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Sou brasileiro e não rompo

A TV Globo vem fazendo um trabalho fundamental. Assisti a alguns capítulos da minissérie Os anos eram assim e gostei muito. Ontem, por conta do TSE, fiquei ligado até tarde e, no programa do Pedro Bial, tive a grata surpresa de ver uma plateia jovem aplaudindo a Clarice e Ivo Herzog, viúva e filho do Vladimir Herzog, e também a Miriam Leitão e seu filho Matheus, que reuniu no livro Em nome dos pais, dez anos de pesquisa sobre a prisão e tortura da própria mãe e do pai, Marcelo Netto. Assista aqui.

(Mas, mas, e a relação da emissora com os tiranos, a manipulação do debate em 1989, e… Paciência. A Globo já admitiu seus erros e merece aplausos pelo presente.)

Após 42 anos sem saber exatamente como morreu e quem matou seu marido, Clarice Herzog ainda tem folego para falar serenamente sobre o assunto. Contando o que Vlado dizia meses antes de morrer, uma frase chamou minha atenção: “Só há dois movimentos organizados que podem se articular para combater a ditadura – a Igreja (católica) e o Partido Comunista. Eu sou judeu. Só tenho uma opção”.

Vlado tinha horror a qualquer outra forma de autoritarismo. Mas cedeu ao comunismo e acabou misteriosamente suicidado por ditadores. Evidentemente discordo da opção que ele fez. Mas curiosamente me identifico. Não sei se teria a fibra do Montoro, do Tancredo, do Ulysses – e da Clarice – para enfrentar e superar décadas de injustiça com diálogo.

Por outro lado, é próprio da nossa cultura evitar a ruptura. A abolição da escravidão demorou quarenta anos. Nos Estados Unidos fizeram em um décimo do tempo, mas foi uma carnificina. E até hoje quebram o pau quando o racismo se manifesta.

A ditadura militar acabou por conciliação, com direito a anistia, eleição indireta. Ou, como diria o Carlos Lacerda numa malcriação genial, “igual a noite de núpcias na França: sem sangue”. Na mesma França, quando a turma se levantou, a guilhotina baixou. E até hoje queimam uns carros para celebrar o 14 de Julho.

Mais recentemente o Plano Real matou a inflação se valendo desse nosso traço atávico. A ideia exótica de criar um indexador de preços chamado URV e deixar a moeda corrente corre solta funcionou espetacularmente, fortaleceu a economia e permitiu que milhões de pessoas saíssem da miséria. Mas até hoje quem faturava alto com a inflação reclama dos programas de transferência de renda…

Sei lá. Sou brasileiro e não desisto nunca. Ainda acredito em evolução e reformas antes da revolução. Mas sinceramente não sei como, de modo geral, as camadas que não têm os privilégios que eu tive suportam.

Tivemos a Lei Áurea mas o Complexo de Sinhazinha continua firme. Houve a redemocratização mas o Estado continua barbarizando, notadamente em relação aos pretos e pobres. E quando se propõe equalizar direitos, como agora na reforma da Previdência, tudo é obscuro a não ser o grito límpido e despudorado das castas que exigem manter seus privilégios. É puxado.

 
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