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Adeus, PSDB

Em 2001 me filiei ao PSDB. Mera formalidade. Preencher a ficha e cumprir a burocracia não me fizeram tucano.

Eu já acreditava na agenda política proposta e praticada pelo meu tio-avô André Franco Montoro. Basicamente, descentralização e participação, com Parlamentarismo e voto distrital. Escrevi e falei bastante a respeito e aqui não convém repetir.
Infelizmente não vi o partido lutar por esta agenda. Pelo contrário, acompanhei um afastamento cada vez maior, acentuado com a ida para a oposição em 2002.
Para combater a ascensão do chamado lulopetismo, simultâneo ao ocaso malufista, os tucanos entraram num vale-tudo que incluiu a negação da proposta original em favor do antipetismo.
O maior exemplo talvez seja o combate aos programas de transferência de renda, unificados no Bolsa Família. O partido do Magalhães Teixeira, o saudoso Grama, que na cidade de Campinas inaugurou a renda mínima no Brasil, e da Ruth Cardoso, que levou o conceito para o plano federal com o Bolsa Escola no governo FHC, rasgava a própria história.
Acompanhando a conjuntura, que mostrava a sociedade cada vez mais afastada da política e o partido desnorteado, senti que era preciso fazer alguma coisa além de falar e escrever. Democracia sem partido é impossível. E o partido em que eu acreditava não estava cumprindo sua função. Para tentar ajudar, subi no caixote e me lancei candidato a deputado estadual em 2014. Recebi doze mil votos, sendo dez mil na cidade de São Paulo. Em respeito a cada um eles, voltei a carga em 2016 como candidato a vereador. A votação caiu pela metade.
Guardo com carinho as lições das duas campanhas. Me sinto aliviado em não ter pecado por omissão e gosto de pensar que de alguma maneira contribuí para que o interesse pela participação Política ressurgisse. Tem muita gente boa aparecendo e participando do debate.
Enquanto isso, no PSDB, vi o processo inverso. Invés de se aproximar da sociedade e defender a Política, o partido se entregou à politicagem. Órfãos do malufismo adotados para engrossar as fileiras do antipetismo oportunista, não programático, se destacaram.
O efeito, previsível, foi no plano parlamentar estadual um campeão de votos defender “bandido no saco” e muro contra o Nordeste. No federal, redução da maioridade penal e cortina para o trabalho escravo. No municipal, desde 2012 convivemos com um vereador estelionatário confesso, que foi capaz de falsificar a assinatura de um Covas e a declaração de voto de um Montoro. Repetiu a dose em 2016, ludibriando o eleitor com uma malandragem na mala-direta, no que foi repreendido pelo TRE. Internamente, porém, o partido calou e ainda o elegeu vice-presidente da Câmara Municipal. O distinto é membro do diretório zonal que eu integrava, e nem lá consegui sequer uma advertência.
Para mim era demais. Mas quando o escândalo do Aécio Neves surgiu, tentei pelos canais disponíveis incentivar que ele fizesse a confissão que a sociedade merecia. Em vão. Decidi sair.
Com a ascensão do Tasso Jereissati ao timão partidário, suspendi a decisão. Voz solitária, elogiei o programa em que o PSDB reconhecia seus erros. A maioria crítica venceu e o exame de consciência morreu naquilo.
Na semana que passou sofri em ver o Tasso, líder dos tucanos no Senado, encaminhando voto fechado pela absolvição do Aécio. Nitidamente seu estômago estava mais prejudicado do que o do colega que, ainda com os pontos da cirurgia que extraiu parte de seu intestino, evoluía animadamente no Salão Azul trabalhando pela redenção geral.
Notei que, do diretório zonal ao nacional, pessoalmente nada do que eu fizesse podia ajudar o partido.
Repeti então a romaria burocrática, agora pela desfiliação. Na quinta-feira protocolei a carta no diretório estadual e na sexta informei a Justiça Eleitoral. De novo, mera formalidade. Eu já não pertencia ao partido, até porque é impossível pertencer a algo que inexiste.
Minhas convicções, no entanto, continuam vivas, pulsando, e seguirei com elas, livre, leve e desprendido de qualquer conivência.
 
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6 Comments  comments 

6 Respostas

  1. Antonio Celso Filho

    Caro Leo,
    Não há um senão que possa apresentar quanto a sua postura. O PSDB não é mais o que já foi. Reluto em tomar a mesma decisão, mas tenho dificuldade em ver meu espaço neste partido. Vou tentar ainda defender estas ideias no Congresso do partido no final do ano, será minha última tentativa de dar rumo ao partido. Boa sorte, que encontre uma nova legenda para defender nossos ideais, abraços!

  2. João Schiffer

    Leo Coutinho
    Tivesse eu a mesma facilidade em expor minhas posições e convicções a respeito deste partido, o faria com as mesmas críticas por você aqui colocadas. Sou membro do mesmo mas confesso que na única vez que participei de um evento na pizzaria dos Jardins tive uma recepção fria digna de um clima polar. Ainda permanecerei por aqui, mas confesso que decepcionado com a posição covarde e politiqueira de grande maioria de seus integrantes. Parabéns por tudo o que você postou.