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Que horas ela volta?

Sobre o Que horas ela volta?, acho que sou o lanterninha. Só assisti ontem. Mas talvez o adjetivo não caiba, porque o lanterninha do cinema é um dos primeiros a assistir. Ou deveria ser, de acordo com o filme e com o bom-senso.

Além de ver, todo mundo já falou sobre a fita. Elogios rasgados aqui e alhures. Tudo merecido. Sutil, lúdico, divertido. Caminho perfeito para castigar os costumes, como gostaria o Molière.

Saí do cinema e passei na padaria. Antes, numa banca de jornal, ainda ouvia os diálogos. Eram tão claros. A Val continuava falando. Eu não estava louco: o DVD pirata estava na TV que entre tanta coisa exposta fica escondida. O jornaleiro confirmou e um guardador de carros entrou no assunto. Queria saber se a empregada doméstica era maltratada. Respondi que ela achava que não, mas que sua filha achava que sim. Melhor seria ele ver o filme. Então ele falou qualquer coisa sobre o Oscar e se aproximou da banca para assistir. Quando o jornaleiro disse que eram uns milionários o guardador rebateu: “Milionários com esse carrinho? Milionário tem Mercedes”.

Exato. A família dona da casa não é milionária, mas de classe média, e consome o que deveria ser o piso para todos. Um estatístico de plantão poderá dizer que não é verdade, que segundo seus cálculos os pais do Fabinho são da classe A. Fazer o que?

Minha impressão é que financeiramente a Val está mais próxima do Carlos do que o Carlos está do Jorge Paulo Lemann. A aproximação cultural da Jéssica é que causa vertigem social na Bárbara. Isto é, o Fabinho pode ir e vir tranquilo da edícula enquanto não perder o lugar. O diabo é quando a Jéssica se torna uma ameaça.

Na vida real é mais ou menos assim: A patroa dá uma festa para comemorar o bom trabalho do headhunter (pago pela caça para ficar na frente do caçador) que arranjou um emprego melhor para o seu marido. Mas se sente traída, usada e abusada se a vizinha fizer uma oferta pelo trabalho da sua empregada. Sua mesmo. Há sentimento de posse. Vem do chamado Complexo de Sinhazinha.

Lamentável é esta maravilha de obra chegar simultânea à destruição de todas as bases econômicas e sociais que começaram há mais de vinte anos, e que atrasarão com a informalidade em outros muitos anos a consolidação da PEC das Domésticas.

O guardador de carros está flanelando porque perdeu o emprego no começo do ano. O jornaleiro acha que vender DVDs piratas é uma corrupção menor, irrelevante. E as clientes da Val estão cancelando as massagens. Ela virou diarista para sustentar o Jorge.

 
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