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Sobre pesos e medidas ou chame ladrão, chame ladrão!

“Fino na forma, grosso no conteúdo.” Definindo assim o livro erótico do então colega Eros Grau, vulgo Cupido, o ministro Marco Aurélio Mello fez ruborizar os seios da face da então colega Ellen Gracie. Em pleno STF.

Marco Aurélio é assim, irônico, e eu sei que não devia, mas gosto. Daí que não dá para deixar passar despercebido o comentário sobre a “carreira elogiável” do senador Aécio Neves, quando determinou o restabelecimento da situação jurídico-parlamentar do mineiro.

Nada obstante a ironia, o Ministro tem razão. Aécio tem mesmo uma trajetória política elogiável, tanto no legislativo quanto no executivo. É conciliador, moderado, tolerante, preza a descentralização, sabe delegar, junta gente boa em seu entorno para realizar.

Mais distante e não menos importante, elogiável também é a decisão do Ministro. Ainda que seja agradável lembrar que o Fachin afastou Aécio de qualquer função pública, notadamente a de parlamentar, no frigir das denúncias dos joesleys, o contraponto do Marco Aurélio tem a virtude de devolver a Cesar o que é de Cesar, isto é, ao Senado Federal a chance de agir de acordo com o que se espera de uma instituição. Não porque assim o fará, mas justamente pelo contrário, como nos inúmeros outros casos de corporativismo, onde se destaca a estrela Renan Calheiros. Explico.

Talvez assim, com o gosto amargo do deboche e da desilusão, a sociedade aprenda a exigir o respeito devido aos sempre bem lembrados milhões de votos confiados ao representante. No caso do Aécio, sete milhões de votos de Minas Gerais e 51 milhões de todo Brasil em 2014. Não é pouca coisa.

Por tudo isso, Aécio tem agora uma oportunidade ímpar: ele próprio dar o exemplo e se licenciar, afastando-se de qualquer função pública, notadamente a de parlamentar, renunciar à presidência do PSDB e concentrar-se na sua defesa e pleno esclarecimento das acusações e dos fatos revelados em tantas gravações que ainda atordoam especialmente as dezenas de milhões de brasileiros que a ele confiaram seus votos. Defesa esta que eu começaria pela confissão do que foi feito além da legalidade, como sugere o áudio do telefonema-pito com o senador Zezé Perrela. Se teve caixa-dois, assume. É crime eleitoral, mas pode não ser corrupção.

Pragmaticamente falando, tenho certeza que o primeiro beneficiado seria o próprio Aécio. Primeiro porque a confissão liberta. Depois porque a Nação é essencialmente católica, e se comove com a penitência. Também porque constrangeria outros tantos mais ou menos denunciados a fazerem o mesmo. E ainda porque pelo exemplo, pelo sacrifício, ele poderia se não redimir, minimamente amenizar o estrago causado em sua biografia que, repito, é sim elogiável.

Abro parênteses para Rodrigo Rocha Loures, de quem eu preferia nem dizer. Acho um bocó desprezível. Bajulador de quinta categoria. Carregaria malas de dinheiro para qualquer palaciano que o convidasse para um café. E agora tem que explicar – ou confirmar – quem e o que aquele meio milhão estava comprando, sob pena de voltar para a cadeia. O que há de pior nele não é ele, mas o tipo, tão vulgar e frequente por aí. Fecha parênteses.

Voltando ao Aécio, infelizmente minha impressão é que nada disso vai acontecer. Vão levar essa indigestão ao limite confiando no discurso de que há uma agenda, um norte, que o país estava melhorando antes dos joesleys implodirem a pinguela.

A quem pensa assim, com todo respeito, peço só um pouquinho de coerência. Que restitua-se pois o mandato do senador Delcídio do Amaral, dono de oitocentos mil votos, que ficou quase três meses em cana até abrir o bico. Rocha Loures não chegou a trinta dias.

Também chamem de volta o Eduardo Cunha. Ou em sã consciência alguém pode dizer que existe no Brasil pessoa mais preparada para presidir a Câmara Federal? Lembrem-se do mandato dele. Aquele secretario que ficava papagaiando atrás da cadeira do presidente sumiu. Cunha sabia de cor os três regimentos do Congresso. Fazia o diabo para tocar a Casa. Botou 513 para trabalhar e cortou o ponto dos molengas.

E chamem de volta também a Presidenta, que pedalou tanto quanto o Presidento, mas pelo menos não foi flagrada em circunstâncias inaceitáveis dentro do palácio, nem inaugurou a denúncia criminal a presidente em mandato. Agenda por agenda, a que está posta é praticamente a mesma que Joaquim Levy tentou, em vão, realizar. Se de uma das pernas ela caiu pela incompetência mastodôntica, a outra dobrou quando seus eleitores se viram enganados pelo maior estelionato eleitoral da história recente, com Levy mãos de tesoura nomeado para fazer o que o Henrique Meirelles está fazendo e não o que a maioria escolheu nas urnas. Agora que o Parlamento está de acordo, teoricamente não haverá dificuldade em seguir em frente. Vamos continuar sofrendo barbaramente, mas talvez um pouco menos constrangidos.

Ah, e botem o Paulo Maluf na presidência da CCJ. Com tanto apreço por pesos e medidas variados, nada melhor do que o mestre que, uma vez perguntado sobre sua prisão, respondeu assim: “Quem escolhe a vida pública está sujeito a todo tipo de injustiça. Gandhi foi preso. JK também. Mandela puxou 27 anos. Eu fiquei só quarenta dias!”

 
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