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Choveu pesquisa

A semana começou com um toró de pesquisas. Dados suficientes para alagar a Paulista. Contei pelo menos três e vou palpitar.

1)

Aquela dita cervejaria encomendou um levantamento sobre preconceito. Mulheres, negros, gays, gordos. Como o brasileiro enxerga quem se enquadra nestas categorias?

Segundo a diretora do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari, responsável pela pesquisa, o resultado é que não temos consciência do preconceito embutido no léxico popular. Como discordar?

Sem querer puxar a brasa para a minha sardinha, falo como gordo que sentiu na vasta camada de pele os efeitos do preconceito. Tenho dois exemplos.

Depois da cirurgia bariátrica, já emagrecido, recebi um bilhete repleto de ofensas. A história inteira está no meu livro, Gordo Pensando, e as quatro pessoas que leram se divertiram. Resumindo, ao ler os palavrões, minha Neguinha ficou tensa e estranhou o fato de eu rir da situação. Ao que expliquei: Pela primeira vez na vida quem quer me ofender não começa a frase com “gordo”.

Outro exemplo é o episódio da banana atirada em campo para agredir um jogador de futebol negro. Cena lamentável. Todos foram solidários. Mas pergunta é: um bombom para um gordo provocaria a mesma comoção?

Então é óbvio que precisamos continuar na luta contra todo o preconceito, porque tem funcionado. E o primeiro passo é admitir que ele está em nós, reconhecer a carga cultural e meter ficha na intolerância ante a discriminação, que ao contrário do preconceito, pode e deve ser dizimada já.

2)

A Transparência Internacional verificou que 11% dos brasileiros admitem praticar corrupção para ter acesso a serviços públicos. É o segundo menor índice entre os países da América do Sul e Caribe.

Parte do meu trabalho é ler pesquisa e fazer análise. Mas não precisa ser do ramo para concluir que a observação da Márcia Cavallari cabe aqui também. Só há uma tradução para este número: não reconhecemos o conceito de corrupção (estou de bom-humor).

3)

Terceira e última pesquisa: Datafolha sobre o governo João Doria. Como era previsto, a aprovação desaceleraria. É sempre assim. Anotei aqui. Me espanta é que o prefeito tenha posto no próprio caminho cada uma das cascas de banana em que escorregou.

A queda chegou a dez pontos. O motivo principal é claro e guarda um paradoxo: a marquetagem exagerada infla expectativas, que acabam frustradas ante a realidade, derrubando a avaliação.

Por outro lado, ela resiste no extrato mais rico e menos dependente dos serviços públicos, justamente o que se mantém fiel à audiência do reality-show do prefeito, onde a vida é bem melhor do que no Terminal Capelinha. Contudo, há uma cratera à vista.

Os que aprovam o João são em maioria usuários de automóvel e ainda estão dispostos a culpar a gestão passada. Porém, amplamente insatisfeitos com a buraqueira (perceptível até para quem assiste aos vídeos que o prefeito grava a bordo do carro), querem asfalto novo para ontem. As obras para sanar o problema, muito aquém da necessidade, foram prometidas para o verão, caso não chova. Será que chove?

Para encerrar, há que se considerar o efeito bola de neve das pesquisas. Um prefeito disposto a manter uma agenda polêmica, que inclui fantasia de gari semanal, campanha nacional, viagens constantes e privatização atropelada, precisa ter sobra de apoio na Câmara.

Para tanto há duas moedas: popularidade e dinheiro (verbas, emendas, cargos). Antes da pesquisa verificar a queda da primeira, a segunda já estava inflacionada. Na véspera da última votação importante foram 160 cargos numa canetada, verdadeiro trem da alegria, símbolo da velha política, oposto do que Doria propõe.

Com o prefeito impopular os vereadores passam a disputar dinheiro. A briga pela grana trava a agenda do governo na Câmara. Parado, o governo perde mais popularidade. Sem popularidade, o prefeito fica mais isolado. E o preço dos vereadores dispara.

 
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