Blog do Léo Coutinho - Zé Celso X Silvio Santos
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Zé Celso X Silvio Santos

Impossível não lamentar o vídeo com Zé Celso e Silvio Santos negociando o terreno ao lado do teatro Oficina, onde o prefeito João Doria faz uma ponta numa esquete corporativa impagável, e uma assessora do Zé Celso entra com o contraponto tragicômico: “Essa palavra, empreendimento, é muito forte para nós.”

Meu lamento tem dois motivos. Começando pelo Suplicy ter se comportado. Entrou mudo e saiu calado. Acho que ele se conhece. Igual quem começa a beber e não para mais, o senador é assim falando. Então deve evitar o primeiro pitaco. Bem poderia ter atacado um Bob Dylan no final, soprando soluções.

Mas principalmente é lamentável saber que antes da tecnologia ficar fácil e barata, décadas de reuniões como esta ficaram sem registro. Quando Zé e Silvio começaram esse namoro eu não era nascido. Quarenta anos depois, estão dependentes um do outro. Se alguém ceder acaba a diversão. E igual a casais sinceramente apaixonados, se um morrer o outro logo vai ao seu encontro.

Os trajes merecem nota. O poncho do Zé Celso, que o Silvio chamou de mexicano e foi corrigido, porque é Tahumara, tribo indígena que não se considera mexicana, é uma indumentária de cerimônia.

Elegante além da toalete, Zé Celso não comentou o casaco do Silvio, que aderiu à moda dos coletes salva-vidas recheados de plumas. Quem usa fica parecendo um boneco Michelin. E lá no hemisfério norte, onde inventaram a peça, ninguém local usa em ambiente fechado. Isso é coisa de povo colonizado. Contraponto direto à identidade original festejada no poncho do Zé Celso.

Consciente de que os protagonistas só querem namorar, o prefeito procura contracenar com Guilherme Stoliar, executivo do grupo SiSan. E joga deliberadamente a favor da agenda do Patrão do Baú.

Ao Zé Celso pergunta quem vai pagar o circo ou as tendas, que devolve o boleto à municipalidade. O prefeito replica que não tem dinheiro. E a tréplica, óbvia, merece destaque: “mas os seus amigos têm”.

Ora, se o caixa da cidade está baixo como o alcaide insiste em dizer, e a solução vem de doações, por que não haveria de encontrar patrocinador para uma causa com garantia de retorno publicitário?

Vale lembrar que a Prefeitura gastou quase três milhões de reais com o jilgle da cidade linda. O Tribunal de Contas não gostou e está investigando improbidade administrativa. Deixasse Silvio e Zé Celso criarem o jingle, o dinheiro poderia ir direto para o terreno da contenda teríamos menos um pepino no TCM. Silvio é brilhante neste quesito. Zé Celso idem. Durante a reunião cantarolou um “AnhangaBaú… da Feliz Cidade”.

Para encerrar, fico me perguntando por que não importar da América, invés de casacos-coletes-salva-vidas, termos corporativos e “malls”, a cultura da filantropia, tão exercitada por aqueles estados unidos.

Eli Horn deu a senha no mesmo domingo que a Folha trouxe o vídeo na reportagem do João Carneiro. “Não consigo entender por que amealhar dinheiro sem ajudar [os pobres]. Não tem lógica. Não é justo. Nossa obrigação é conscientizar todo o mundo para fazer o bem.”

Fica a dica para o Sílvio Santos doar o terreno à cidade e bancar a transformação – perto do que doaram para salva-lo da quebra do banco Panamericano, seria troco. E a esperança do próprio Eli fazer igual com o terreno do Parque Augusta. A diferença que falta para a desapropriação, espelhada com o volume que ele pretende doar, sai do bolso do colete.

 
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