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Fábulas tucanas reunidas

Prestes a virar balzaca, a legenda tucana, minha legenda, iria ao divã. O sistema eleitoral brasileiro colapsou e impôs a catarse. Mas igual na vida pessoal, o organismo partidário resiste ao tratamento – que todos sabemos, é inexorável. E de hora em hora a coisa piora.

Num complexo de Édipo agudo o PSDB volta ao útero peemedebista. Mas com um sentimento que está menos para Freud e mais para Woody Allen. O primeiro falava da atração e da repulsa do filho (PSDB) em relação à mãe (PMDB). O segundo assumiu e escancarou o desejo: quer sim voltar ao útero – a qualquer útero. Foi esta a escolha do PSDB no dia dos namorados, ser mais galinha do que tucano. Traça de Jucá a Barbalho, topa Renan, flerta com Moreira, almoça Padilha, janta Michel.

Mas e Electra, onde entra? Dizia o meu caríssimo Pedro Paulo de Melo Saraiva em suas aulas de arquitetura e urbanismo: “eleja um pai, alguém que você admire, e use a trilha por ele percorrida para nortear e balizar a sua”. Não à toa, seu apelido era Papito.

Meu pai político hoje é o FHC. Prudentemente, ele se mantém como observador, resguardando-se para uma eventualidade histórica. Mas sua trajetória está aí e pode ensinar a quem se dispuser a aprender.

Ainda que tenha cedido aqui e ali, até para poder governar, nunca foi de ficar ciscando. Cantava alto, regularmente e com exclusividade para o brilho do sol. Não deixou se enganar pelo brilho do ouro – que sempre é de tolo.

Hoje temos um PSDB que atendeu aos caprichos da história e foi integrar um governo que dificilmente daria certo. Governo este eleito em chapa adversária contra a qual os tucanos foram ao TSE. Governo este cuja agenda econômica não é diferente da que seria apresentada pelos tucanos – nem tampouco é diferente da proposta pela Dilma-Levy em 2015. Mas que de repente passou a ter apoio majoritário. E é nesse “de repente” que mora o perigo.

Michel Temer nunca foi bom de gogó nem gostou do brilho do sol. Há inclusive suspeitas de que este pode lhe ser fatal. Restou, pois, o brilho do ouro – que efetivamente é quem está governando. Porém, cada spray de lama impõe uma nova camada de ouro. E assim o molho já ficou muito mais caro do que o frango.

Dizer que o PSDB não podia prever o cenário atual seria muita hipocrisia. Tapamos o bico e aceitamos a missão impossível de cruzar a pinguela. Eis que a pinguela caiu. Não aguentou o peso da boiada.

Nas caudalosas águas do rio nos encontramos com o dilema da perereca, aquela que encontra um escorpião se afogando e pedindo socorro em nome de tudo que é vivo. A perereca sabe que é da natureza do escorpião ferroar e matar quem lhe cede o lombo. Sabe que prestando socorro acabarão ambos mortos – ela envenenada e ele afogado. Sabendo de tudo isso a perereca não pode topar. Melhor salvar um do que nenhum. A não ser que o escorpião também saiba de muita coisa. Ou que a margem lá 2018 seja tão sedutora que se transforme em miragem.

 
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