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Fernandona, a redentora

Fernanda Montenegro, em entrevista ao Estadão, chamou a ditadura militar de “Redentora”. Ninguém se atreveu a um pio.

Ary Oswaldo Mattos Filho, falando ao professor Humberto Dantas para o canal Um Brasil, tratou Dilma Rousseff por “presidenta”. De novo, silêncio nas galerias.

Ótimos sinais. Ninguém pode imaginar que a nossa diva maior seja simpática ao horror daqueles anos, nem tampouco pode alguém supor que o doutor Ary sinta saudades dos anos Rousseff no Palácio do Planalto.

Note: trata-se de imagens obrigatórias no panteão Nacional. É impossível falar em dramaturgia no Brasil sem citar Montenegro. Impensável debater Direito excluindo Mattos Filho.

Daí um tolo pode imaginar que silêncio das galeras seja por respeito. Pode ser. Mas eu, o tolo do copo meio cheio, prefiro acreditar em evolução, uma compreensão além dos frascos.

Fosse só respeito ao conjunto da obra, não estaríamos ouvindo o zumbido contrário à Tua Cantiga do Chico Buarque, uma das coisas mais delicadas que surgiram recentemente. Chico está tão em forma quando Mallu e Jeneci.

Voltando a fazer lindas canções de amor estando enamorado, Chico contraria os poetas que precisam sofrer. Inclusive ele próprio, que fez obras primas contra a “redentora” enquanto penava. Neste momento me ocorre que pode ser o Presidento, posto que o compositor não parece ter sofrido por amor jamais. Besteira. Claro que sofreu.

Implicaram com a Tua Cantiga por conta do verso que promete largar mulher e filhos se o capricho da nega exigir. Seria machismo. E o que responde o autor pelo twitter? Que machismo é ficar com ambas. Dureza.

Tudo isso 51 anos depois de Dona Flor, Vadinho e doutor Teodoro terem compartilhado o leito em harmonia total. E simultâneo a Maria, Monique e Toni se dando bem em Os dias eram assim, onde até o Palhares é bom caráter e o único tarado é o empreiteiro defensor da “família tradicional”.

A impressão que passa é que Chico de fato não escreveu as rimas nem ninguém nunca amou. Estão lá coisas sublimes que sepultam machões sob plumas. Tolera o vigia que pode levar a nega pela estrada afora, aceita a hipótese de um desalmado arrancar-lhe lágrimas – ele próprio, inclusive? –, engole um nome estranho escapado num suspiro, homenageia e condena Antonio Maria no espelho com Danuza e, mais que tudo, ainda arruma a cama.

Ah, Fernandona, dê mais entrevistas, fale mais. Precisamos de você que sacou o Nelson quando achavam que ele era pornográfico, e não largou quando se intitulou reacionário. Só você para nos redimir.

 
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