Facebook YouTube Contato

Olacyr, Pessoa e o clube das empreiteiras

Quando morreu o Luís Carlos Prestes o Paulo Francis anotou: “foi simultâneo ao sonho”. A lápide do Velho subia enquanto caía o Muro de Berlim.

No 16 de junho de 2015, simultâneo aos sonhos, morreu o Olacyr de Moraes. O brasileiro mais jovem a ter pessoalmente um bilhão de dólares também era velho, mas seu apelido na noite era mais carinhoso: tio Ôla. Digo que morreu simultâneo aos sonhos porque os assuntos dos quais se ocupou e que lhe deram relevância estão em evidência. Uns mais, outros menos oníricos.

O maior de todos, e que virou pesadelo quando o projeto descarrilhou e praticamente quebrou seu império, foi a Ferronorte, uma estrada de ferro continental que ligaria as regiões Norte e Centro-Oeste ao Porto de Santos, reeditado pela propaganda do governo Dilma2 em versão transoceânica sino-brasileira.

Mais recentemente ele confirmou o toque de Midas descobrindo uma jazida de tálio na Bahia. Trata-se de um metal raro (a única mancha conhecida antes fica entre a China e o Cazaquistão), que não esquenta, e por isso é perfeito para transmissão de energia elétrica em longas distâncias. A usina de Belo Monte, distante dos grandes consumidores, sem tálio será um desperdício ainda maior.

O leitura aplicada do livro rosa das manequins que dormem à tarde, e que vem ganhando manchetes com a nova novela das oito, rendeu-lhe a alcunha de tio Ôla. Circulava rodeado de sobrinhas lindas pelos mais variados ambientes, e sobre elas teria dito: “Seu eu gosto de comer camarão, não me importa se a recíproca é verdadeira.”

A grande comparação contemporânea com a história do Olacyr pode ser a operação Lava Jato. Algo me diz que a invenção da figura do chamado chefe do clube das empreiteiras, Ricardo Pessoa, de modo inverso foi inspirada na sua historia empresarial.

Fundador da Constran Olacyr de Moraes era um empreiteiro paulista, ganhava licitações para obras públicas no estado de São Paulo, mas não conseguia entrar para o exclusivíssimo clube da construção pesada nacional, basicamente constituído por Norberto Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, OAS, Camargo Corrêa.

A ditadura militar incentivava clubes assim. O governo recebia regularmente os maiores empresários da cada setor: empreiteiros, banqueiros, industriais, fazendeiros. A bem da verdade é preciso dizer que com a redemocratização o modelo e os quadros sociais dos clubes tiveram pouca mobilidade.

Sem espaço entre as empreiteiras, Olacyr resolveu virar o Rei da Soja. Em muito pouco tempo, com a infraestrutura que dispunha, abriu a Fazenda Itamarati. Entrou de sola no clube dos ruralistas. Membro da corte e com trânsito livre entre ministros e os generais de plantão, garantiu uma cadeira para a Constran na mesa de bridge – com trocadilho – das grandes obras.

A sacada é clara: em qualquer escala uma fazenda é uma fazenda, o negócio é plantar e colher; já numa construtora há limite, e a partir de um determinado tamanho o negócio passa a ser construir pontes, mas com o governo.

O baiano Ricardo Pessoa começou miúdo na OAS, fez carreira e chegou a diretor e dono da UTC, empreiteira média criada em 1974 pelo grupo Ultra, de combustíveis, e vendida à OAS em 1992. Entre 1996 e 2010, sob Pessoa, o faturamento da UTC aumentou de U$S 80 milhões para US$ 1,5 bilhões, sempre fornecendo para a Petrobrás.

E então veio o pré-sal, semente do pretrolão. Para se ter uma ideia do aumento da profundidade, só a licitação para o fornecimento de 28 sondas de exploração perfurava uma camada de US$ 20 bilhões.

Para se habilitar ao mergulho uma empreiteira precisa ter lastro, isto é, atestados de realizações de grandes obras. A UTC era nadadora de superfície. A Constran, embora sem fôlego desde a derrocada da Ferronorte, preservava as medalhas do passado glorioso. Em teoria juntar as duas era o negócio perfeito. Porém, ante tamanha obviedade, fica a pergunta: por que na prática ninguém fez antes?

Uma hipótese veio com Lava Jato e a denúncia de que Ricardo Pessoa seria o líder do clube das empreiteiras. Mas pela lógica de qualquer clube exclusivo, a conta não fecha. Para ganhar bola branca não basta ter dinheiro, é preciso ser convidado. O último penetra foi o próprio Olacyr e deu no que deu.

A não ser que se inverta a ordem dos fatores. Digamos que o clube, apesar de fechado, já não era a menina dos olhos dos sócios veteranos. A construtora Camargo Corrêa, por exemplo, representa só 20% dos negócios do grupo. Some-se a dificuldade crescente em fazer as operações tradicionais do submundo político-empresarial. Eles próprios já haviam sofrido as assombrações da operação Castelo de Areia. Então por que não convidar um sócio novo e oferecer-lhe a diretoria do clube? Esta pode ter sido a sorte e a sina de Ricardo Pessoa.

Nos clubes, o custo do título é sempre pequeno se comparado à chamada joia, ou prêmio, que é o quinhão de quem já está dentro. Agora sem clube, sem título e sem premio, a Pessoa restou a delação premiada. Caso contrário irá à Sociedade do Sol Quadrado, um clube vasto e cada vez menos exclusivo para pobres coitados.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments