Blog do Léo Coutinho - Paulo Montoro
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Paulo Montoro

Não fiquei triste quando meu avô Chico morreu. Um cara cheio de vida como ele, amante de música, literatura, da conversa em sociedade, por conta de um tombo-derrame numa calçada do Rio de Janeiro aos 90 anos, onde a ordem dos fatores não tem a menor importância, havia dois anos estava deitado numa cama e sequer podia ler. Foi confortante saber que ele enfim descansava.

Vinte anos depois uma sensação parecida chegou com a notícia da morte do meu tio Paulo Montoro. E com um conforto extra: tio Paulo era uma figura sublime, e tanto que, mesmo em vida, conversando, abraçando ou em pensamento, a sensação da sua presença era praticamente igual. E naturalmente permanece, mesmo na ausência do corpo.

Quem melhor definiu o tio Paulo foi o Jorge da Cunha Lima, numa homenagem enviada “da distância de milhares de quilômetros” físicos e nenhum centímetro espiritual. Destaco duas imagens: a do místico que virava terra quando se tratava de arquitetura, construindo casas em taipa de pilão, e a do amor inexorável como os incêndios da Califórnia, terra natal do Kelley White, com quem foi casado por quarenta anos.

A história de amor do tio Paulo e do Kelley é a mais bonita que assisti. Viveram em sintonia total, compartilhando tudo, do talento para transformar as belezas da Natureza em coisas igualmente belas até o que temos de reserva em nossos corpos. Tio Paulo precisou de um rim e Kelley deu um dos seus, proporcionando mais uma década de vida tranquila. Tratavam o fato com leveza. Kelley dizia: “Paulo está ótimo. Rim importado é muito melhor…”

Por tudo isso, quando encontrei o amor da minha vida, fui pedir a eles que aceitassem ser nossos padrinhos de casamento. Queria que a história deles abençoasse a nossa. Aceitaram. Foram testemunhas no civil, integraram juntos nosso altar na paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e cuidaram com carinho da decoração do salão onde recebemos os cumprimentos.

Quando fui candidato a deputado abriram sua residência, a velha Zacharias, casa da tia Lucy e do tio André Franco Montoro, onde as Diretas Já foram articuladas, para uma reunião de apresentação da candidatura. Depois, candidato a vereador, montei o comitê no salão dos fundos, onde também funcionaram os do Montoro. Além de simbólico, foi fundamental para manter a serenidade ante a intensidade da campanha. Um radio velho, daqueles equipados com fita K-7, ficava permanentemente sintonizado na rádio Cultura, tocando música clássica.

Nos últimos tempos, já precisando de um rim novo e com dieta restrita pelo tratamento para o transplante, preparei caldo de carne, e ele gostou tanto que, internado no hospital, voltando de uma intervenção, pediu mais. Ah, e na ala D do Sírio Libanês, a mais recente, com exceção da cama por causa das conexões com os aparelhos, reconfiguraram todo o quarto, melhorando a funcionalidade.

Na despedida, tio Paulo repetiu a discrição da vida toda. No dia 12 de dezembro foi aniversário do tio Rico, seu irmão e também meu padrinho. No dia 15, celebrou-se a data do Arquiteto e Urbanista. Tio Paulo morreu no 13 e foi seu corpo foi velado e enterrado no 14. Na madrugada entre os dois, o céu do Brasil foi embelezado com a última chuva de meteoros geminídeos. Adivinhem por quem.

 
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