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A Casa do Porco ou o tuiuiú pousou

Quando o Jefferson Rueda sentiu vontade de ir além do Pomodori, usou uma frase de caipira: “Estou me sentindo como um tuiuiú numa gaiola”. O espaço que ele tinha conquistado ali já não era suficiente. Voou.

A próxima escala foi uma volta ao ninho. Entre o Copan e São José do Rio Pardo, colocou massas que só ele sabe fazer no Bar da Dona Onça. Revigorado, foi à luta. Fez um estágio num restaurante estrelado da Espanha onde até caixa de gordura limpou – mas ao contrário do que diria o Guimarães Rosa, mago da literatura caipira, foi “por belezura, não por precisão”.

No voo de regresso surgiu o Attimo. Um lugar lindo, com espaço e estrutura suficientes para um tuiuiú, mas talvez mais adequado a um flamingo. Ambos têm sua graça, só que de alguma maneira o tuiuú não se harmonizava ali. Cada qual tem sem galho. Voou de novo.

Abro parênteses para dizer da minha torcida para que o Attimo continue, oxalá com o mesmo êxito que o novo Pomodori conseguiu.

Para a nossa sorte, o Julio Cesar de Toledo Piza Neto repetiu o Julio Cesar de Toledo Piza Filho e apostou no Jefferson. Que maravilha esse casamento entre as casas Piza e Rueda. Julio pai se associou à Janaína e fez o Dona Onça. Agora o filho se associa ao Jefferson e faz a Casa do Porco.

Estive lá na sexta-feira para a queima de panela. A chegada já é um deleite. A porta ampla na esquina da rua Araújo com a General Jardim foi mantida como que de braços abertos para a cidade. De fronte dela, o pórtico centenário do que foi uma usina de energia que alimentava os bondes do centro no começo do século passado. E por falar em energia, o que tem a General Jardim? Notadamente aquela primeira quadra, com o pulsar da Escola da Cidade, a boemia do Jazz B e o IAB ao fundo, qual uma meca para a peregrinação cotidiana de arquitetos e urbanistas.

O salão, aparentemente urbano, poderia estar em qualquer cidade grande do mundo, como parece estar na capital paulista. Mas está no interior. No mesmo ambiente da cozinha, como numa casa caipira, tem balcão pra todo lado e as indefectíveis tiras de náilon nas cadeiras para amparar a prosa da freguesia.

E mesmo com todo esse cenário a comida brilha mais. Dois fornos à lenha preparam inteiros o Porco San Zé, dourado e suculento como a Helô Pinheiro dos melhores anos. Nas releituras, sempre arriscadas, também há brilhantismo. Do sushi de papada de porco ao pig tartar, que é um sanduíche Blumenau contemporâneo. E sendo o chef quem é, no carbonara ele sapateia, perfeito para aquele carboidrato derradeiro que o Bento Mineiro não dispensa, antecedendo as sobremesas da Saiko Izawa, que também cuida da padaria. Para terminar vem o queijo da Cuesta, região única no mundo, feito do leite de vacas indianas e portanto sagradas que ainda o Bento cria em Pardinho.

Bom, uma vez o Jefferson me disse que antes de entrar num boteco de interior a gente deve verificar se há açougue e pararia por perto. Elementar: são eles que garantem metade do trabalho. A Casa do Porco tem tudo isso: está no centro do interior e é ao mesmo tempo bar, açougue e padaria. Senhoras e senhores, o tuiuú pousou.

 
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2 Comments  comments 

2 Respostas

  1. Excelente artigo. Deu saudade da roça . E fiquei feliz pela citação das vacas indianas. Faltou dizer que são todas da raça Gir, e muitas delas são da nossa parceria Rio Vale & Família Mineiro.
    Parabéns !!

  2. Léo Coutinho

    Obrigado, Carlos. Duas vezes: pelo elogio e pelos acréscimos.