Blog do Léo Coutinho - 150 anos sem Titila e do pingente da Genésia
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150 anos sem Titila e do pingente da Genésia

Mais do que poder, a gente deve transformar caminhadas ordinárias em experiências lúdicas. Para este pedestre, aliás, é condição de vida. Creio que nada do que eu faço continua se não encontro graça pelo caminho.

Outro dia fui à Cidade atrás de um ourives. Remexendo uns guardados, tia Verinha, que vem a ser minha mãe, encontrou um pingente em prata adornado com um espelho. Foi da minha tataravó Genésia Loureiro. Se a filha dela, a bivó Ophir nasceu em 1900, podemos contar uns 150 anos do mimo, que precisava do ourives porque um dos ilhoses estava danificado.

Lá na Barão de Paranapiacaba, a “rua dos ouros”, encontrei um senhor que pediu quinze reais e trinta minutos para resolver o problema. Tempo livre. Aproveitei para ir ao Terminal Parque Dom Pedro II conseguir um Bilhete Único novo. Não deu certo. Encontrei uma fila enorme e voltei para resolver na SPTrans da XV de Novembro. Mas quem anda a pé nunca perde a viagem.

Na ida passei pelo Solar da Marquesa, que namorou Dom Pedro I durante sete dos seus setenta bem vividos anos. Belo sobrado na antiga Rua do Carmo, atual Roberto Simonsen, esquina com o Beco do Pinto.

A cultura popular imagina que as tábuas do imóvel ainda ecoam os gemidos de Titila e Demonão, que era como o casal Domitila de Castro Canto e Melo e Dom Pedro I carinhosamente se tratava em cartas de furiosa paixão.

Só que não. A Marquesa de Santos voltou para a São Paulo natal quando terminou o romance. Comprou o solar, então conhecido como Palacete do Carmo, e acolheu o Brigadeiro Tobias de Aguiar e a grã-finagem da época em saraus disputados, com direito a Castro Alves e Álvares de Azevedo.

Com os fundos dando para o Glicério, a vista devia ser mais bonita do que é hoje, quando se via o rio Tamanduateí, ou mesmo quando o Parque Dom Pedro II ainda era parque, não terminal de transporte.

Mas o que o flaneur aqui gostaria de dizer é que no 3 de novembro próximo celebraremos 150 anos da morte de Titila. A festa que ela daria, segundo o Estadão, está por conta do Luiz Antonio Pereira dos Santos, dono do restaurante São Paulo Cama & Café.

O aniversário coincide com a idade aproximada do pingente que me levou a descobrir o Beco do Pinto, lateral do Solar da Marquesa, hoje está fechado na parte baixa em condição de sítio arqueológico. Mas não foi sempre assim.

Houve um período em que o beco era aberto a todos. A turma do Glicério usava para acessar o Triângulo e, nos dias de chuva, para lavar roupas na cascata que se formava entre os paralelepípedos.

Conta uma placa do Patrimônio Histórico que o Brigadeiro José Pinto de Morais Leme, que deu nome ao beco e vendeu o solar à Titila, não gostava do trânsito e mandou fechar a passagem em 1821. O povo reclamou e conseguiu a reabertura em 1826 – o que a poderosa Marquesa de Santos reverteria em 1834.

Mas ela deve ser lembrada pelas coisas boas que fez. Protegeu jovens estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ajudou financeiramente a construção da Santa Casa de Misericórdia e do cemitério da Consolação.

Pessoalmente, foi vítima de um marido violento que chegou a esfaqueá-la, divorciou-se, frequentou a cama do imperador – pelo que sofreu acusações de ter contribuído com a morte da imperatriz Leopoldina e chegou a ser ameaçada com exílio quando “o Libertador” arranjou o casamento com a princesa Amélia de Luchtenberg –, veio para São Paulo, casou-se novamente, pediu e obteve licença de Dom Pedro II para morar junto ao segundo marido quando este foi preso na Revolução Liberal, dedicou-se à cultura e benemerência inclusive para as prostitutas da cidade, pelas quais é tida como santa.

Se em 2017 São Paulo registra um feminicídio a cada quatro dias, imagina uma biografia assim há 150 anos.

Fico contente que, por acaso, uma peça com idade aproximada tenha atravessado cinco gerações de mulheres da minha família e ido parar no colo da minha Neguinha, que manda em mim mais do que Titila mandou no patrono da Rota.

 
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