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Temer sem condições

Estou boiando. Pode ser que alguém consiga ajudar. Mas quanto mais eu leio sobre a reforma da Previdência – note que me dedico –, mais distante me sinto de uma conclusão.

Tem gente boa e confiável defendendo pontos diversos. E até nos números, na matemática financeira que de modo geral deixa pouco espaço para interpretação, há controvérsia. Quando a conversa alcança o lado humano, então, fica ainda mais complicado. Pouco é melhor que nada. Mas dá para defender tratamento igual para todos num país tão desigual?

Para completar, tudo leva a crer que o governo adotou a técnica do mascate, propondo regras mais duras do que o necessário para aumentar a margem de negociação no Congresso. Membros da chamada base aliada já se opuseram. O PROS é contra e o PSB fala em acompanhar. E o próprio PMDB, do presidente Michel Temer, não é capaz de fechar questão.

Imaginem que até o Renan Calheiros manifestou desgosto. Abro parênteses para dizer que até agora este é o melhor argumento a favor da reforma. Fecha parênteses. Segundo ele, propor idade mínima de 69 anos para aposentadoria no nordeste é demonstração de desconhecimento da realidade brasileira. Difícil discordar, mesmo sendo Renan quem é. Mais fácil é supor que ele está, orquestrado com o governo, abrindo um flanco para negociação. Mas vale lembrar que o famigerado senador é candidato a reeleição no ano que vem. E igual a ampla maioria dos seus pares congressistas, não faria nada que pudesse atrapalhar o pleito.

Nesse ambiente de crise, recessão, instabilidade e tamanha incerteza, típico de uma guerra, a sobrevivência se afirma como o instinto humano mais primitivo. E, assim como na guerra, ganha quem tem a melhor propaganda.

Nessa seara fico bem à vontade para comentar. E digo sem medo de errar: o governo vai mal, muito mal. No discurso pelo Dia da Mulher, Temer surgiu como o presidento Michel, saudando a importância da mulher no lar e no controle dos preços nos supermercados. Há quem diga que foi para matar a saudade dos pronunciamentos da Dilma. Na verdade foi pura falta de habilidade, que o fez recuar várias casas num jogo onde já encontra bastante dificuldade em avançar. Hoje tentou remediar falando em direitos iguais, mas o estrago está feito.

Junto com o governo, o PMDB optou pelo medo, pelo terror, armas usadas só em último caso. O partido do presidente publicou mensagem afirmando que, entre outras coisas, se a reforma não passar, “adeus Bolsa Família” que é um dos programas com melhor custo-benefício para a Nação.

Daí a gente tira a temperatura política. Está claro que o governo apostou alto demais quando votou a PEC do teto dos gastos antes da reforma da Previdência. Se é verdade o que dizem, que do jeito que vai, explodiremos, a PEC do teto encurtou o pavio e a explosão virá já no próximo ano, destruindo os alegados planos de compromisso histórico reiterados por Temer a cada entrevista.

Assim, o governo que nasceu frágil, sem apoio popular, com problemas gravíssimos na Justiça eleitoral e criminal, e que se mantém trocando até a Saúde pelos votos de um partido fisiologista como o PP, tornou-se refém da própria agenda.

De novo, a ampla maioria dos deputados e senadores têm o olfato das aves de rapina. Sentem de longe o cheiro da presa moribunda. Vão cobrar muito por pouco apoio.

De modo que, em qualquer reforma proposta por este governo, o molho pode acabar saindo mais caro que o frango.

 

Atualização 1: Em entrevista à revista inglesa The Economist, Michel Temer usou a própria aposentadoria como exemplo de benefício prematuro. Aposentado como procurador do estado desde os 55 anos de idade, ele recebe mensalmente o equivalente a R$ 22.082,70 há vinte anos. A revista, que classificou como “generoso” o numerário, não diz se o presidente pretende abrir mão do benefício.

Atualização 2: O PSDB propôs duas emendas ao texto da reforma da Previdência: reduzir a idade mínima do tempo de contribuição de 49 para 40 anos e garantir que, em nenhuma hipótese, o rendimento fique abaixo do salário mínimo.

 

 

 
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