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A discussão impossível

Política, futebol e religião ficaram estacionados. O debate impossível na atualidade se dá em torno dos carros. Com mais ou menos um século de história, a indústria automobilística conseguiu – assim como o futebol – formar uma legião de seguidores apaixonados, fiéis empedernidos que não admitem a alternativa de vida além das quatro portas.

O sentimento é forte, tão forte que estrangula inclusive o debate sobre outras questões fundamentais. Saúde, por exemplo. Já descontada a poluição e os acidentes, as consequências naturais da epidemia de congestionamentos são a maior causa de sedentarismo, hipertensão e infarto no mundo. Quem diz é o professor Paulo Saldiva, da USP, especialista em doenças causadas pelo trânsito. Em números absolutos a dependência do automóvel mata mais do que a cocaína.

Por falar em drogas, o debate sobre a descriminalização também é impossível com os carroadictos. Encapsulados, eles simplesmente não conhecem as cidades onde vivem. Se você diz que no centro expandido de uma metrópole como São Paulo a maconha já é consumida livremente pelas ruas eles simplesmente não acreditam. É compreensível, porque com os vidros fechados não têm como saber. Mas a verdade é esta. Fumar maconha só é crime nas periferias. Entre os ricos, mais do que tolerada, está completamente legalizada.

Um assunto puxa o outro. Habitação e mobilidade urbana estão entre os principais problemas das periferias. Na capital paulista milhões de pessoas vivem em áreas irregulares, distantes de onde há atividade econômica e empregos, e portanto condenadas a jornadas diárias subumanas. Enquanto um em cada quatro tijolos assentados se destina a casas para carros, mais conhecidas como garagens, quando se propõe o adensamento populacional para resolver o problema o carroadicto não entende. Porque ele enxerga mais carros e não mais pessoas. Não realiza que o adensamento significa encurtar distâncias, ampliar a qualidade de vida, as possibilidades do transporte coletivo, de lazer, de trabalho e distribuição de renda. Simplesmente porque para ele a vida sem carro não pode ser.

Se o assunto é economia, grande parte da política nacional para empregos está em apoiar a indústria automobilística como se não houvesse amanhã – e sempre descuidando da contrapartida. Do ponto de vista do consumidor, parece ineficaz mostrar que a compra de um carro é o pior investimento que se pode fazer. Há quatro anos escrevi para a revista Amarello um texto chamado Missão 14 mil. Quatorze mil reais era, em 2011, o valor médio de desvalorização anual de um carro zero quilômetro, de acordo com o professor Samy Dana, da FGV. Convidei cinco meninas descoladas a dizerem o que poderiam fazer com esse dinheiro em suas áreas: artes plásticas, design, moda, turismo e gastronomia. As respostas estão neste link. Clique e imagine o tamanho do seu prejuízo.

A nova utopia é, portanto, vencer esta barreira da discussão impossível. Fato é que não dá mais para pensar a vida de dentro do carro. E ainda que as cidades tivessem por onde ampliar suas estruturas viárias, o que seria da vida humana soterrada em mais asfalto e concreto? Seria a morte em vida.

 
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