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Planejamento Il Gattopardo

A meia-dúzia de brasileiros mais ricos tem o mesmo dinheiro que os cem milhões mais pobres. Passamos a semana alarmados com a publicação do estudo da Oxfam, que vai além: metade da riqueza do país está concentrada em 5% da população e no ritmo atual a renda das mulheres só em 2047 será equivalente a dos homens; negros só alcançarão os brancos em 2089.

Para conseguir dormir alguém poderá dizer que o país é muito grande, com realidades diversas demais. Pois vejamos as cidades. Em Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo, a idade média (sem trocadilho) ao morrer mal ultrapassa cinquenta anos. Em Pinheiros chega a oitenta anos.

Os dados são da Rede Nossa São Paulo, que todo ano faz o Mapa da Desigualdade. Me arrisco a dizer que trata-se rigorosamente do mesmo estudo. Alguns exemplos:

Saúde: Na Bela Vista há 46,45 leitos hospitalares por mil habitantes; na Vila Medeiros são 0,041, e 31 distritos têm indicador igual a zero. No Jardim Paulista nasceram 0,117 filhos de mães com menos de dezenove anos de idade; em Perus foram 19,41.

Emprego: Na Barra Funda há 60.900,66 empregos para cada dez mil habitantes; em Marsilac há 168,38 para cada dez mil habitantes.

Violência: Para cada dez mil habitantes entre quinze e 29 anos, houve 0,642 homicídios na Vila Mariana e 10,44 no Campo Limpo. Onze distritos, majoritariamente bairros ricos, tiveram índice igual a zero.

Cultura: 59 distritos não têm sequer um museu. 58 não têm cinema. 60 não tem centro cultural.

O total de distritos é 96.

É claro que essa realidade condena a maioria da população à pobreza perpétua. E está certo o Américo Sampaio, gestor de projetos da Rede Nossa São Paulo, quando diz que ela foi muito bem planejada, não é obra do acaso.

Américo também alerta para o perigo que tamanha discrepância representa à democracia. Como falar em liberdade e Justiça a quem vive nessas condições?

Ele analisa que democracia, na periferia, é um vereador chato passar a cada quatro anos pedindo voto. Antes fosse.

A miséria é cevada cuidadosamente por diversos vereadores que pastoreiam seus territórios como currais eleitorais. As chamadas associações de bairro, em sua maioria, funcionam como milícias que controlam o acesso aos raros equipamentos e serviços públicos disponíveis. Precisa de uma quadra esportiva, tratamento médico, vaga no CEU? Pede para a associação, que requer cadastro com título eleitoral. Quando chega a eleição o que se encontra são reféns, não eleitores.

A “democracia” dos ricos se dá através de entidades de classe que defendem interesses empresariais, que pela lógica deveriam estar aliados à sociedade, mas não estão. A classe média se defende com o cunhado barnabé que troca favores nas repartições.

Para superar essa barreira só tem um caminho: descentralização e participação. Transformar os Conselhos Participativos Municipais, presentes em 32 regiões, em deliberativos. Está no Plano de Metas apresentado pela atual gestão e aprovado pela Câmara dos Vereadores. Porém não será cumprido.

Muito pelo contrário, o que vemos é o esvaziamento dos conselhos, que já não eram lá muito respeitados. O que significa isso? Exatamente a execução minuciosa do planejamento apontado pelo Américo Sampaio. Planejamento Il Gattopardo. Mudar para manter a desigualdade que tanta prosperidade traz aos 5%.

 
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