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Presença concreta – um ano sem Pedro Paulo de Melo Saraiva

Há um ano o nosso querido Pedro Paulo de Melo Saraiva embarcava para o cruzeiro definitivo. Alguns dias depois, seu filho Pedro me chama para dizer algumas palavras na missa de sétimo dia. Lisonja tremenda. Respirei fundo, anotei e encarei.

As linhas estão abaixo e na íntegra. Para falar na igreja tive que suprimir a forma como ele tratava os amigos.

Valeu, Papito! Comentei agora com o Pedro como você permaneceu com a gente nesse ano que passou. Sua presença, com o perdão do trocadilho, é concreta.

Tenho uma teoria particular que manda a gente não se tornar amigo dos nossos ídolos. É a equação expectativa x realidade.

Mas a vida reserva presentes e um dos que ganhei foi descobrir a amizade do Papito antes de saber tudo o que ele significava.

A poucas quadras daqui, onde a Cidade Jardim começa, havia o Pandoro, e um dia fui lá encontrar os amigos e à mesa estava o Papito. Conversa vai, uísque vem, e dia após dia fui me encontrando completamente seduzido por aquela figura elegante, que igual a tudo o que é de fato elegante a gente não percebe no ato, só depois.

Fomos descobrindo afinidades. O mar, o litoral norte, mangueiras enxertadas, coquinho, espada… Echarpes nunca lavadas. Algo simplesmente genial como dois ferrinhos torcidos que caídos de qualquer maneira ao chão param um automóvel. O desgosto com casinhas nas saídas do Metro. Ele dizia: “Se a escada termina na rua, no primeiro degrau já é a rua”. 

Na varanda do Ilha das Flores a gente olhava a praça em frente, com os carros clássicos estacionados. Comentei que, por mim, seriam só árvores e um buraco para o Metrô. E ele: “Você quer viver em Paris, não é, demônio?”

Um dia, ou noite, falando sobre arquitetura, ele citava com naturalidade os colegas mais conhecidos dos leigos como eu: “O Oscar é foda , o Paulinho é craque”. Aquilo me intrigou e fui estudar o Papito. Descobri que era fã dele.

Então era tarde. A amizade já estava completamente revelada. Me restou reconhecer o privilégio que era para um moleque como eu poder ser amigo de uma figura tão vasta. 

No dia dos pais o Pedro publicou uma foto deles dizendo que superariam mais essa. Enviei mensagem perguntando o que havia e soube que o Papito estava internado.

Na segunda-feira fui ao Santa Catarina fazer uma visita. Levei uma seleta de contos do Scott Fitzgerald – que por sinal comprei na Ilhabela – para deixar fazendo companhia durante a internação. Tudo no Scott Fitzgerald me lembrava o Papito. O homem, a obra. Mas nesse livro notadamente há uma história em que ele se materializa já no título: Love At Night. Um príncipe Russo exilado, uma Princesinha Americana, iates, a Riviera Francesa. E também por conta da viagem que ele, o Paulo Mendes da Rocha e o Fabio Penteado fizeram à Rússia e terminaram na costa da Itália. A foto dos três está na abertura do livro que ele autografou com o Museu da Casa Brasileira repleto de amigos outro dia.

É claro que a gente vai sentir muita falta do Papito. Mas a receita que tem me ajudado nesta última semana e que eu ouso compartilhar com vocês é pensar na vida extraordinária que ele teve. Vida invejável.

A dor da falta será imensa, mas nada perto do privilégio de ter convivido com o Pedro Paulo de Melo Saraiva e poder lembrar dele.

 
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2 Comments  comments 

2 Respostas

  1. Fernanda Saraiva

    Obrigada por lembrar do meu pai. Onde estiver, ficará feliz. ❤️