Facebook YouTube Contato

Adeus, Frevo

Em 2011, com a notícia de que o prédio onde o Frevo está desde 1956 seria vendido e a lanchonete terminada, comecei um movimento que a repórter Thais Bilenky, da Folha de São Paulo, apelidou de Beirutaço. Dois outros fregueses aderiram: Diego Badra e Alexandre Pernet. Teve vasta repercussão na imprensa, nas redes sociais e principalmente a comunidade se mobilizou na esperança de salvar uma mordida do que ainda temos de história paulistana.

Gente tão diversa como Paulo Mendes da Rocha, Adriane Galisteu (que começou a frequentar levada pelo Ayrton Senna), Guilherme Afif Domingos, Antonio Prata, Ivald Granato, Janaína Rueda, Walério Araújo e Alex Atala apoiaram a resistência. Um cliente estrangeiro, Duncan Scott Lawrie, disse que “a mudança seria uma tragédia”. Note a freguesia que o Duncan é um inglês, não um latino apaixonado.

Conseguimos? Digamos que respiramos. Aquela primeira negociação morreu e trouxe um sopro de esperança. Mas antes que se revelasse mera quimera, por precaução, pedi o tombamento da lanchonete ao Condephaat e ao Compresp. O primeiro recusou e no segundo o processo continua em aberto. Justificativas para tombar não faltam. Creio que uma cidade desesperada pelo mínimo de patrimônio histórico e cultural, que tombou recentemente a fachada do Cine Belas Artes, por coerência deveria tombar o Frevo.

Dos restaurantes clássicos do Jardim Paulista só o Frevo está preservado exatamente como foi criado há 59 anos. Os marcos históricos são muitos. Foi o primeiro lugar a ter banquetas no balcão, mudando o hábito de comer determinantemente. O nome Frevo, na contramão do estadunidismo que já despontava, foi uma homenagem à brasilidade, e inspirou o arquiteto Antonio Cobal a encomendar do artista plástico espanhol Fernando Odriozola (sala especial na Bienal de 1967) a criação das esculturas alusivas à dança. Isso para não falar do rabo-de-peixe, do capricho, da caneca à moda e do próprio Beirute que sequer as filiais da Augusta e do Iguatemi, consegue imitar.

Recentemente surgiu um novo comprador, Alexandre Lafer Frankel, da construtora Vitacon. O conheci pessoalmente num evento da Folha sobre mobilidade em que palestrou a favor da cidade. Olhando nos meus olhos ele disse que soube da oportunidade de comprar o prédio pelo Beirutaço, e que a história e a presença do Frevo foram determinantes para fechar o negócio. Fiquei tão animado que cheguei tentar frear o pedido de tombamento do Compresp. Não consegui. Também tentei falar com ele, mas não tive resposta.

O proprietário atual, Roberto Frizzo, herdeiro do fundador Geraldo Modesto de Abreu, diz preferir o tratamento de curador ao de proprietário do Frevo, “que é da cidade”. Falei hoje com o Bruno Frizzo, seu filho. Ele me disse que fizeram o possível para permanecer, mas que no esgotamento das possibilidades jurídicas, passaram a procurar uma solução, que veio com a vacância de um ponto do outro lado da rua. Acrescentou que tiveram todo cuidado em tentar reproduzir o espírito do Frevo na nova casa, inclusive com a transferência do acervo, que as condições de trabalho da brigada, assim como a acessibilidade, vão melhorar.

Tenho que reconhecer o esforço, mas não me conformo. Para mim é como se o Monumento às Bandeiras, ficando no mesmo lugar, com o mesmo granito, sem tirar nem por, fosse voltado de oeste para leste. Perderia o sentido. É lamentável. Mas talvez o desprezo pela história e o frisson com o novo estejam no DNA paulistano. O que nos resta?

Em algumas semanas começa uma história nova do outro lado da rua Oscar Freire. Deve ser uma casa boa, com uma das melhores brigadas da cidade. Mas não será o meu Frevo.

ERRATA 2/10/2015: O nome Frevo fo uma homenagem à brasilidade em contraponto ao estadunidismo que já despontava nos anos 1950. O fundador, Geraldo Modesto de Abreu, era paulista de Taquaritinga, não pernambucano.

Atualização: o Alexandre Lafer Frankel, da Vitacon, respondeu dizendo que gostaria de ter falado. Repliquei garantindo que está em tempo e que a página está aberta para ele. E ele não falou mais. Mantenho a oferta. Seria muito bom saber a versão da Vitacon para esse golpe que a cidade sofreu.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
8 Comments  comments 

8 Respostas

  1. Ademar

    Poucas vezes fui ao Frevo. Era cliente assíduo do, então, Frevinho na Rua Augusta, que ficava quase ao lado do meu colégio, o Paes Leme, que ficava onde hoje é a sede do Banco Safra, na esquina da Paulista. O Frevinho também virou Frevo hoje. Numa cidade dinâmica e que não tem como prezar a tradição, devemos dar graças a Deus quando um ícone apenas muda de endereço e não é extinto. O Bar Guanabara saiu da Rua Boa Vista e foi para a Av. São João, no Anhangabaú. O Gigetto saiu da Avanhandava e foi para a Treze de Maio. O Rubayat, há muito tempo saiu da Vieira de Carvalho para a Alameda Santos. O Fasano também abandonou o centro e foi para os Jardins e a unidade Conjunto Nacional foi extinta por motivos óbvios. Triste foi perder o La Coruña e o Massimo. O La Cassarole continua incólume no Largo do Arouche. Pouquíssimos restaurantes no Brasil resistem há décadas. Na Europa, temos restaurantes que já existiam à época do descobrimento do Brasil e que funcionam até hoje! Acho que a questão é mais cultural do que econômica. Menos mal que o Frevo só mudou de número na mesma rua.

    • Léo Coutinho

      De fato é menos mau, Ademar. Apesar de que os restaurantes lembrados sofreram com a decadência do entorno. No caso do Frevo é diferente: o entorno está preservado e a mudança é parte da decadência.

  2. Alexandre

    Muito bacana este movimento de tentar preservar nossa história! Apesar de não conseguir o tombamento. A mudança cultural em valorizar a história é um processo que se constrói com o tempo. Parabéns!

  3. Marcelo

    Pena, frequentava o Frevinho desde o início levado por meus pais.
    Espero o novo Frevinho consiga ser tão iluminado de bons astrais quanto o antigo.
    Boa sorte!
    Marcelo

  4. José María Tesone

    Soy un porteño que frecuenta San Pablo habitualmente. Un día, hace varios años, caminando por Oscar Freire, pasé en frente de Frevo y me dije “aquí se debe comer bien” A partir de ese día, cada vez que viajé a San Pablo era obigatorio ir a Frevo a comer una “salada de palmito, batata frita y rabo de peixe” inmerso en esa estética pernambucana dentro de la gran ciudad.Y era algo que me hacía sentir feliz. Desde Buenos Aires despido a Frevo con tristeza. En mi próxima visita a San Pablo me va a faltar algo