americanos, só ficou acima do pobre do Haiti. Uma década perdida, para usar a expressão do Marco Antonio Villa.

O que faltou em sorte ao Brasil, sobrou em virtude ao Serra. Grande parte das políticas públicas exitosas que conhecemos têm a mão dele. Genéricos, quebra de patentes para remédios contra a AIDS, fim da propaganda de cigarro e posterior lei paulista Antifumo, Cidade Limpa, Virada Cultural, Nota Fiscal paulista, secretaria de atenção à pessoa com deficiência e Rede de Reabilitação Lucy Montoro.

Agora o Serra está nas livrarias. É fundamental que todos leiam suas memórias e análise do que foi a metade de século que passou. Antes e mais do que a luta, o que nos liberta é o conhecimento. E contar com o Serra para isso é um privilégio ao alcance de todos.

 
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