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Senor, pense no que faria o Isaac Abravanel

“Não aprovem nenhuma lei que aumente ainda mais a desigualdade e a dívida.” É um comunista? É um socialista? Não. São os Super-Ricos dos Estados Unidos determinando a agenda do Congresso.

O grupo, autointitulado Riqueza Responsável, é especialmente contrário à proposta Trump de acabar ou subir a linha de corte dos impostos sobre propriedades e herança, que nos EUA tributam bens avaliados acima de US$ 5,49 milhões. Cerca de cinco mil famílias pagam esses tributos, que somam US$ 1,5 trilhão por ano. O PIB do Brasil em 2016 foi US$ 1,8 tri.

Esse imposto é uma beleza e precisa ser entendido no Brasil.

Se você é do grupo que gosta de passear em Nova Iorque, saiba que Rockfeller, Lincoln, Frick, Guggenhein, Whitney, antes de espaços de arte são famílias, que para evitar a inexorável taxa sobre heranças, investem em filantropia. Doando elas matam dois coelhos numa só cajadada: criam legado e descontam impostos. A intenção não surge necessariamente nessa ordem. Mas o que importa é que também não altera o produto.

Se a sua turma prefere Miami, desde já peço que releve minha indelicadeza em pedir um pouco de atenção na véspera da Black Friday. Mas é importante você saber que impostos sobre herança e grandes fortunas, que só incidem sobre as cinco mil famílias mais ricas, é um dos fatores que permitem que sejam mais leves os impostos sobre o consumo, que pegam 320 milhões de pessoas. Sim, o celular mais barato é por causa disso.

No Brasil é o inverso. Não há impostos sobre grandes fortunas ou herança. Aliás, o carnê do seu IPVA está para chegar. Mas se você, invés de carro popular estivesse a bordo de um jato particular, o IPVA jamais chegaria. Porque é isento. Já os impostos sobre o consumo são altíssimos. Por isso o seu tão sonhado jipe coreano custa mais caro por aqui do que um modelo de luxo feito na Inglaterra e vendido nos EUA.

Também é por isso que o Silvio Santos prefere investir em fazer bodas de ouro negociando com o Zé Celso a doar de uma vez o terreno vizinho do Teatro Oficina.

Não é apego ao dinheiro o que o move. É a cultura do milionário brasileiro. Aqui, quem doa é um bocó. Notável é quem gasta uma fortuna com advogado tributarista para entrar na Paradise Papers, espécie de nobiliarquia contemporânea.

Ocorre que Silvio não faz parte disso. Historicamente é um recordista de pagamento de impostos. Pessoalmente leva vida de classe média, usa ternos do Camelo, considera cretino quem tem avião particular, lava a própria louça, não dá moleza financeira para as filhas.

Mas aparentemente se deixou levar. E paradoxalmente a convivência com o Zé Celso contribui para a pose de mau. Silvio valoriza as coisas que o dinheiro não pode comprar. E a convivência com o Zé Celso é uma delas. Ele venera personalidades únicas, amplas, divertidas. E como o Zé Celso não toparia substituir o Chaves no SBT, resta ao Silvio obriga-lo a negociar – exercício que, para um judeu-grego e camelô mais brilhante que o Brasil já viu, deve ser terapêutico.

O que precisamos é cavocar o atavismo no Silvio. Ontem, em reunião no Oficina para definir o roteiro do ato deste domingo 26, que vai unir TBC, Casa de Dona Yaya e coletivos mil pelo Parque do Bixiga, a Catherine Hirsch, poeta e conselheira do teatro, lembrou que Silvio é descendente direto do Rei Davi, passando por Isaac Abravanel, estadista, filósofo e mecenas português, que doou herança e fortuna acumulada para alforriar judeus escravizados ou tentar impedir que fossem expulsos da Espanha. O terreno do Silvio fica na rua da Abolição.

Ao contrário de Isaac Abravanel, Silvio não herdou nada. Mas ganhou muito. A começar pela concessão do SBT durante o regime militar. Depois, quando foi roubado por gente de sua confiança no Banco Panamericano, se viu diante de uma conta bilionária, sobre a qual tinha responsabilidade de dono, mas não culpa de administrador. A salvação da falência veio pela Caixa Econômica Federal, que sob o governo Lula comprou 49% das ações por R$ 740 milhões. E o Fundo Garantidor de Crédito entrou com mais quatro bilhões de reais. O que são dez mil metros quadrados no Bixiga perto disso?

Silvio querido, eu gosto de você. Todo mundo gosta. Desejamos que hoje, ao abrir a Torá, você se lembre do vovô Isaac e então do vovô Zé Celso, e telefone doando o terreno. Ele fica acordado até as três da manhã. O João Doria deita cedo, às duas – mas em compensação, às seis já está no ar. Telefona, Silvio. E se embalar, doa também os estúdios da Vila Guilherme. Sua exposição que vai do MIS pra lá conviveria muito bem com uma bela Fábrica de Cultura.

Ah, chama o Eli Horn para doar o Parque Augusta. Tenho certeza que, dos Abravanel, ele é fã do Senor e do Isaac.

 
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