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A corrupção diminuiu ou se concentrou?

“NO SEGUNDO IMPÉRIO, um fazendeiro baiano escreveu zangado para um senador, pois este não havia conseguido enfiar seu filho na faculdade, como solicitara. Um século depois, queixava-se um alto funcionário do MEC, dizendo que a Capes não era mais a mesma, pois um juiz, amigo dele, havia solicitado uma bolsa de estudo para o filho e esta fora negada. Imagine, diz ele, um magistrado que merece todo o respeito tendo uma bolsa para o filho negada!”

Claudio de Moura Castro faz um retrato interessante da diminuição da corrupção média na sociedade (Veja). Talvez seja mais um caso de concentração, igual a financeira, com um pequeno grupo fazendo muito e uma imensa base sem qualquer proteção. Mas é verdade que, pelo menos na classe média, diminuiu.

Me faz lembrar das privatizações das teles, que a classe média rejeitava. Primeiro porque o telefone até então declarado no IR perdeu o valor. Depois porque conheciam alguém que conhecia outrem que ganhara muito dinheiro. E principalmente porque foram parar no mesmo SAC do povão, algo muito desagradável para quem estava acostumado a resolver problemas pedindo favor ao conhecido do amigo do cunhado que tinha sinecura na Telesp.

E por falar em retrato, me lembro também do fotógrafo e advogado criminal Eduardo Muylaert. Na redemocratização ele foi secretário da Justiça e da Segurança no governo Franco Montoro. E se inscreveu num concurso, acho que para procurador. A turma suspeitou: secretário disputando concurso? Ainda sob a sombra da ditadura, mesmo num governo eleito diretamente (Montoro venceu Jânio e Lula), a imagem era estranha. Não estava claro para todos que o país começava mudar. E ele explicou: estranho é ter, por cargo de confiança, poder sobre tanta gente concursada. Fez a prova e passou. Em primeiro lugar.

Anos antes, no governo Maria Marin, a mulher de um amigo era nomeada para cargo equivalente. A decisão era sempre uma prova oral. E a pergunta que lhe fizeram foi: quem descobriu o Brasil? (Em tempo: ela não sabia e não gostou. Mas aceitou porque o Brasil era assim.)

 
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