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Passaredo 2018

Raymond Tusk é um observador de pássaros que de seus bosques particulares ou da cobertura em Manhattan, equipado de binóculo e telefone criptografado, administra os viveiros da política internacional.

Ele não é o único que sabe do apreço dos passarinhos por alpiste. Qualquer açougueiro de Goiás conhece o gosto do passaredo. A diferença entre Tusk e a patuleia é o binóculo e a calma, exercitada diariamente no que os americanos chamam de birdwatching.

No Brasil temos alguns Raimundos. Um dos maiores se chamava José. Discretíssimo, trabalhou duro para que o irmão, Antonio Ermírio de Moraes, pudesse aparecer como grande gestor, filantropo e até dramaturgo. Seu trabalho era duro. Incluía batizado em Roraima, casamento no Mato Grosso, baile de debutante em São Luís do Maranhão. Mas assim garantia o monopólio do cimento.

Nesse vasto mundo pós Lava Jato, os Raimundos seguem o exemplo do Avestruz. Meteram a cabeça no buraco e de lá não saem.

E como em política, bastidores incluídos, espaço vazio não existe, bandos de pardais, inebriados pela volúpia de irem a sabiás na mesma existência, se prontificaram em procurar um espaço para chamar de seu.

Da minha cabana identifiquei dois bandos espalhafatosos.

Se os velhos Raimundos, banqueiros, empreiteiros e alguns industriais, que concentram 50% do PIB, estão feito avestruzes, os outros 50%, filiados ao LIDE, se emplumaram com a possibilidade de ver seu guia, João Doria, aninhado no Palácio do Planalto. Problema logo identificado: o voo do pavão impressiona, porém é curto. Não alcança sequer o Palácio dos Bandeirantes.

Então veio o Renova Brasil. Ideia antiga, experimentada em 2014 e pela mesma turma, com o nome de Projeto Legado. Financiaram campanha de gente boa. Alessandro Molon, Floriano Pesaro, Jean Willys. Mas como ninguém é perfeito, também deram alpiste pro morcego Rocha Loures, aquele do cooper com a mala de meio milhão na frente da pizzaria Camelo.

Para 2018 o grupo quer só os virgens. Políticos experimentados são execrados pelo Renova, cujo manifesto começa cravando: “A atual politica brasileira faliu”.

O olhar para os velhos financiadores é menos severo. Abílio Diniz, chamado pelas justiças do Brasil e da França a explicar o equivalente a dez malas do Rocha Loures destinadas a Antonio Palocci, lá é bem-vindo. Renova de um lado, conserva do outro?

Na sexta-feira passada a repórter Vanessa Adachi, do Valor Econômico, mostrou um terceiro, os Guedes, Paulo e Paula, pai e filha, que por um sofisticado banco com 140 trilhões de dados, observam anseios e tendências da gente brasileira. Com jeito, armaram uma arapuca para um pássaro conhecido pelo bico pronunciado, chamado Luciano Huck, que alertado pelo ninho familiar, preferiu a tranquilidade do Jardim Botânico.

Os Guedes, porém, não desistiram. Paulo, liberal com formação em Chicago e um dos fundadores do banco Pactual, agora é cotado a ministro da Fazenda de Jair Bolsonaro, periquito metido a gavião.

Enquanto isso, em algum lugar, graúna do ABC, tucano paulista, pomba socialista e arara verde da Amazônia lutam contra a extinção.

 
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