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Dois Cunha

Gilmara Cunha, moradora do Complexo da Maré, Zona Norte do Rio, receberá no dia oito de dezembro de 2015, da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, a Medalha Tiradentes, mais alta honraria fluminense, por serviços prestados à comunidade. Cunha é transexual e ativista LGBT, foi coroinha, passou a adolescência numa fraternidade católica, é conselheira nacional da juventude e trancou a faculdade de psicologia para se dedicar à ONG Conexão G.

Eduardo Cunha, morador da Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, foi eleito presidente da Câmara dos Deputados em 1º de fevereiro de 2015 para mandato de dois anos. Cunha é deputado federal, evangélico, foi estafeta, se formou em economia, operou no mercado financeiro, exportou carne moída para a África, presidiu a Telerj durante o governo Fernando Collor por indicação de PC Farias e foi líder da bancada do PMDB na Câmara.

Em 2006 Cunha fundou a ONG Conexão G, pioneira em dar voz ao movimento LGBT nas favelas, ambiente notado pela ausência do Estado, onde as leis são feitas e aplicadas pelo poder paralelo, segundo ela “machista, sexista, homofóbico, transfóbico”. Sofreu discriminação mas perseverou e hoje organiza paradas LGBT com trio elétrico e trinta mil participantes dentro da favela. Porém sabe que sua agenda é pelo direito de existir: “Na favela não se pode dar um beijo ou andar de mãos dadas. Quem é gay, lésbica ou transexual de território de favela não usufrui dos avanços que os LGBTs do país vêm experimentando. Não lutamos para adotar um filho. Ainda estamos lutando para sobreviver”, disse à BBC Brasil.

Casado pela segunda vez, Cunha tem cinco filhos, gosta de bons restaurantes, vinhos, charutos e carros esportivos. Tornou-se evangélico há quinze anos. Segundo a Folha de São Paulo, na campanha para presidente da Câmara “pediu votos para ‘se Deus quiser’, estar em consonância com a sociedade no comando da Casa”. Autor de legislações antiaborto, contra a legalização da maconha e o casamento de pessoas do mesmo sexo, a favor do Dia do Orgulho Hétero e da lei contra a heterofobia, acredita que a consonância social siga esta agenda.

Há quem diga que Gilmara é de esquerda e Eduardo, de direita. Também há quem diga que a livre iniciativa, como a da Gilmara, é de direita, e o apreço pelo Estado, do Eduardo, de esquerda. Assim como não falta quem considere a Maré da Gilmara de esquerda, e a Barra do Eduardo, de direita. Mas não seria a favela, território absolutamente alheio ao Estado, um feudo da direita? E a Barra, com ampla presença do Estado, seria o sonho da esquerda?

Gilmara luta pelo respeito aos direitos individuais. Eduardo legisla para que o Estado possa arbitra-los. Dois lados, dois Cunha e a pergunta: o que seria esquerda ou direita?

Crônica publicada na revista Amarello #22 DUPLO

 
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