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Delcídio, eu e o tiramisu

Em 2012 fui convidado para ser jurado do Prêmio Paladar Estadão. Recebi como um presente. Minha tarefa era experimentar sessenta pratos de alguns dos melhores restaurantes de São Paulo em dois meses. E ainda vinha um cartão com crédito suficiente para a despesa.

Na lista obviamente estava o Fasano. Eram quatro os pratos. Pela ordem: tartare porcini ao creme de parmesão; picci ao vôngole, brócolis e peperoncino; codorna recheada com pão e lardo acompanhada de gratinado de couve-flor; tiramisu montado feito a Torre de Pisa.

Sendo um jantar completo, da entrada à sobremesa, reservei a noite toda para me dedicar ao Fasano (em alguns casos os restaurantes tinham um só prato, então eu comia a entrada em um e o principal num próximo). Cheguei antes da minha Neguinha, fiquei aproveitando o bar, a lareira, o piano. E de repente uma cabeleira branca que eu conhecia de algum lugar.

Quando fomos ao salão caiu minha ficha. Era o senador Delcídio do Amaral, com a mulher e um casal. Naquela semana todos os aplausos iam para o ministro Joaquim Barbosa, que mandava a quadrilha mensaleira para a Papuda. Comentei com a minha Neguinha: “devo cumprimenta-lo. Ele foi feito presidente da CPI dos Correios pelo PT para engavetar o processo, mas não fez. Pelo contrário, garantiu o rito, as convocações, e hoje não é lembrado.” E ela: “Não se atreva. Não me mata de vergonha. Bem ou mal é gente do partido dele. Não vai dar certo”. E eu, que sou soldado, obedeci.

Quando só faltava o tiramisu para cumprir a tarefa notei que o grupo do senador já tomara o café, mas continuava conversando. E isso coincidiu com vontade de ir ao banheiro. Fui e, na volta, algo mais forte do que eu me arrastou até a mesa onde estavam. Me aproximei e disse: “Boa noite, o senhor é o senador Delcício do Amaral?” Todos ficaram lívidos e ele se limitou a dizer sim. Continuei: “Muito prazer, me chamo Léo Coutinho, sou tucano de São Paulo e, essa semana, sempre que aplaudo o ministro Joaquim Barbosa, dedico as primeiras palmas a você, que garantiu a CPI sem a qual não haveria julgamento no Supremo.” Ele se levantou aliviado e agradeceu repetidamente. Sua mulher ficou emocionada, os amigos idem, e as mesas ao redor ensaiaram uma salva de palmas.

A aflição então passou a ser minha: como voltar e encarar minha Neguinha depois da insubordinação? Porém, graças ao tiramisu que já aterrissara, ela estava calma.

Hoje o Brasil amanheceu com o senador Delcídio na capa da Istoé. No recheio, a colaboração com a Justiça que entrega Lula e Dilma, explodindo o lulopetismo. Sei que o homem não é santo, mas estou batendo palmas para ele mesmo assim. É o velho ditado: Deus escreve certo por linhas tortas. É a vida.

Infelizmente não estou em condições de celebrar com um novo ágape equivalente no Fasano. Mas quem sabe não passo por lá pelo menos para um tiramisu?

 
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