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Doria X Doria

Era uma vez um príncipe que adorava pôquer. Mas em seu reino não encontrava adversário competitivo. Entediado, mandou buscar os melhores do mundo para um torneio. E conheceu o gosto da competição franca. Frustrado com sucessivas derrotas, resolveu apelar. Baixou uma sequência sem qualquer significado e declarou: “Lubidufi”, emendando que naquelas terras esta era a combinação maioral. Mesmo surpresos, todos obedeceram.

Duas ou três rodadas depois o príncipe tinha uma quadra de ases e apostou alto. Porém um dos participantes apresentou o lubidufi, que teoricamente venceria qualquer outra. A não ser pela nova determinação do anfitrião: “Lubidufi só vale uma vez por noite”. Lá se vão décadas sem que um jogador respeitado volte a seu reino.

Recentemente João Doria (PSDB) cumpriu agenda internacional nos Emirados Árabes Unidos, aonde foi apresentar seu plano de desestatização.

No cardápio oferecido pelo prefeito estão incluídas privatizações e concessões de equipamentos como o complexo do Anhembi, o autódromo de Interlagos, o estádio do Pacaembu, o serviço funerário, terminais de ônibus, ciclovias, parques, iluminação pública, mercados municipais e a operação do Bilhete Único.

Pelos cálculos da Prefeitura, só o Anhembi e Interlagos podem render até R$ 7 bilhões, que ao modelo dos fundos soberanos do petróleo árabe, serão destinados a um fundo especial de investimentos prioritários, isto é, Saúde, Educação, Transporte, Habitação.

A julgar pelo compromisso acordado durante a campanha eleitoral, todo o processo deverá contar com vasta participação da sociedade civil no debate sobre cada item a ser desestatizado, bem como na destinação dos recursos obtidos, através de entidades, conselhos e Câmara Municipal.

Melhor, impossível.

No entanto, o maior opositor ao plano Doria surgiu na semana que antecedeu o carnaval. E é o próprio João Doria, que em visita ao Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi), assentiu em alterar o Plano Diretor vigente, concebido sob intensa participação social ao longo de 21 meses, para durar até o ano de 2030.

Notadamente a nova gestão antecipa que concorda em modificar a fórmula da outorga onerosa, que a rigor é uma multa antecipada, cobrada pela prefeitura de quem propõe construir além dos limites estabelecidos. Até aí pode ser só uma adequação conjuntural, não chega a ser grave.

Já vender o autódromo de Interlagos, incluindo opção de exploração imobiliária, vai diretamente contra a estratégia combinada no Plano Diretor. No Anhembi faz todo sentido. Em Interlagos, não.

Evitando mergulhar no mérito da questão, e concordando que igual a toda obra humana o Plano Diretor é imperfeito, convém destacar que se mudança de regra no meio do jogo nunca é uma coisa boa, um desvio pode ser especialmente danoso para quem pretende ter êxito num plano tão audacioso quanto o da desestatização apresentado pela Prefeitura.

O investidor que se interessar, por exemplo, pela concessão do Parque do Ibirapuera, buscará a longo prazo contrapartidas para os investimentos necessários. Por longo prazo, entenda-se atravessar gestões futuras. Em contrapartidas, inclua-se segurança jurídica. Traduzindo: a possibilidade de um futuro prefeito mudar a regra combinada assusta o investidor. Se ele não fugir, no mínimo vai botar o risco na conta da cidade.

Entre os anfitriões mais entusiasmados com o prefeito João Doria durante o road-show está o príncipe Hamed Bin Sayed Al Hahyan, irmão do presidente de Abu Dhabi e gestor de um fundo de 900 bilhões de dólares. Sem dúvida um jogador respeitado. E, antes disso, príncipe. Porém contemporâneo. E a contemporaneidade exige de príncipes e jogadores que eles passem ao largo de qualquer mesa sobre a qual ainda paire o lubidufi.

 
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