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Terá a ponte para o futuro unido o país?

Dez dias antes do Senado Federal votar pelo afastamento da presidente Dilma Rousseff, o professor Delfim Netto, em plena forma aos 88 anos, aceitou o convite de falar ao grupo Construindo a Alternativa, liderado pelo economista Felipe Salto.

Frasista brilhante, Delfim surgiu afiado naquela tarde da segunda-feira dois de maio, e botou toda sua eloquência a serviço de animar a confiança da plateia ante as possibilidades do governo interino que se anunciava.

Chegou a exagerar, colocando Michel Temer no patamar político do Ulysses e do Tancredo, e estes ao lado do Sarney. Mas no diagnóstico estava certo: “O Temer é treinado e sabe que só o político pode salvar o economista”. Era o óbvio: nosso problema é antes político do que econômico.

A análise do Professor era nítida, mas na perspectiva do retrovisor. Se o nosso problema é político, e a política brasileira depende do PMDB, quem melhor do que o tantas vezes presidente dos peemedebistas para a Presidência da República? Raciocínio que sintetizou com outra pérola: “Temer é dos poucos políticos capazes de fazer tricô com quatro agulhas”.

Espeto é que, olhando para frente, as quatro agulhas poderiam se transformar em quatro espadas, e não nas mãos, mas sobre a cabeça presidencial. Foi o que perguntei quando o Salto abriu para participação do público no Centro Ruth Cardoso. Mais ou menos assim:

“Professor, quem foi às ruas atacar Dilma dificilmente permanecerá para defender Temer. Depois, ele depende do Congresso não só para avançar, mas para simplesmente permanecer, posto que as mesmas acusações que derrubaram uma servem para derrubar outro, e lá os bons são raros. Assim refém, donde ele pode tirar força para fazer as reformas necessárias?”

Delfim respondeu que eu partia do princípio que não ia dar certo. Talvez ele tivesse razão. Apesar da torcida e da boa vontade, algo me dizia que este governo não tinha como funcionar. Acho que eram as evidências.

Revendo a reportagem da Folha sobre a conferência, encontrei os senões do que infelizmente se confirmaram. Após dizer que Temer era “nossa última esperança”, Delfim emendou ponderações. Destaco duas:

“Não adianta fazer um ajuste fiscal só com o corte de gastos, isso só vai produzir mais buracos. É preciso fazer com que a indústria e as exportações cresçam”.

“O que ‘destruiu’ o Brasil, foi ‘o aparelhamento do Estado para os amigos’ — erro que não poderá ser repetido por Temer, segundo Delfim.

Sabe-se que o governo fez exatamente o inverso. A Presidência está diariamente nos jornais tentando defender os indefensáveis amigos do presidente, e considera como grande feito até agora a PEC do Teto dos Gastos que, se sozinha já não basta para tapar os buracos, atrelada como está à Reforma da Previdência – e sua improvável aceitação social e política –, poderá abrir uma cratera tão vasta que não haverá ponte que chegue. Muito menos esta pinguela.

Para completar, a panela de pressão já apita. De um lado, mortadelas cobrando panelaço. Do outro, coxinhas marcaram encontro para o dia 26 de março.

Terá a ponte para o futuro unido o país? E o professor Delfim, estará presente?

 
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