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Governo, graxa e volúpia de aceleração

Um amigo que trabalhou em governo há muitos anos, mais exatamente num palácio de governo, conta a história do engraxate. Calma! Sei que esta freguesia está farta de notícias de gente engraxada em palácio. Mas o caso desse meu amigo fala antes do sentido literal.

Houve um tempo em que os cavalheiros engraxavam os sapatos diariamente. Tempo que poderia muito bem voltar. Coisas boas e bem cuidadas duram anos e contribuem para a sustentabilidade. Quem sabe os hipsters podem aproveitar a voga e dar uma força, qual fizeram com as barbearias e a cerveja de garagem.

Atento à demanda e conferindo o endereço do palácio, isolado de tudo e de todos, como prover graxa aos pisantes oficiais? Num passeio pela cidade, que é como essa turma chama o Centro velho, encontrou um jovem que se defendia carregando a caixa de graxa pelas ruas sem conseguir um ponto fixo. Então ofereceu transito livre no palácio, resolvendo o problema geral.

Impasse: quanto o rapaz poderia cobrar pelo serviço? Nada, respondeu meu amigo. Mas não posso trabalhar de graça, replicou o engraxate. E na tréplica veio a lógica da graxa no sentido figurado:

-       Meu caro, deixa eu te explicar como funciona governo. Se você cobrar por alguma coisa, na melhor das hipóteses haverá burocracia, concorrência, menor preço, e você pode acabar pagando para trabalhar. Na pior delas, teria que engraxar além dos sapatos, os bolsos de alguém importante. Ao passo que, sem cobrar nada, impõe ao favorecido um constrangimento que o obriga a retribuir a gentileza com pelo menos o dobro do que o serviço costuma custar. Isto é, quem está acostumado a pagar dez a quem cobra, pagará, feliz, vinte a quem não cobra.

Resultado: de brilho em brilho, de ano em ano, o jovem pagou faculdade, comprou casa para a mãe e permaneceu no palácio por mais tempo que o Adhemar de Barros entre o Pacheco Chaves e o Bandeirantes.

Trazer este caso à tona em época dos terríveis sapatênis tem uma intenção direta. Quem habita palácio deve evitar almoço grátis. Vejamos o que acontece com as doações “sem nenhuma contrapartida” à Prefeitura de São Paulo.

Já tivemos o problema com os laboratórios que se livraram do estoque na iminência do vencimento “doando” à rede municipal. O prefeito respondeu mal. Botou na reportagem da rádio CBN palavras que não haviam e sobre o ICMS escreveu que explicaria mas não cumpriu.

A mesma emissora trouxe no dia dos namorados um furaço do Guilherme Balza: áudio de uma reunião pouco republicana no gabinete do secretario de Governo, com a presença do colega da Justiça, a chefe de gabinete da Cultura e dois executivos da Dream Factory, agência que representava a Ambev na concorrência para o patrocínio do carnaval. A Ambev é uma das doadoras de benfeitorias para a cidade “sem nenhuma contrapartida”.

Meia dúzia de perguntas brotam instantaneamente: 1) Como fica o compliance da multinacional AB-Inbev, controladora da Ambev, ante as declarações da agência que detém sua conta? 2) O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa vai se posicionar? 3) Na nova gestão o secretário de Justiça passou a ser o chefe da Controladoria; conduzirá a investigação das próprias ações? 4) O secretário de Governo seguirá calado? 5) Há conflito no fato da secretaria adjunta da Cultura ser casada com o mandachuva da fundação Lemann, sonho grande assistatencial do dono da AB-Inbev? 6) o secretario da Cultura, que é cineasta, conhece a máxima do Woody Allen: “A diferença entre sexo pago e sexo grátis é que o grátis é muito mais caro”?

E outras duas, relacionadas a esta e outras passagens, também ficam: 1) A amizade entre o público e o privado pode prosperar nessa penumbra? Digo, uma empresa altruísta pra valer, com satisfações a prestar aos acionistas, vai querer entrar num beco sombrio assim? 2) Nesse frisson de participar da vida pública, caberia uma quarentena aclimatadora a quem chega, da mesma maneira que é imposta a quem sai? Por, digamos, volúpia de aceleração e ingenuidade, vimos conceitos básicos atropelados, como o secretario da Justiça dizendo que “a cracolândia está em guerra (!!), e em guerra se for preciso derrubar patrimônio histórico, a gente derruba (!!!)” (ai de ti, Palmyra); ou o coleguinha da Assistência Social usando o carro oficial para levar um cidadão desabrigado à rodoviária e pagar sua passagem para a terra natal – com direito a vídeo populista na rede social.

 
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