Facebook YouTube Contato

“Li no Face” é o novo “Deu na Globo”

Há por aí figuras elegantes que respeitam a inviolabilidade do próprio exame de laboratório. Mas a minha impressão é que, de modo geral, a ansiedade leva o paciente a consultar o Google antes do retorno ao médico. Sei de gente que sequer retorna. Descobrindo o problema e o tratamento, administram por conta própria.

Os doutores têm responsabilidade sobre o fenômeno? Sim. Ganhando cada vez menos dos planos de saúde ou do Estado, procuram fazer mais consultas, e muitas das vezes mal encostam no paciente, preferindo terceirizar o exame para o laboratório, o que sufoca ainda mais quem paga, que para continuar passa a pagar menos ainda. Bola de neve.

A coisa vai assim até ficar realmente séria. Quando a doença é grave, ninguém economiza esforços para ter o melhor atendimento possível. E muito menos brinca com a solução.

Com o jornalismo aconteceu algo parecido. Não faz tempo, a credibilidade da velha grande mídia era tamanha que, para criar um boato, bastava dizer “deu na Globo”. No mínimo, instalava-se a dúvida.

Então chegou o Google e a possibilidade de checar a própria Globo foi para a palma da mão. A Globo ou qualquer outra fonte. Em mesa de bar dá até um muxoxo. O papo vai bem até que surge a incerteza. Centroavante do Corinthians em 1973, origem da romã, os amantes da Marquesa de Santos, receita do Buñuel para Dry Martini. O Google sabe de tudo. E quem sabe mais, ganha mais.

De novo, bola de neve. Ganhando menos, parte da grande velha mídia passou a se valer do Google. Invés de examinar o paciente, isto é, ir pra rua, apurar o fato, checar, perguntavam para o Google. Todos perderam espaço e muitos simplesmente acabaram.

Os jornalistas, para sobreviver, foram trabalhar em agências de notícia e consultorias, que ficaram gigantescas construindo narrativas e fazendo análise para quem pode pagar – exatamente como acontece com médicos especialistas e hospitais de elite.

Mas e o coletivo, como fica com essa epidemia de desinformação? Gente tida como esclarecida compartilha notícias absurdas nas redes-sociais virtuais e reais. “Li no Face” é o novo “Deu na Globo”.

Porém, parece que o alarme soou com a eleição do Trump. Jornalões voltaram a vender assinaturas e a audiência das televisões disparou.

A esperança é que os grandes anunciantes acompanhem a tendência popular. Bancos, por exemplo. Se não pelo interesse coletivo ou responsabilidade social, seria prudente investir em veículos sérios para assegurar a própria sobrevivência. Imaginem hoje, com o WhatsApp, a proporção que tomaria um boato de quebra estimulando campanha de saques.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments