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Toca o berrante seu moço

A operação Carne Fraca provou que o brasileiro ainda não sabe fazer churrasco. Um assunto que deveria ser tratado na brasa, com cuidado e atenção, foi para a grelha com fogo alto e passou do ponto.

A reação de quem deveria, se não consertar o estrago, pelo menos minimiza-lo, também foi atrapalhada.

O presidente da República Michel Temer, cada vez mais presidento, convoca uma reunião com embaixadores de países importadores de proteína animal brasileira, faz lá seu discurso e encerra convidando a turma para uma churrascaria de nome estrangeiro que, segundo o garçom, trabalha exclusivamente com carne bovina uruguaia, argentina ou australiana. Já na versão do gerente, a casa oferece sim os cortes brasileiros, inclusive fornecidos por alguns dos frigoríficos chamuscados no escândalo.

Isso tendo a Granja do Torto a vinte minutos do Palácio do Planalto, com espaço e ambiente adequado para uma reunião dominical, equipado com uma churrasqueira que chega a ser folclórica de tão exagerada, vale notar.

Já o ministro da Agricultura Blairo Maggi foi visitar linhas de produção de frigoríficos para verificar, junto da imprensa e delegações estrangeiras, a excelência do processo. Vestiram macacões e capuzes específicos e transitaram entre a rua e as áreas protegidas com a mesma roupa. Relevem minha indelicadeza, mas de fato não entendo isso. Assim como não entendo médico passeando pela rua com jaleco de trabalho.

Osmar Serraglio, ministro da Justiça citado no rolo e deputado da bancada do boi, simplesmente sumiu. Sua voz não é ouvida há uma semana, salvo nas gravações onde chama um dos investigados de “grande chefe”.

Também procuraram criar estatísticas para estabelecer que o alcance dos desvios é pequeno, abaixo de um por cento da cadeia produtiva. Argumento que não se sustenta dada a concentração geográfica e empresarial do mercado.

E as grandes indústrias afetadas, principalmente BRF e a JBS, dos “jestores” Abílio Diniz e irmãos Batista, com ações despencando na bolsa, se limitaram a acompanhar a tese do problema sanitário e ciscar em torno dele, quando deveriam assumir onde mais erraram, isto é, em esquemas de corrupção, e acertar as contas com a sociedade com honestidade.

O resultado do esforço, se não foi negativo, foi inócuo. Praticamente todos os países que comiam nossos bifes emitiram bolas-pretas, maiores ou menores, ao Brasil. As exportações caíram de US$ 63 milhões para R$ 74 mil por dia.

Caso exemplar de hipocrisia, a China sapateou. O capitalismo de Estado dos mandarins contemporâneos limita o consumo de carne importada, enquanto Hong-Kong, com pouco mais de sete milhões de habitantes, importa 33 mil toneladas de carne por ano. Nem sete milhões de leões comeriam assim.

Estrago feito. E consta que tem mais pela frente. Os dirigentes das grandes empresas terão que se explicar na Justiça. A tática lulista do “eu não sabia”, obviamente, não será digerida. Os funcionários de escalões inferiores, sejam do Estado ou das empresas, para se safarem, poderão negociar delações premiadas.

O melhor que pode ser feito pelo Brasil é avançar na legislação anticorrupção, importando dos Estados Unidos a lei do whistleblower, ou tocador de apito, ora traduzido para tocador de berrante.

O Elio Gaspari explicou como funciona: “Um vendedor do laboratório Pfizer denunciou técnicas ilegais de comercialização de produtos, reclamou por dentro e perdeu o emprego de US$ 125 mil anuais. Veterano da Guerra do Golfo, foi ao governo. A Pfizer foi investigada, tinha culpa e tomou uma multa de US$ 2,3 bilhões. O veterano que tocou o apito recebeu US$ 51,5 milhões.”

 
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