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2018 pode ser do camarão ensopadinho com chuchu

Minha tarefa era comer sessenta dos melhores pratos da cidade de São Paulo em um mês. E ainda recebi um cartão de débito com o valor necessário para cobrir a despesa. Invejável? Sem dúvida.

Era o prêmio Paladar Estadão 2012. Convidado pelo amigo Ilan Kow, inventor e então editor do caderno homônimo no jornal, virei jurado. Foi uma delícia.

Ocorre que, confirmando a sabedoria popular, a turma vê as pingas e não imagina os tombos. Conciliar sessenta pratos em um mês com a vida cotidiana não é fácil. No meio há agenda social e profissional que, não raro, envolve comida. Até café da manhã aparece. Coisa de gente aflita, que evito com vigor. Manhã para mim é em casa, lendo os jornais e escrevendo cenários e tendências para a freguesia.

Mas o que eu queria dizer é que, passado o rancão da primeira semana dedicada à comida de chef, vem a saudade da chamada confort food. Arroz, feijão, ovo frito, verdurinha.

Para mim isso explica o ânimo político em 2017. A popularidade do Presidento está na margem de erro, 3%, e não se ouve panelas. Estão cozinhando arroz branco ou venderam a bateria para comprar feijão?

Está puxado. Mesmo nos feriados, quando tradicionalmente os jornais emagrecem e a gente descansa, teve fogo alto. Réveillon: gente estripada e decapitada nos presídios; carnaval: Yunes, Padilha, Funaro e um pacote de dinheiro para Cunha; março: Operação Carne Fraca; Páscoa: Temer responde à delação da Odebrecht; Tiradentes: OAS diz que Lula pediu destruição de provas; Dia do Trabalho: Judiciário delatado na Lava Jato; ainda maio: Joesley grava Temer no porão do Jaburu; Corpus Christi: Coronel Lima banca reforma na casa da primeira-filha; férias de julho: Geddel preso; mês do cachorro louco: Imbassahy flagrado negociando emenda por voto em plenário; Sete de Setembro: Palocci revela pacto de sangue entre Lula e Odebrecht; Dia da Criança: STF lava as mãos sobre Aécio; Finados: PGR Raquel Dodge afirma ser incontroverso o repasse de meio milhão da Odebrecht a Aloysio. No meio disso tudo, o mais votado de 2016 tentou furar a fila do restaurante e acabou vaiado. Amanhã é 15 de novembro, festa da República. Tremei.

Num cenário assim o populismo ferve. Pesquisas mostram que 35% dos brasileiros sentem saudades de Lula e da picanha daqueles anos. Acreditam que berrando de cima de um palanque ele pode reestabelecer o churrasco aos domingos. 13% querem mais pimenta no molho e apostam no destemperado Bolsonaro. Oi?

Em 2017 um estado foi às urnas. Elegeu Amazonino Mendes, três vezes prefeito de Manaus e agora três vezes governador do Amazonas, com 782.933 votos. O terceiro colocado foi Eduardo Braga, citado na Lava Jato, que recebeu 539.318 votos. Ambos perderam para abstenções, brancos e nulos, que somaram 1.016.635 eleitores.

Quer dizer: experiência, alianças políticas, suas lideranças e tempo de televisão contam. Lava Jato idem. Acima delas só o cansaço.

Me parece que a maioria está como a Teresa Batista, cansada de guerra. Sabe que a promessa de picanha para já é bravata e não aguenta mais pimenta. Quer a paz do trivial. Nesse prato, o problema acompanha a solução. Há público para acreditar picanha ou brincar com pimenta. Mas quem sai de casa para comer chuchu?

O nome mais próximo de construir alianças políticas, juntar lideranças e somar tempo de televisão é Geraldo Alckmin, quarenta anos de vida pública e campeão de longevidade no governo do estado de São Paulo, que supera a Argentina em PIB e população. Seu problema são os apelidos. E, paradoxalmente, a solução também.

Na delação da Odebrecht seria o Santo, numa passagem distante que, segundo pesquisas qualitativas feitas pela Travessia Estratégia, não chega a ser comprometedora. Na boca do povo é o Picolé de Chuchu, porque não anima. Por outro lado, santos têm o respeito até dos ateus e o outro nome do chuchu é tranquilidade.

Seu desafio, portanto, é somar tempero sem perder a base. Propor um camarão ensopadinho com chuchu, receita que surgiu no Rio e ganhou o mundo na voz da Carmem Miranda. Os melhores camarões vêm do Ceará. Na falta deles é preciso uma nega baiana ô, que saiba mexer. Sei do que estou falando. Minha avó Olga nasceu a léguas do mar, em Corumbá-MS, e era especialista no prato, que tem uma qualidade extra: se o orçamento aperta, pode ser completado com uma farofinha de ovos, que em todo canto se acha.

 
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