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The Post

Entre os tantos privilégios que Deus me deu, destaco o piano.

Falo em linguagem vulgar. Infelizmente, não aprendi tocar qualquer instrumento. Invejo o Casarini, que depois de velho aprendeu a tuba. E eu, que já nasci velho, deveria me dedicar.

Mas como ia dizendo, minha gratidão é pela dentição. Invejável. Nunca usei aparelho nem precisei arrancar os sisos. Cáries, só na infância, e bem tratadas por amalgamas que permanecem. Há quem diga que é feio e prefira porcelana. Discordo. Gosto desse clima oxidado e decadente. Me lembra as pias com manchas de ferrugem das casas velhas ou a prataria escurecida de quem gosta mais da história do que da aparência.

Meu teclado viveu bem até que decidi disputar campanha eleitoral. Para deputado estadual em 2014, quebrei um dente. Para vereador em 2016, abri um canal. Minha dentista, a doce e dedicada doutora Kadna , que não se cansa de elogiar meus incisivos, caninos e molares – desde os pré até os sisos, diagnosticou: bruxismo. Tensão. E me deu uma placa para o sono.

Trago essa história porque ontem à noite, pela primeira vez, pensei em usar a placa no dia-a-dia. Se a gente usa óculos escuros para proteger os olhos, sapatos de tênis para não machucar os pés, por que não usar coxins para aliviar os dentes?

Era a pré-estreia do The Post, fita nova do Steven Spielberg. Quando assisti o Encurralado, dos verdes anos do mesmo diretor, estava eu nos meus verdes anos, de modo que não sei dizer se me mordi tanto quanto ontem à noite.

Os elogios à Meryl Streep e ao Tom Hanks esta freguesia poderá encontrar em outras páginas. São muitos e merecidíssimos. E meu amigo Bahia, que emigrou para Nova York, e viu a sala explodir em aplausos ao final da fita, comentou no whatsapp que não poderia haver interprete melhor do que o Bruce Greenwood para o secretário McNamara.

A exibição terminou com um debate entre O repórter Clóvis Rossi, da Folha, e o professor (e definitivamente diplomata) Eugênio Bucci, colunista do Estadão, com mediação do Sérgio Davila, também da Folha. No final, a gloriosa participação dos “malucos de conferência”, tipo bem descrito em um número antigo da Piauí. Me identifico e, por isso, me controlei enquanto pude, mesmo sentado no gargarejo.

Queria falar do lado romântico do filme. Da tipografia à solidariedade na imprensa, que em São Paulo é até geográfica: a Barão de Limeira começa na praça Júlio de Mesquita.

Precisamos de mais dela. E isso inclui a sociedade e o chamado mercado. O Rossi comentou que hoje o jornal apanha até dos leitores. O Bucci emendou que o entretenimento passou a ser o fio condutor da notícia. E o Davila, provocado pelo Eduardo Muylaert, lembrou da pressão sobre a Folha quando levantaram o patrimônio do ex-ministro Antonio Palocci, antes da sua segunda queda. Se um jornalão sucumbe, quantos Francenildos serão sacrificados? A Folha não sucumbiu e o Palocci está preso.

Isso não absolve o mercado. Dinheiro há. As agências de notícias crescem feito mato pelos canteiros e as redes sociais são maiores que as nações. Mas os jornais minguam. A impressão que o filme passa é que o Post, um jornal regional no começo daqueles anos 1970, empregava mais gente do que toda a imprensa brasileira em 2018.

A pergunta que fica é: aonde vamos parar. Se um algoritmo bem trabalhado elegeu o inquilino da Casa Branca, uma campanha de saques bancários sob boato de falências chega a ser moleza. E, quando vier, quem terá credibilidade para salvar o sistema?

 
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