Facebook YouTube Contato

Portugal e a tarefa doce de abraçar seus filhos

No sábado dez de junho o relógio contou 28 horas. Era o Dia de Portugal, Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas. Começou no Porto, passou por SP e terminou no Rio.

Celebrei no Teatro Municipal de São Paulo a convite de um fidalgo lusitano chamado Tomaz Capitão, meu amigo querido. Errei no traje mas a noite não poderia ter sido melhor. Eu deveria supor que a ocasião pedia terno e gravata, mas tendo o prefeito abolido o adereço e o Marcelo Casarini, que é doutor em samba e fado, me garantido que os irmãos da terrinha veem com bons olhos lenços nos pescoços, aproveitei a temperatura para me enfeitar.

O cálculo sobre o horário ampliado do relógio veio do presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza. Verdadeiro abraço fuso horário (o Pedro Venceslau diria luso horário) em todos os que falam a língua de Camões.

Tão simpático quanto o Presidente foi o ministro António Costa. Saudou a todos os que cruzam o Atlântico lembrando que o próprio filho do presidente vive cá em São Paulo com seus netos.

Pode parecer curioso para nós brasileiros que um país tenha como chefe de Estado um social-democrata, que lá em Portugal é considerado centro-direita, e por chefe de Governo um socialista, tido como centro/centro-esquerda. Bom, pensando bem, cá na Vera Cruz também se vê a social-democracia como centro-direita. Curioso mesmo é a gente continuar precisando de rótulos, com o exemplo fraterno de Portugal escancarado para ensinar. Apelidado de “Geringonça”, por abrigar matizes diversas, a administração lusa vem se saindo bem, muito bem, obrigado.

Presidente e Primeiro Ministro chegaram ao Municipal ao lado do Prefeito e da primeira-dama de São Paulo. Nos discursos, não ficam a citar pelo nome cada uma das autoridades presentes. Dizem o cargo e basta. Prática que quero usar nesta página, até para ver de ajuda a desfulanização da política. Mas não sem antes dizer que Marcelo, António, Bia e João sentaram-se na plateia, no centro dela, nada de gargarejo. Tomem nota. Agradecido.

O que veio a seguir foi um espetáculo. O filme de apresentação de Portugal começa exibindo três manifestações culturais. Fado? Ainda não. A importância que eles dão para a cultura menos difundida é emblemática: Canto Alentejano, Guitarra Portuguesa e arte escultórica contemporânea.

Entre as personalidades é claro que estão Cristiano Ronaldo, modelos, gente de televisão. Mas também escritores, pintores, arquitetos, filósofos, cientistas, médicos, professores.

Então chegou a hora do fado. Quatro cadeiras: cavaco, baixo, guitarra e uma pequena notável chamada Gisela João. Um colosso. Cantou e encantou a plateia, incluindo muitos portugueses que não a conheciam.

Se usei o pequena notável não foi à toa nem exagero. Vão ao YouTube verificar. Até onde minha vivência alcança, desde de Carmem Miranda não aparecia uma portuguesinha tão talentosa e apaixonada pelo Brasil por aqui.

Cantou e dançou um fado divertido e inadvertido, sobre um senhor extraterrestre que tem a nave apreendida por estar sem carta de condução. O prefeito, elegante, entendeu que não era nada pessoal.

Cantou Cartola, As rosas não falam e O mundo é um moinho. Falante, explicou que sabe que é samba, mas também considera fados dos bons. E são. Cantou ainda a mexicana La Llorona, da Chavela Vargas, que a gente conhece pela trilha de Frida. Gigantesca.

Precisar, Portugal não precisava. Mas entende, acolhe e alimenta com todos os ovos e o açúcar que houver o carinho cada vez maior de seus filhos que se espalharam pelo imenso e possível oceano.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments