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Minha Casa, Minha Vida, Minha ideia genial

Tive uma ideia genial. Já que a Federação está em colapso, com municípios que nunca tiveram independência orçamentária, estados quebrando e tomando cada vez mais dinheiro da União via BNDES (com expectativa de erosão do buraco porque o Presidento precisa do apoio dos governadores e congressistas para se segurar no Planalto, nada obstante seu governo tenha largado com a PEC do Teto), sessenta mil assassinatos por ano, metade das casas sem saneamento básico, educação, saúde, transporte de pires nas mãos, precisamos de uma solução urgente para fazer a conta fechar.

Prover tudo isso que falta nas cidades se tornou inviável. Com a recente concentração urbana o preço do espaço aumentou muito. Ainda que muitos dos centros, principalmente nas capitais, estejam decadentes, repletos de imóveis vazios, a especulação segue firme. Então o que fazer?

A ideia é simples e já existe na área da habitação. A iniciativa privada, com o firme compromisso social que sempre teve, combinou com os governos federal, estaduais e municipais que faria casa para todos em lugares ermos e distantes, onde o preço da terra é bem mais em conta. O programa é bem conhecido, chama-se Minha Casa, Minha Vida.

Não é genial?  Pois vamos adotar a mesma lógica para todos os outros serviços públicos. Imagina fazer metrô lá longe. Em alguns lugares nem vamos precisar cavar, o trem poderá passar pela superfície, e as estações terão um custo muito mais baixo na desapropriação do terreno (você sabe, freguesa, que é imprescindível ter uma casinha para a estação de metrô, aquelas da avenida Paulista, onde basta um buraco para a turma entrar e sair, não prestam).

Escolas, hospitais, estações de tratamento de esgoto: tudo mais barato se a gente fizer lá longe. Até a cesta básica deve baixar, posto que as pessoas viverão perto de onde o feijão e a mandioca são cultivados, eliminando o sobre preço do transporte e do atravessador. Para a segurança, solução clássica e sempre exitosa: mais presídios, e ainda mais baratos, porque estarão ainda mais distantes.

Sim, estou sendo irônico. Tentando provocar. É o folego que me resta. Obviamente nada disso funciona. O caminho é justamente o inverso: adensar, trazer as pessoas para perto de onde já existe alguma infra-estrutura. O melhor exemplo recente é o Complexo Julio Prestes, na Luz, em São Paulo.

Curiosamente, porém, a maioria dos governos, em associação com a iniciativa privada, insistem em seguir na contramão. No mercado imobiliário comenta-se o seguinte: a construtora Tenda, que tem 70% do seu faturamento amarrado ao MCMV, deve investir dois bilhões de reais na compra de novos terrenos. Onde? Provavelmente naquelas paróquias que o Jaime Lerner definiu como “meu fim de mundo”, dando o sobrenome exato ao Minha Casa, Minha Vida. Já a MRV, com 95% da receita dependente do MCMV, deve fechar o primeiro semestre de 2017 com o maior valor geral de vendas de sua história. Crise? Recessão? Só se for para você, infeliz, que não é amigo dos homi.

Não acreditem quando dizem que o Brasil não tem memória. A Globo News exibiu recentemente um especial sobre os quarenta anos da morte do Carlos Lacerda. Documento impecável. Entrevistaram gente contra e a favor. E todos só falaram verdades. Estão lá coisas do seu legado, incluindo o fantástico Aterro do Flamengo, da Lota Macedo Soares, e Cidade de Deus, que só precisa de um comentário: é o primeiro Minha Casa, Minha Vida da história. Sobre ele, indico dois filmes: Reidy – A construção da utopia e o longa homônimo. Aqui e aqui.

Para encerrar, uma nota que me veio por causa do Lacerda. A turminha da FGV retirou a homenagem ao assessor especial do Presidento depois do cooper de meio milhão em frente à pizzaria Camelo. Para eles não pega bem uma escola de administração que forma grandes executivos, que preza a livre competição, ter qualquer ligação com o Rocha Loures. Mas continuar chamando Getúlio Vargas, sin embargos.

 
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