Facebook YouTube Contato

Churchill vive

Churchill vive. Se nas telas noticiosas faltam líderes políticos, nas de cinema e serviços de streaming eles estão presentes e gozam de vasta popularidade. O palpite é que o segundo fenômeno derive do primeiro.

Foi o que disse hoje na Folha o Igor Gielow, especialmente sobre o Churchill. Minha impressão é igual e reforçada por Peaky Blinders, séria da BBC com 24 capítulos disponíveis no Netflix. Subúrbio londrino do pós-guerra, gangsters e o jovem Churchill ministro do Interior movendo as pedras nos bastidores.

A análise do Gielow acaba com uma referência a Dunkirk, primeira-fita de 2017, que no final tem um soldado repetindo o discurso “Never surrender”, tão forte que a ausência do autor não faz falta.

Outro que tem seguidores é o Designated Survivor que acabou na Casa Branca. Pára-quedista acidental, que tocou o solo sem ter saltado jamais. Nesse caso, infelizmente, o Netflix brinca de Silvio Santos e muda a cronologia da liberação dos capítulos sem nenhum critério.

Mas o que eu queria dizer é que a narrativa às vezes é mais importante do que o narrador. Digo, o mundo precisa de uma agenda clara, pactuada com a sociedade, as empresas, a comunidade internacional. E precisa de continuidade. Por isso, o narrador, ou o líder, é secundário. Até porque ele pode e deve ser substituído. A agenda, o norte, a narrativa, deve ter força e apoio para continuar.

Meu trabalho é construção de narrativas, e sobre elas cito dois exemplos que estão na ordem do dia.

O primeiro é o Presidento Michel Temer. Noves fora o mérito, a reforma trabalhista passou no Congresso. É a única entrega que ele fez ante as encomendas do mercado. Na Justiça, enfrenta dificuldades. No mercado, idem. Os passaralhos nas universidades são um ótimo exemplo. Mas o poder do Michel Temer é restrito à seara política. E é justo nessa seara que ele compra um abacaxi do tamanho de Cristiane Brasil para descascar. Tipo imcompreensível.

O segundo, muito melhor, é o acordo das Coreias do Sul e do Norte em torno dos jogos de inverno. Depois de dois anos sem trocar um bom dia, as autoridades da península se sentaram para conversar. E no pacote saiu um compromisso de desestressamento militar. É fantástico. Nem precisava do Trump e seu tuíte comparando o tamanho do botão de cada um para ser tão bom.

E sobretudo mostra o poder da narrativa. Quem imagina que globalização se resume a Mc Donald’s, Marlboro, Nike e jeans, se engana. Os Jogos Olímpicos também são globalização. Assim como a Copa do Mundo e a Fórmula 1. O tomate, que saiu da América, foi a Europa e voltou cobrindo o macarrão que tinha chegado à Itália por influência da China, idem. E junto deles os tratados internacionais, de proteção ao meio-ambiente e aos Direitos Humanos. Noite do Oscar, Semana de Moda de Paris, Feira de Turismo de Madri, intercâmbio de estudantes. Tudo globalização.

Daí que não adianta o nacionalismo tentar. Pode escrever: não passarão. A união das nações é um esforço hercúleo (com trocadilho), secular, se tornou atávico e vai continuar.

 
 Share on Facebook Share on Twitter Share on Reddit Share on LinkedIn
Comentários desativados  comments