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A improvável reinvenção do guarda-chuva

O professor Valter Caldana conta pelas redes sociais que, numa aula de desenho industrial, propôs uma moratória para cadeiras, sob a lógica de que tudo o que precisava ser criado já estava.

Na mesma linha, meu amigo Jorginho Gondor, artista que transforma madeiramento antigo em assoalhos fantásticos, há anos disse a mesma coisa sobre bebidas: “não precisamos inventar mais nada”. No máximo, descobrir uma ou outra mistura nova.

Mas nem todos os temas precisam da vastidão e da profundidade das cadeiras e bebidas para se encerrarem. Ou pelo menos eu pensava assim.

Guarda-chuva, por exemplo. O bom a gente sabe qual é. Suas variações se mostraram ridículas e/ou inúteis, como aquela em forma de chapéu que surge nas multidões – até porque individualmente ninguém usaria; oremos. Ou os escamoteáveis, que para atender a vontade do sujeito se livrar de carregar um trambolho, também o livra da primeira qualidade, que é guardar chuva.

Tão básico, tão lógico, o guarda-chuva ideal parecia definitivo. Permitia, no máximo, diferenças de acabamento. Oito varas, como exige o Julinho Toledo Piza. Ou o cabo em cana da Índia, ainda do Julinho, porém em momentos poéticos-aristocráticos. Desses, quem tem, não usa se não para enfeitar o bengaleiro. Para sair, preferem o chinês de dez reais.

Foi outro professor, o Heraldo Tino, quem notou: o guarda-chuva é a imagem mais à mão do capitalismo de Estado da China socialista. Isto é: produzem e vendem para o mundo inteiro, e com tal voracidade que anularam a noção de propriedade. Guarda-chuva hoje é igual a Tereza da Praia: não é de ninguém.

Até que veio o 2016 com seu caráter surpreendente, e na Alemanha reinventaram o guarda-chuva. A novidade chama-se Suprella. Basicamente é um guarda-chuva que abre invertido. Nunca peguei na mão, mas os vídeos na internet são autoexplicativos sobre todas as vantagens. Entrar e sair de qualquer ambiente, dar carona e, mais que tudo, continuar guardando a chuva depois de fechado, posto que a parte molhada fica para dentro. Algo óbvio, genial.

Como se não bastasse, acrescentaram melhorias: mais resistência, proteção contra radiação solar e até uma certa nanotecnologia que repele a água. Esta última, com o perdão do trocadilho, parece cascata. Ah, e ainda tem a coronha em forma de C, para de pé quando fechado e vem uma alça para pendurar no ombro, além de várias opções de cores e estampas, que o fabricante sugere como alívio para o tédio dos dias chuvosos.

O problema ainda é o preço. A unidade sai pelo equivalente a dúzia do tradicional. Mas a China há de cuidar disso – se é que já não está cuidando.

Suplella – em breve num camelô perto de você.

 
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