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A ordem dos fatores altera o produto?

Ao contrário do que a gente aprende em matemática, na política a ordem dos fatores altera o produto.

Já falei aqui que a ordem das reformas propostas pelo governo Temer enviadas ao Congresso está invertida. A PEC do Teto não deveria ter saído antes da reforma da Previdência, que por sua vez não deveria chegar antes da trabalhista, sob risco de acabar deixando o molho mais caro do que o frango. E está se confirmando: Renan botou Collor na Comissão de Relações Exteriores, o PMDB mineiro vai ganhar um ministério para chamar de seu, o contingenciamento no orçamento deve ficar pela metade e haverá aumento de impostos para inteirar a rolha. Isso sem contar a barganha por cargos que a gente sequer fica sabendo. Isso sem contar a não correção do IR que, a rigor, já é aumento de imposto. Isso sem contar a qualidade do parlamento.

Já a reforma política, que precede todas as demais, porque molda o sistema que define quem de fato representa o povo, é tratada na base das conveniências dos mandatários atuais, não nas convicções. Sim, vamos dar esta colher de chá e acreditar que há convicções.

A ideia essencial é engordar o fundo partidário para cobrir os custos eleitorais e estabelecer o voto em lista, onde os partidos escolhem uma ordem preferencial de candidatos e o eleitor vota na legenda. A desculpa é baratear custos de campanha e fortalecer as agremiações. A verdadeira intenção é consagrar os donos do poder numa casta superior e intocável.

Pela proposta do relator, deputado Vicente Cândido, petista de São Paulo, o voto em lista seria uma transição, valendo para a eleição de vereadores e deputados, até a eleição de 2026, quando o voto distrital misto entraria em vigor.

Ora, fosse mesmo a vontade de baratear as campanhas e fortalecer os partidos o produto desejado, nada seria mais lógico do que inverter a ordem dos fatores. Isto é, começar com o voto distrital, que transformando a disputa para vereador e deputados de proporcional em majoritária, naturalmente provocaria um processo de depuração pela democracia interna, que inexoravelmente fortaleceria as agremiações. E, tendo um perímetro bem mais concentrado para atuação, da mesma maneira reduziria os custos de campanha e aumentaria a proximidade com o eleitor.

Lá em 2013, com os levantes de junho, o FHC definiu mais ou menos assim o cenário: havia muita palha em volta e uma centelha de vinte centavos poderia causar um grande incêndio das massas.

Agora temos uma recessão sem precedentes, desemprego brutal, presidente da República impopular,  descrença recorde ante o Legislativo, centenas de políticos na Lava Jato, delações premiadas transbordando. Não é palha, é pólvora.

 
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