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De mtb@god.eden para antonio@marizdeoliveira.adv

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Meu caro Mariz,

Há quase três anos vim viver ao lado do Criador. Não foi fácil. Além das dificuldades que nós criminalistas enfrentamos para conseguir o visto, o apelido que vocês me botaram aí na Terra causou mal estar e agravou minha condição. God, o genuíno, não gosta de rivalidade. Porém caprichei um habeas anima e cá estou.

Vi sua sustentação oral na Câmara hoje. Notei a imensa tela com o Tiradentes no cenário. Igual a este seu amigo ele incomodou na chegada, só que pela aparência. Hoje estão conciliados. O Otto Lara disse que o mineiro só é solidário no câncer. A recíproca Divina é verdadeira. A traição e o sacrifício público sofridos uniram o mineiro e o Nazareno.

Sei que aí embaixo também causei mal estar porque ganhava mais do que os colegas. Paciência. Na vida mundana cada um faz o que pode. Melhor seria vocês olharem por outro lado: quando estive na Esplanada sacudi a Polícia Federal e desde então a turma toda está faturando ainda mais do que já fazia. Até poderia, mas não sei quanto você cobrou do Michel e nem quero saber. Peguei trauma com aquele caso do caseiro. Que tipo ordinário aquele Italiano… Mas espero que seja muito. Tem tudo para ser.

Voltando ao Tiradentes, ele perdeu a cabeça por causa de um amigo que o delatou. Coisa feia. Você não gosta e não topa. Nem eu topava. Vejo orgulhoso que meus pupilos também não.

Mas vocês têm que entender que o bônus traz um ônus. A delação premiada é uma realidade e vai avançar. O tal Joesley já ia muito à Nova York antes do acordo. E nessas idas e vindas tropicalizou a whistleblower, conforme previsto pelo Elio Gaspari, que um cronista de São Paulo agora deu para imitar despudoradamente. Eu hoje “só toco harpa, de camisola e sandália”. Mas aí na Terra os apitos vão tocar alto. Acostumem-se. Serão eles ou as trombetas.

Olha, no trecho de exaltação ao MP você foi brilhante. Promover a Justiça! É isso! “Nada impede e tudo obriga” (que os promotores e procuradores, sem nenhum demérito, abandonem a acusação se a investigação provar a inconsistência) ficou lindo. Que construção!

Mas a bem da verdade devo lhe dizer que a carolada por aqui leu da seguinte forma: para promover a Justiça, nada melhor que autorizar a investigação. Para lavar o nome do seu freguês, hoje sentenciado a uma “cadeia não física, mas da mácula da honra” (lindo, lindo), a apuração irrestrita dos fatos é o caminho.

Sabe aquele Agostinho, o santo? Está aqui me atucanando. Diz que um amigo de fé tem o dever de criticar o outro. Então peço vênia e lá vai. Dizer que a entrada do Joesley no Jaburu não foi clandestina porque o carro do Rocha Loures estava cadastrado, comprometeu o argumento anterior de que os quinhentos mil lá do Camelo não eram do Michel. Desculpa, mas você se atrapalhou.

E repetir o Molina, que já estava com o filme e a fita queimados desde aquela coletiva, também foi pênalti. Ora, o problema é o preço do gravador? Primeiro você diz que talvez, depois que exatamente ele economizou no aparelho para se beneficiar. Cá entre nós, minha impressão é que o ruído anterior ao “tem que manter isso aí” mais atrapalhou do que ajudou – eles  Joesley, não o Michel.

Preciso encerrar aqui. O Chefe é rígido com horário. Mas tenho a obrigação de lembrar da nossa desavença. Os croissants do Freddy abriram tão bem aquele almoço. Não precisava terminar daquele jeito.

Olha, se eu consegui melar a Castelo de Areia alegando a ilegalidade das provas, hoje não cabe mais. Agora no âmbito da Lava Jato a Camargo vai delatar e legalizar tudo o que está gravado. Se bobear inclusive a parte do Michel, então citado com trezentos mil dinheiros.

E pensar que o Caco me pagou quinze milhões em honorários e não durou dez anos. Pelo menos o susto serviu para os Camargo tirarem a família dos postos executivos. Nas grandes empreiteiras, só o Marcelo Odebrecht não entendeu que os tempos haviam mudado. As demais continuaram os esquemas, mas usando os empregados. Os eleitos inclusive. Mas tudo tem limite. O sujeito tem que saber escolher entre tomar a Presidência da República e continuar cafetinando o baixo-clero. Por isso cobre caro. Muito.

Meu melhor discípulo, Luiz Fernando Pacheco, o primeiro que conseguiu livrar o freguês no caso do Mensalão, gosta de uma frase que eu sempre dizia. Repetiu para a revista Piauí e fez o título do meu perfil: “Um caso tem que dar pão ou glória. Se der os dois, melhor”. No caso do Michel glória é difícil. Fique com o maior filão que você puder.

 
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